Abrace os Blogs:
Um estudo empírico sobre o processo de recepção em Weblogs
Carmela Toninelo
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
Centro de Ciências da Comunicação
Abrace os Blogs:
Um estudo empírico sobre
o processo de recepção em Weblogs
Autora: Carmela Toninelo
Monografia de Conclusão do Curso de Jornalismo
Orientador: Ms. Fabrício Silveira
São Leopoldo, 13 de junho de 2003.
RESUMO
A diferença inovadora dos estudos sobre
comunicação no âmbito da Internet consiste na ultrapassagem dos esquemas
funcionalistas que explicavam o processo comunicacional centrado apenas em
observações. Neste trabalho buscamos estudar apenas um viés desses novos campos
de experiência a partir de nossa análise sobre o processo de recepção em
Weblogs. Através de um trabalho empírico dentro deste ambiente exploramos a
natureza complexa do processo de recepção ao mapear aspectos como
interpretação, sensibilidade e interação nesse processo. Partimos do
pressuposto que os receptores propiciam a configuração de um mundo sensível, e
que elementos como a prática e o discernimento humano desempenham um papel
muito importante no estudo da recepção deste ambiente.
Abstract
The innovative different in communication
studies when applied to the Internet consists in surpassing functionalist systems
which described the communication process centered solely on observation. In this effort we seek to study only one
channel/perspective of these new fields of experience through our analysis in
the Weblog reception process. In working empirically
within this environment we explore the complex nature of the process of
reception by mapping aspects like interpretation, sensibility and interaction. We start by assuming that the receptors make
the configuration of a sensitive world possible. Furthermore,
we assume that elements like practice and human discernment perform a very
important role in the study of reception in this environment.
hellojed
Agradecimentos
Foi porque um dia meu orientador me
emprestou o livro errado que este trabalho nasceu. E eu me lembro que um dos
primeiros conselhos que recebi quando comecei a escrever foi: "cuidado pra
não abraçar o mundo com o TCC". Então eu resolvi abraçar os blogs trazendo
o código para o coração, que é o que Gustavo Fischer diz ser o que eu faço de
melhor desde o primeiro minuto
que conversamos sobre web e vida.
Muitas pessoas colaboraram para as idéias aqui presentes. Em especial, devo
agradecer a todos os 'bloggers' que tão atenciosamente e prestativamente
responderam minhas perguntas, e a Chuck Olsen a quem no final da pesquisa eu
encontrei como um novo amigo.
Devo muito a agradecer também a cinco pessoas: meus pais pelo apoio e atenção,
meu orientador, Fabrício Silveira por toda a paciência, reflexão e abraços, a
Gustavo Fischer que tantas vezes cuidou de minhas angústias sendo um super
conselheiro, e a Charles Di Pinto por ter me acompanhado nesta pesquisa durante
dias e noites, sendo o companheiro de sempre para todas as horas.
Sumário
INTRODUÇÃO
1 blah blah blah blogs
1.1 Da etimologia à
caracterização
2 quem mora na blogosfera
2.1 Cinco weblogs em
estudo
3 uma biblioteca à blogosfera
3.1 Em busca da reflexão
teórica
4 os vizinhos da Blogosfera
4.1 O percurso da investigação
empírica
5 A (há) vida na blogosfera
5.1 A incorporação de
referências à investigação empírica
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANEXOS
Introdução
Há algum tempo mudanças inquietam nossa sociedade. A potencialidade de
alterações radicais em todos os níveis de nossas formas de viver e nos
comunicar faz com que alguns antevejam uma era de ouro da humanidade – em que
todos conectados se comunicarão com o mundo –, enquanto outros acreditam que
passamos somente por um processo de imbecilização do mundo, nas quais as
mudanças que sempre ocorreram naturalmente são agora vistas sob o escopo de
revoluções mundiais.
Seja qual for o real posicionamento destas mudanças, uma coisa parece
ser clara: o mundo como conhecemos passa por um processo de mutação. Os
responsáveis por isto são os computadores, a linguagem digital e as novas
tecnologias da comunicação e informação (NTICs), de transmissão de dados.
Alguns autores falam em "Modo de Vida Digital", "Geração
Digital", "N-Generation", "Sociedade sem Papel" e
"Infoera". Estes são alguns dos títulos deste novo estilo de vida que
se prenuncia.
O fato é que dúvidas existem, primeiro devido à velocidade das mudanças
dos implementos técnicos, que antes levavam gerações para serem aperfeiçoados
e agora mudam em questão de meses. De acordo com a Lei de Moore
[1]
, "a capacidade de processamento dos computadores dobra
em média a cada 18 meses".
A revolução se encontra no ponto em que a linguagem digital permite que
em uma mesma plataforma sejam transmitidas as mais variadas informações
(textos, hipertextos, vídeos, sons, imagens). Isto, somado à presença universal
dos computadores e da extensa rede de comunicação, que se estende pelo planeta,
faz com que em poucos segundos tenhamos uma quantidade de informações jamais
dantes sonhadas.
O resultado disto é que temos novas formas de nos comunicar; ou melhor,
segundo o professor Jacques Vigneron, do Programa de Mestrado e Doutoramento em
Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), há mutações das
formas tradicionais. Estes meios de comunicação híbridos permitem uma liberdade
de ação que antes era impossível, e sendo assim temos formas diferentes (para
não dizer novas) de interpretarmos, interagirmos com os outros e também de
sentir.
Uma das maiores potencialidades da Internet é a capacidade de que cada
indivíduo conectado a ela seja um transmissor de informação. Porém, isso
acarreta em um grande problema: a qualidade e confiabilidade da informação nela
disponibilizada.
Segundo John Downing (2002), os críticos da Internet afirmam que a
informação que circula pela rede é muitas vezes incontável, transitória e
tendenciosa. Os websites podem apresentar conteúdos subjetivos e tendem a mudar
de endereço ou desaparecer por instabilidade organizacional, falta de recursos
ou mudanças nos créditos autorais. Mas essa crítica, em vez de construtiva,
priva os leitores da Internet do exercício de poder, pois, em primeiro lugar,
supõe que eles não exercem o juízo crítico ao dar credibilidade às fontes ou
avaliar as situações de diferentes pontos de vista.
A Internet não é produto de um espírito empreendedor, mas da pesquisa
acadêmica, financiada pelo Estado. A Internet, praticamente desde o começo,
mostrou uma combinação de características singulares: ela é produto do setor
público; sua concepção foi rejeitada pelo setor de telefonia; ela foi
construída seguindo um único padrão; ela é e sempre foi propriedade pública;
não possui um comando central e é, predominantemente, americana. Embora a World
Wide Web (Web) tenha começado a operar totalmente somente no início dos anos
90, ela tem sido o mais importante veículo isolado a combinar as virtudes
idiossincráticas da Internet num meio novo e poderoso de comunicação.
Diante da perspectiva de uma análise cultural da Internet, alguns teóricos
[2]
observam que ‘essa rede global’ não foi criada a
partir de um tratado que a obrigava a resolver, em um passe de mágica, todos
os problemas culturais e sociais do planeta. Se isso ocorre é devido a superestima
e idealização de ‘olhares humanos’ perante o espaço. Se a angústia e o fascínio
parecem andar de mãos dadas por um tortuoso iniciar de século quando nos percebemos
cercados de tanta maquinaria que resolve o domínio humano (FISCHER 2002, p.
3), seria inicialmente relevante à reflexão desse ‘andar de mãos dadas’ reconhecermos
dois fatos, os quais foram mencionados por Pierre Lévy, em seu livro “Cibercultura”:
Em primeiro
lugar, que o crescimento do ciberespaço
[3]
resulta de um movimento internacional
de jovens ávidos para experimentar, coletivamente, formas de comunicação diferentes
daquelas que as mídias clássicas nos propõem. Em segundo lugar, que estamos
vivendo a abertura de um novo espaço de comunicação, e cabe apenas a nós explorar
as potencialidades mais positivas deste espaço nos planos econômico, político,
cultural e humano. (Lévy 1997, p. 11).
Se esta pesquisa propõe-se a notar a angústia e o fascínio, é de forma
a reconhecer o indivíduo autônomo, como um indivíduo receptor, alguém capaz de
dar sua opinião sobre um assunto, formular suas idéias e discordar das outras
pessoas. Num processo de interatividade que em geral ressalta a participação
ativa do beneficiário na troca de informação, o personagem/tema desta pesquisa
é aquele que decodifica, interpreta, participa, mobiliza seu sistema nervoso de
muitas maneiras, e sempre de forma diferente de seu vizinho.
Vale ainda ressaltar que, em essência, o enfoque que daremos à Internet
nesta pesquisa será o de mídia radical descrito por Downing como aquela que:
consiste
na participação das pessoas na criação de formas interativas de comunicação que
atuam como força de compensação para o fluxo unilateral que é o próprio da
mídia comercial (Downing 2002, p. 275).
Diante da idéia de que a informação e os indivíduos são
inevitavelmente, e sempre, partes integrantes de ricas redes sociais, e diante
do papel da linguagem no comportamento humano, proponho-me a estudar um
exemplo, de especificidade singular, de um modo de expressão que coloca em
perspectiva discussões importantes dentro do tema da recepção. Partindo do
ponto de vista de que dentro dele há uma lacuna quanto à dimensão de
sensibilidade, a problematização proposta nesta pesquisa visará mapear o
processo de recepção nos Weblogs, uma espécie híbrida
de diário pessoal/guia de sites.
Ao explorar a natureza complexa do processo de recepção, pretendo
mapear a trilha investigativa fazendo referência à interpretação, sensibilidade
e interação desse processo.
O princípio desta trilha investigativa está na configuração do cenário
a ser estudado, os Weblogs, apresentado no primeiro capítulo. O olhar que
pretendo desenvolver deste objeto (do ponto de vista da recepção) será
realizado a partir de um exercício/ensaio descritivo de cinco Weblogs, que
serão apresentados e justificados no segundo capítulo. Neste ponto, também
indicarei algumas tomadas de decisão do recorte dado ao objeto (quais Weblogs/autores
foram estudados) e proponho-me apresentar ao leitor questões referentes à
operacionalização da pesquisa, ou seja, de que forma obtive os dados
concernentes à investigação proposta.
Mapeadas algumas questões referentes ao objeto Weblogs não apenas no âmbito
de sua definição mas delineando alguns de seus pontos principais como autoria,
estética, estruturação, atualização e formas de conteúdo; somados à introdução dos cinco
‘personagens/autores’ do estudo, passaremos a apresentar o objeto em diálogo
com algumas fontes teóricas em torno das questões do processo de recepção:
interpretação, sensibilidade, interação.
Não prevendo um fim a este diálogo teórico, mas buscando aumentá-lo,
partirei para o capítulo quatro com o objetivo de resgatar a atenção à problemática
da recepção, compreendendo-a como uma questão empírica e justificando as
escolhas metodológicas desta pesquisa. O que proponho no capítulo seguinte é
tecer/transcrever entrevistas qualitativas de usuários/leitores dos Weblogs
apresentados no primeiro momento do trabalho.
Apesar de todas as previsões de que a revolução da qual a Internet faz
parte nos propiciaria um local isento de pessoas, repleto de máquinas e Dilberts
[4]
, o último capítulo desta pesquisa buscará revelar que as
interações humanas, as conversas humanas e o significado humano ainda formam
o coração pulsante da Web no momento em que proponho-me ao exercício de interpretação
à luz dos elementos teóricos.
O último capítulo desta pesquisa é o da hipótese norteadora de
assinalar que a recepção ocorre em um contexto social muitas vezes omitido,
quando muito esquecido nos estudos sobre a Internet; que elementos como a
prática e o discernimento humano desempenham um papel muito importante no
estudo da recepção. Trata-se de uma busca ricamente humanística pelo contexto,
interessada nas questões de interpretar, sentir e interagir no universo da Web,
cenário onde os Weblogs estão inseridos.
We didn’t start the weblogs
No, we didn’t incite ‘em
But we’re trying to write ‘em
Nikolai Nolan sob Billy Joel na música
“We didn’t start the fire”
Chuck Olsen
[5]
é um americano residente de Twin Cities no estado de Minnesota.
Chuck trabalha como produtor em Web
para o canal de televisão “Twin Cities Public Television” e atualmente realiza
um documentário independente sobre Blogs – “Blogumentary A Documentary About
Blogs
[6]
”. Em 20 de maio de 2003, Chuck disponibilizou
na Web, a primeira versão do trailer
[7]
de sua produção que pretende lançar no segundo semestre
desse ano. Em sete minutos de vídeo, mostrando pequenos trechos ilustrativos
sobre o será apresentado no material final, Chuck exibe algumas respostas
capturadas à enquete feita por ele nas ruas de Nova Iorque. A pergunta era:
“você sabe o que é um blog?”
Há um debate constante quanto a definição de Weblogs. Tal como
sociedade de bandos, cuja cultura não pode ser tocada porque não pode ser
encontrada, a liberdade é intensificada para os que participam de tal projeto. André Lemos, em seu artigo “A arte da vida: diários pessoais e
webcams na internet” sugere:
Ciberdiários, Webdiários ou Weblogs são
práticas contemporâneas de escrita online, onde usuários comuns escrevem sobre
suas vidas privadas, sobre suas áreas de interesse pessoais ou sobre outros aspectos
da cultura contemporânea (Lemos 2002, p.1).
Ao sugerir isso, Lemos não
apenas generaliza o conceito como também falha como pesquisador ao que
observamos sua concepção apressada de igualar diários online e Weblogs. Assumir
que o gênero com o qual se identificam se torna a melhor definição aplicada só
ocorre diante da hipótese de que não existem dados que o contradigam. Essa
empolgação com as novas possibilidades de representação socialmente responsável
é o que faz com que a produção preceda a reflexão crítica sobre o objeto. Sobre
essa questão Fischer afirma:
É
preciso explicar a produção comunicacional presente na web denominada weblogs
ou simplesmente blogs, cujo surgimento inicialmente estava atrelado a uma
especificidade de construção, mas que com o crescimento de sua prática logo
passou a receber apropriações outras que determinaram que sua estrutura –
baseada em atualizações constantes – passasse a ser interpretada como uma forma
de diarismo online. (Fischer 2002, p.71)
Segundo Blood (2002), o termo Weblog foi batizado
por Jorn Barger
[8]
em dezembro de 1997, como resultado
de um jargão derivado da união das palavras inglesas Web (rede) e log (registro).
Um weblog (por vezes chamado de blog ou página
de notícias ou filtro) é uma página da internet na qual um weblogger (por vezes chamado de blogger,
ou um pré-navegador
[9]
), ‘registra’
[10]
todas as outras páginas que ele acha interessante. (Barger
1999)
Inicialmente, de acordo com
Blood, “Os primeiros weblogs eram sites com vários links
[11]
da Web. Cada um deles era uma mistura
de links de proporção única, comentários, pensamentos pessoais e ensaios”
(BLOOD, idem, p. 7). Eram ‘diários de navegação
[12]
’ dispostos nesse estranho sistema em que a informação mais
recente aparece antes (os weblogs lêem-se em regressão temporal). Ao fim do
dia (ou mesmo durante o dia), os autores colocavam no seu weblog uma lista
dos sites que visitaram durante esse período. Com a evolução, muitos autores
começaram a colocar comentários aos ‘links’, passaram a destacar os artigos
que podiam ser facilmente passados sem notar pelo usuário típico da Web, artigos
de fontes menos conhecidas, além de terem passado a fornecer fatos adicionais,
observações alternativas e pessoais.
Blood afirma que os primeiros
weblogs eram “entusiastas da web” que geralmente apresentavam links para “cantos
desconhecidos da web e notícias que valiam a pena serem mencionadas” (idem,
p.9). Estes ‘entusiastas’ eram usuários da Internet que detinham o conhecimento
de programação ou manuseavam bem HTML
[13]
(o que requeria conhecimentos técnicos
ao nível da criação de websites, ou programação através de CMS
[14]
).
Eram editores
[15]
na medida em que escolhiam sites e links que desejavam recomendar
ou destacar através de suas próprias páginas, os weblogs. [...] Os editores
dos weblogs participam na disseminação e na interpretação da notícia que nos
alimenta a cada dia (p. 9)
Conforme o processo continuou
e a quantidade de weblogs aumentou, a prática prerrogativa potencializou o
gênero/categoria como forma de definição dos Weblogs. Segundo Blood isso passou
a ocorrer a partir de julho de 1999 quando foram lançados vários serviços
gratuitos que auxiliavam a qualquer um, até mesmo aqueles sem conhecimentos
respeitantes à elaboração de websites, iniciar o seu próprio weblog. A mais
importante ferramenta lançada, o Blogger
[16]
, é descrita por Blood como a fagulha
para o que acabou vindo a se chamar blog , um “diário de formato curto”.
É esta relação do livre-formulário através de
uma interface funcional combinada com a facilidade de utilização absoluta
que se tem, que na minha opinião mais do que qualquer outro fator, estimulou
a mudança do weblog de estilo ‘filtragem
[17]
’ para o blog de estilo ‘diário’
(p. 10)
Ozawa, um dos fundadores
do site Diarist.net
[18]
, concorda com Blood a respeito
do que ele considera automação dos processos técnicos de produção de um weblog
como razão central para a explosão de criação de weblogs na rede:
Não deveria ser surpresa, portanto, que as
pessoas começassem a gostar de falar o que pensam e passassem a abandonar a
função original dos weblogs, mas tirando vantagem das ferramentas dos weblogs
como um fácil caminho para publicação online. (Ozawa 2001)
Simplificando a capacidade de publicar na
Rede, os Weblogs tornaram-se verdadeiros espaços de exercício da Narrativa
Comum
[19]
. De acordo com Hourihan (2003),
co-fundadora da empresa Pyra
[20]
, “é inviável definir os weblogs baseados apenas na observação, e não na experiência.” A
observação de Hourihan torna-se relevante ao pensarmos em como o ser humano
é uma fonte inesgotável de sentimentos e impressões, que, ao jorrar, transforma
mentes e corações, influenciando diretamente na transformação do mundo à sua
volta tanto quanto em sua própria transformação. Exemplo disso é o relato
de Blood quando
de sua experiência perceptiva publicando seu weblog “Rebecca’s Pocket” (O
bolso de Rebecca):
Logo
após produzir “Rebecca’s Pocket” eu notei dois efeitos que não esperava. [...]
descobri meus próprios interesses. Eu pensei que soubesse quais eram, mas
depois de linkar informações por alguns meses eu pude ver que estava muito mais
interessada em ciência, arqueologia e questões de injustiça do que eu percebera
antes. [...] comecei a valorizar mais meus pontos de vista. [...] comecei a
sentir que minha perspectiva era única e importante. (Blood 2002, p. 12)
Provavelmente desde que o
ser humano é o que é, vivemos em grupos onde cotidianamente ocorre o debate e a
expressão do que se pensa e o que se sente. Somos movidos por isso, por esse
trânsito de informações chamado cultura. Num mundo onde os meios de comunicação
de massa ainda são a forma de falar mais difundida, mas onde também uma nova
maneira emerge, é interessante observar algumas coisas esquecidas (ou
ignoradas) sobre esta nossa expressão cotidiana que são perceptivas com os
Weblogs, uma espécie de super-dinâmica comunitária que se estabelece e evolui
gradativamente, sem conhecer centralização intrínseca, e tornando possível a
interconexão barata entre indivíduos e entre o ‘self’, sem intermediários. Um
lugar onde o que se diz, está instantaneamente disponível para ser ouvido pelo
mundo inteiro.
Se olharmos com mais atenção ao conteúdo dos Weblogs, poderemos
observar que o que todos têm em comum é o formato. O modo como são escritos ou
como dão-se os discursos neles encontrados é uma projeção de idéias individuais
e livres.
Ozawa (2002) afirma que diários
online e weblogs assemelham-se somente aos olhos do usuário/leitor, que no
máximo perceberia duas diferenças básicas: “novo no topo
[21]
” e “entradas mais curtas”. Em suas
considerações a este respeito, Ozawa observa a concepção/hipótese do diarista
online e sua produção enquanto espaço conceitual demarcado em relação ao espaço
dos weblogs:
[...] um weblog tradicional é focado fora do
autor e de seu site. Um diário online [...] olha para dentro – as experiências,
pensamentos e opiniões do autor. [...] Uma pessoa que mantém um diário ou
journal online está registrando sua vida e não a web, não importa como eles
expressem suas palavras. (Ozawa, idem)
O conteúdo
dos Weblogs caracteriza o gênero/categoria a qual pertencem. Observar o gênero/categoria
de modo a defini-los contradiz a reflexão crítica e mais detalhada sobre o
objeto. A problemática desta pesquisa não se propõe a estudar o debate entre
gêneros como forma de definição, mas é importante para esta pesquisa ressaltar
que a fórmula original dos Weblogs eram “links com comentários, freqüentemente
atualizados.” Com a disseminação da prática e a apropriação das ferramentas
pelos usuários, permitindo maior facilidade em termos de publicação de páginas
na web conforme já mencionado, Blood afirma que “atualmente
os weblogs estão definidos pelo formato: uma página regularmente atualizada
com entradas datadas, sendo as mais novas estabelecidas no topo” (p. 9). E
para finalizar a reflexão sobre a demarcação feita por Ozawa,
se consultarmos Webopedia
[22]
sobre Blogs, encontraremos a observação de que “blogs freqüentemente
refletem a personalidade do autor”.
Nossa questão agora será recuperar a
observação de que o que todos os Weblogs têm em comum é o formato. Ao fazermos isso propomos uma descrição mais
ilustrativa de forma a detectar parte de um vocabulário construído neste
universo (dos Weblogs). Será a partir dessa observação que esperamos
possibilitar ao leitor um entendimento/compreensão sobre a linguagem que será
de extrema importância ao que avançamos nesta pesquisa.
A figura acima representa a página que um usuário geralmente acessa para a
atualização de seu Weblog. Nela podemos observar como um post se constrói.
Em algumas ferramentas o usuário tem a opção de inserir um título ao seu post,
o que seria representado na maioria das vezes por uma frase-síntese sobre
aquilo que será narrado pelo usuário logo em seguida.

Assim que o usuário clica na opção ‘salvar’ ou ‘publicar’ (dependendo da ferramenta
utilizada), seu post poderá ser visualizado na URL
[23]
de seu Weblog, como ilustra a figura anterior.
Hourihan
afirma que o post (cada entrada) de um weblog pode ser
identificado de acordo com as seguintes características: “cabeçalho datado,
hora da publicação e link permanente” (HORIHAN, idem). O
Weblog segue o padrão de destacar o último post publicado, com seu cabeçalho
datado acima. O post contém comentários seguidos de links (a inserção de links
aos comentários é opcional), a hora da publicação, um link permanente
geralmente inserido sob o horário em que a publicação foi feita e a lista dos
arquivos de post anteriores. Por fim vale ressaltar dentro desta questão do formato, as observações de Hourihan:
O formato
do weblog fornece uma estrutura para nossas experiências ao usufruí-lo, permitindo
as interações sociais que nós associamos com blogging
[24]
. Sem ele, não há nenhuma diferença entre a super produção
da Web. Os posts
[25]
dos blogs são curtos, informais, algumas vezes controvertidos
e algumas vezes profundamente pessoais não importando qual seja o assunto
em questão [...] como bloggers,
nós atualizamos nossos sites freqüentemente inserindo o que importa para cada
um de nós. Dependendo do blogger, o conteúdo varia. Mas porque é um weblog,
formatado cronologicamente invertido,
e com a data estampada, um leitor pode esperar que ele seja atualizado regularmente.
(Hourihan 2003)
A human being is a part of a whole,
called by us universe
Albert Einstein
Quando Chuck Olsen disponibilizou a primeira
versão para o Blogumentary
[27]
na Web, alguns dos entrevistados para a produção publicaram,
em seus respectivos Weblogs, comentários pertinentes à prévia em vídeo assistida.
Um deles foi Jeff Jarvis
[28]
. Jornalista
[29]
e presidente do Advance.net
[30]
, Jeff descreveu sua entrevista como ‘cheia de tolices’
comparada a dos demais. Ele foi entrevistado por Chuck em seu escritório,
em 30 de abril de 2003. Dentro de um cenário típico de sua profissão, cercado
de pilhas de papéis, estantes com livros e um laptop
ligado sobre a mesa, Jeff - ininterrupto – descreveu as fases que, segundo
ele, os weblogs passaram até o momento atual. Sobre a primeira
[31]
, Jeff disse: “foi a da tecnologia, onde as pessoas que
inventaram este modelo, se inspiraram e deram-lhe vida.”
Esta vida mencionada por Jeff não tem
limite de idade, fronteira, língua ou sexo. Quem dá a este modelo vida não é
apenas o autor/usuário de um weblog mas também a Web que incondicionalmente a
alimenta. Quando Chuck, nas ruas de Nova Iorque, realizou aleatoriamente a
enquete questionando o que eram os Weblogs, Tom Richards (posteriormente
reconhecido como vocalista da banda Waking Hours) respondeu: “um lugar onde
você vai/acessa, onde você escreve seus comentários e insere toda a sua vida lá
- pra todo mundo que quiser ver.”
Diante do conhecimento de
que Internet foi criação de um experimento acadêmico, é sempre muito interessante
observar que conforme o processo de evolução da rede ‘global’ vai-se dando,
muitas referências bibliográficas acadêmicas deixam de ser discussões relevantes
passando a ser observações de estudos de campo sem profunda experiência. Quando
Hourihan afirma que “é inviável definir os weblogs baseados apenas na observação, e não na experiência”, esta
afirmação deveria valer não apenas à busca de definições, mas sim para qualquer
estudo pertinente à Internet. Silva
[32]
, em seu ensaio “Perspectivas Weberianas da Sociedade Rede” afirmou:
Os
criadores da Internet pensavam sinceramente estar a proporcionar à sociedade um
instrumento eficaz de sociabilidade e promoção pessoal, mas nunca puderam
prever que um tal sistema se transformasse num campo de batalha entre poderosos
interesses, muitos deles ilegítimos. (Silva 2002)
A afirmação de Silva pressupõe o seu conhecimento do ‘pensar’ dos
acadêmicos que criaram a Internet, algo que deveria ser questionado quanto a
origem. Não obstante o que tantos outros autores fizeram ou afirmaram é
relevante defender a hipótese da real história da Internet que ainda está sendo
contada. Diante do estudo que este trabalho se propõe, consistindo na
sensibilidade encontrada na participação das pessoas na criação de formas
interativas de comunicação que atuam como força de compensação para o fluxo
unilateral próprio da mídia comercial, é necessário
reafirmar que este trabalho defende a idéia de que a comunicação que se
processa na Internet é de natureza parcialmente distinta da comunicação de
massa. Quando Silva sugere um ‘campo de batalha’, é preciso revisão de modelos
e teorias.
Vários autores discutem a
natureza ímpar da comunicação na internet (Rheingold 1996, Outing 1998, Parente
1999 e Johnson 2001). Para eles, os recursos de linguagem oferecidos pela rede
alteram nossa forma de comunicar e interagir culturalmente.
Segundo Alsina (1989),
“inovações tecnológicas desencadeiam novas mensagens, novos usos, novos efeitos”.
Idéia similar é defendida por Lévy:
Mídias híbridas e mutantes proliferam sob o
efeito da virtualização da informação, do progresso das interfaces (...). Cada
dispositivo de comunicação diz respeito a uma análise pormenorizada, que por
sua vez remete à necessidade de uma teoria da comunicação renovada, ou ao menos
de uma cartografia fina dos modos de comunicação. (Lévy 1997, p. 82)
Na mesma linha de
raciocínio dos autores mencionados, faz-se necessário observar que boa parte
das informações que atualmente se processa na Internet ainda apresenta
referência nas reflexões teóricas características da comunicação de massa, mas
já é possível notar algumas especificidades nesse processo, como sinaliza a
forma comunicativa irreverente observada por exemplo no cenário estudado neste
trabalho, os Weblogs.
A diferença inovadora dos
estudos sobre comunicação (principalmente, sobre a internet) consiste na
ultrapassagem dos esquemas funcionalistas que explicavam o processo
comunicacional centrado no autor, no produtor e nos meios de comunicação,
enquanto agentes de controle e dominação sobre os receptores. Hoje, encontra-se
em curso uma compreensão crítica da comunicação, permitindo-nos perceber que as
formas de controle e dominação persistem, e até se tornaram mais sofisticadas;
entretanto as teorias da recepção demonstram que as informações geradas pelas
mídias são sempre negociadas, mediadas e adequadas pelos indivíduos de acordo
com os seus modos de vida. Os estudos de recepção, voltando-se para o leitor ou
consumidor, circunscreveram um novo círculo para compreendermos o usuário
enquanto elemento ativo no processo da comunicação. Neste sentido, nesta parte
do trabalho iremos apresentar os autores/weblogs que no desenvolvimento desta
pesquisa redefinirão o papel de agentes de controle e dominação sobre os
receptores e consequentemente, problematizarão o processo de recepção nos
weblogs.
Ao longo de várias
décadas, sociólogos e antropólogos, a partir de trabalhos de campo em
diferentes sociedades, inovaram em métodos e técnicas hoje tratados sob o nome
genérico de fieldwork ou enquête de terrain (PLATT
1998), que incluem desde a observação pelo olhar e pela
escuta até a observação participante, a entrevista diretiva e semidiretiva, as
histórias de vida etc. A passagem de um ‘campo’ geograficamente distante (caso
da antropologia clássica) para um ‘campo’ próximo do pesquisador (antropologia
e sociologia na sociedade ou cidade do pesquisador) não simplificou, mas sim
complexificou os problemas e dilemas enfrentados nos estudos empíricos.
Questões de rigor e de controle metodológico
têm sido, na verdade, uma
preocupação constante de inúmeros autores que não descartam a própria atividade
do pesquisador, seu papel enquanto tal e a interação pesquisador/pesquisado
como objetos de análise em uma pesquisa.
A metodologia aplicada para a seleção dos Weblogs (autores) nesta pesquisa
parte de um experimento
[33]
adicionado de características metodológicas aplicadas por
Miller
[34]
(1995) quando este estudou “A Apresentação do Self na Vida
Eletrônica: Goffman on the Internet”
[35]
. Como posteriormente apresentaremos mais a fundo o trabalho
da pesquisa empírica qualitativa a que este trabalho se propôs, é preciso
salientar que antes de mais nada tivemos de buscar um grupo de Weblogs específico
que nos permitiria caracterizar de melhor forma o processo de recepção.
No contexto da área de pesquisa
de Miller, ele filtrou o ‘self’ estudado a partir de três caracteres: status,
autoridade e credibilidade. Diante disso, a busca seletiva através do grupo
de Weblogs que serão apresentados adiante primeiramente passou por esta mesma
‘filtragem’ de Miller. Mas além disso, a pesquisa qualitativa é notavelmente mais demorada e exige
do investigador uma permanência maior na área de observação para que se estabeleçam
relações de confiabilidade entre o objeto de estudo e o sujeito da pesquisa
[36]
.
Consequentemente, diante do atual cenário
acadêmico, escasso de pesquisas empíricas no ambiente dos Weblogs, foi preciso
buscar um melhor entendimento dos códigos diferenciados existentes em qualquer
processo de pesquisa onde estão envolvidas pessoas das mais diferentes
categorias sociais, intelectuais e culturais. É principalmente por esses motivos
que a seleção dos weblogs em pesquisa está associada ao contexto sociocultural
americano que além de ter sido o espaço fundador dos weblogs é também aquele
que nos disponibiliza um maior número de webloggers tanto quanto com um maior
índice de leitores.
A questão da seleção também levou em conta
a estética, a freqüência de atualização e citações, que no âmbito dos weblogs
seriam referências (links) em outras páginas da web e da mesma forma que em
outros weblogs. O conteúdo desses weblogs não foi movido ou buscado através
de categorias ou tópicos específicos visto que os filtros utilizados e apropriados
de Miller foram
os primeiros aplicados neste processo de seleção. O leitor porém, notará que
os weblogs
[37]
apresentados pertencem à faixa etária adulta e que são
em maior número homens que mulheres em razão da filtragem inicial dos caracteres
status, autoridade e credibilidade.
A apresentação de cada weblog/autor seguirá
com a exposição ilustrativa da URL onde estes weblogs são encontrados, seguindo
de uma breve descrição dos autores adicionado a exposição ilustrativa da URL
onde um usuário comum da Web encontraria informações referentes a estes
weblogs/autores.
Dave Winer: autor do www.scripting.com
(desde 1997)

Dave Winer (48 anos em 2003) é americano residente do estado de Massachusetts
(Boston). Dave atualmente é Diretor Executivo do UserLand Software
[38]
, empresa da área de Internet localizada em Millbrae, na
Califórnia. UserLand desenvolve ferramentas para atualização de weblogs através
da web (produto Manila) e do desktop
[39]
(produto Radio UserLand). Dave Winer, como programador,
foi co-desenvolvedor (co-developer) dos produtos Frontier, Manila
e do Radio UserLand. Nos anos 90, Dave trabalhou como editor-colaborador da
revista Wired e, em fevereiro de 2003, Dave foi contratado pela Harvard Law
School
[40]
afim de iniciar dentro da Universidade
um projeto educativo de conjunção dos acadêmicos com os weblogs.
Considerado um dos pioneiros em ‘blogging’,
o Scripting News de Dave (como é conhecido o seu weblog) representa sua habilidade
e conhecimento perante assuntos de tecnologia. O Scripting News é conhecido
como o weblog ativo mais duradouro da Web. A ilustração abaixo refere-se à
página com suas informações (bio).

Anil Dash: autor do www.dashes.com/anil (desde 1999)
Em primeiro de maio de 2003, no interior de um Starbucks
[41]
em Nova Yorque, Chuck Olsen entrevistou Anil Dash. Chuck
passou toda a entrevista afastado de Anil por estar manuseando a câmera, enquanto
que Anil dividiu uma mesa com uma total desconhecida que em determinado momento
interrompeu a entrevista perguntando sobre o que eles estavam falando. Chuck,
relatando este acontecimento em seu site
[42]
dias depois, contou que ao invés de prosseguir com a entrevista
normal, sugeriu a Anil que explicasse à companheira de mesa, posteriormente
identificada como a atriz Katherine Narduccia do seriado americano Sopranos
[43]
, o que era Blog. Anil respondeu: “a palavra a
que ele se refere é blogs que na verdade originou-se da palavra Weblogs que
eram registros na web onde usuários escreviam o que pensavam, sites que visitavam
e o que queriam. Por serem os primeiros Weblogs produto de geeks
[44]
e programadores, eles quiseram abreviar o nome. Então começaram
a chamar de Blogs.”
Anil Dash é americano (filho
de imigrantes indianos) residente da cidade de Nova Iorque. Conhecido como
tecnologista na área de Internet, ele foi consultor por sete anos e atualmente
é Vice-Presidente de Desenvolvimento de Negócios Vice-presidente de Desenvolvimento
do TypePad
[45]
, e membro do comitê de direção do Web Standards Project
[46]
. Anil conta com vários materiais citados, publicados e
comentados em diversas mídias
[47]
além de integrar e participar de seminários/palestras em
eventos e conferências da área de tecnologia. Em seu weblog Anil escreve sobre
o movimentos dos blogs, tecnologia, curiosidades e comentários aleatórios
sobre arte, política, cultura e sobre a cidade onde vive. Seu weblog já foi
indicado como ‘o melhor’ pela MSNBC
[48]
.
A imagem a seguir representa
a página editada por Anil em seu website com informações pessoais e ademais
links contendo informações sobre ele.

Doc Searls: autor do doc.weblogs.com (desde 2001)
Americano e residente do estado da Califórnia, a carreira de Doc Searls teve início em 1978
quando foi co-fundador da Hodskins Simone and Searls,
agência de propaganda e relações
públicas no Vale do Silício (Califórnia). A HS&S
foi vendida em meados de 1998 quando a posição de Consultor de Mercado exercida
por ele passou a ser através da Searls Group
[49]
. Doc Searls é editor-senior
da revista especializada Linux
Journal
[50]
, e co-autor do livro “The Cluetrain Manifesto: The End of Business as Usual” (bestseller pelo New York Times, Wall Street
Journal, Business Week, Borders Books e Amazon.com). Doc é freqüentemente
orador e palestrante em diversas conferências
[51]
, além de como escritor, ter artigos e ensaios publicados
em jornais e revistas americanas como Wired, The Sun e PC Magazine.
J.D. Lasica, jornalista e colunista da publicação online da Annenberg School for Communication nos Estados Unidos, acredita que Doc Searls é "um dos mais profundos pensadores sobre o movimento ‘blog’”. Seu weblog recebe mais de 60.000 acessos por mês. A figura abaixo representa seu weblog e a seguinte, sua página com informações.

Matthew Haughey: autor do a.wholelottanothing.org (desde 2000)
Matt Haughey é americano residente do estado
da Califórnia. Mestre em Ciências Ambientais pela UC Riverside, ele trabalha
com webdesign desde 1995. Seus trabalhos mais reconhecidos nesta área são
para o projeto Creative Commons
[52]
e para a empresa Pyra do produto/ferramenta
Blogger. Matt foi co-autor e contribuidor nos livros “We Blog”, “Usability:
The Site Speaks for Itself”, “We've Got Blog: How Weblogs Are Changing Our
Culture” e “Design for Community: The Art of Connecting Real People in Virtual”.
Seu projeto pessoal, MetaFilter.com
[53]
, é um weblog comunitário com mais de 17.000 membros/autores
e que recebe mais de um milhão de acessos por mês.
Em seu weblog (a.wholelottanothing.org) estão explícitas as suas principais opiniões acerca de assuntos variados como tecnologia, cultura, Internet, webdesign e o movimento blog. Matt também pode ser visto no Blogmentary realizado por Chuck bem como no vídeo do trailer que estamos anexando a esta pesquisa. A imagem abaixo representa seu weblog.
Matt também possui o domínio Haughey.com
[54]
onde encontramos seu currículo mais detalhado, websites
que mantém ou está desenvolvendo. As imagens a seguir representam sua página
de informações a partir de seu weblog e a página de seu resumè em seu domínio.

Mena Trott: autora do www.dollarshort.org (desde 2001)
Mena Trott é americana (26 anos em 2003) residente na cidade de São Francisco
na Califórnia. Casada com Ben Trott (quatro anos em 2003), ambos são os criadores
da ferramenta Movable Type que posteriormente ao sucesso adquirido entre os
usuários, se transformou num dos produtos oferecidos pela empresa que fundaram,
a Six Apart. Mena dessa forma é ‘chefe’ de Anil Dash apresentado anteriormente
nesta pesquisa. Ela é freqüentemente ativa em eventos na área dos Weblogs
bem como em conferências
[55]
sobre tecnologia, mídia e internet, quando sempre acompanha
ou está acompanhada de seu marido, Ben. Seu Weblog é uma narrativa mesclada
de observações descritivas de sua vida profissional tanto quando sobre assuntos
referentes à Internet, cultura, vida pessoal, produtos tecnológicos e aleatórios
comentários sobre o que ela acha pertinente. Mena em seu website não disponibiliza
uma página com informações pessoais. Geralmente na Web, quem a conhece, a
conhece primeiramente através de seu trabalho representado pela imagem abaixo.
Ilustração de uma das páginas da empresa Six Apart.

As
nossas idéias sobre as máquinas, as páginas e os posts precisam levar em conta
que ‘there is a bigger picture’. Aí sim, as máquinas, páginas e os posts readquirem
sentido.
Gustavo Fischer
Dois dias depois de ter recebido, via email, o link para o trailer do
Blogumentary de Chuck Olsen, Carolina d´Avila, publicitária brasileira
residente da cidade de Porto Alegre, me encontrou para um café. Descrevendo sua
tentativa de assistir todo o vídeo em seu computador na agência onde trabalha,
ela comentava sorrindo sobre as respostas sem nexo à enquete de Chuck nas ruas
de Nova Iorque. Ela perguntou “tu achas que nós somos
uma minoria?” –
referindo-se aos bloggers como apenas
uma parcela dos usuários de Internet. Eu respondi: “Sim, nós somos um número
pequeno”.
O número de weblogs na rede é desconhecido. Em 2002, 41 mil novos blogs
foram criados a cada mês segundo Tiffany Shlain, criadora e diretora do
prestigioso 'Webby Award', o ‘Oscar’ da Internet. Evan Williams, criador do
Blogger, divulgou que em janeiro de 2002 o número de weblogs ativados por seu
sistema, já ultrapassava a casa dos 500 mil. Mas a verdade é que com a
quantidade de ferramentas disponíveis para a criação de um weblog na rede, um
recenseamento só seria possível e viável caso todos os usuário/autores
participassem.
Quão
não foi a surpresa de Chuck Olsen ao ouvir nas ruas de Nova Iorque as respostas
de Seth Appel à sua enquete? Seth é aquele rapaz careca, extrovertido e insolente,
que aparece no trailer do Blogumentary dizendo que um “blog é um weblog online.”
Quando Chuck perguntou a ele porque ele também mantinha um blog
[56]
, Seth respondeu: “porque eu acredito que tenho opiniões
únicas sobre questões sócio-econômicas e eu sinto uma necessidade muito grande
em dividir isso com a mídia.”
A
área de comunicação convive permanentemente com dificuldade de estabelecer o
seu objeto de estudo. Segundo Toschi, as pesquisas eram:
ora centradas
nos meios, na cultura de massa, na propaganda, na publicidade, nos efeitos, na
forma como as mídias constróem a realidade social, ora investigavam a
comunicação, isto é, os processos comunicativos. (Toschi 1998, p. 5)
A
dificuldade existe pela própria complexidade do conceito comunicação na sua
etimologia e semântica que abriga significados diferentes e/ou divergentes. O
termo é usado para indicar tanto a disciplina como seu objeto de estudo e essa
característica pode acarretar imprecisões e equívocos (LOPES 1990). Como
vertente dos estudos marxistas no campo da educação, a perspectiva dos estudos
culturais, apoiada no binômio cultura hegemônica/cultura subalterna dos anos
80, provoca o delineamento de outra importante linha de pesquisa em Comunicação
que são os estudos da recepção.
Barbero
destaca-se como importante teórico da temática da cultura popular e começa a
esboçar uma "complexa e multifacetada" teoria da recepção que desloca
os eixos básicos da reflexão dos meios às mediações. A comunicação não mais
pensada como meios, tecnologias, ou a disciplinas a que se subordinava, como a
psicologia e a cibernética, mas como cultura. Apesar de Barbero analisar a cultura
latino-americana podemos nos valer de suas considerações ao que ele vê a
cultura sendo redefinida valendo-se de sua natureza comunicativa, ressaltando
seu caráter de processo produtor de significações. Para ele, o receptor não é
visto mais como simples decodificador do que o emissor depositou na mensagem, é
também um produtor de sentido.
Barbero
compreende a recepção não como uma etapa do processo de comunicação, mas como
um lugar novo, a cultura, em que o sujeito é o ator social, produtor de
sentidos. Para entender a recepção como lugar é preciso repensar o processo
inteiro de comunicação em cibercultura, ciberespaço. O processo de comunicação
é entendido como não linear e nem unívoco e, como tal, ocorre em várias
direções, sofrendo intervenção do contexto cultural, social, político e
histórico de cada usuário/receptor.
Ao focalizar nossa análise nos usuários,
apontando para sua capacidade de desviar, de contornar o estabelecido
remetemo-nos a um conjunto de espertezas sutis e criações anônimas através das
quais o homem comum se move no espaço apropriado pelo poder, invertendo códigos
e objetos, usando-os a seu modo. Queremos chamar à atenção para o fato de que a
vida cotidiana não se reduz à repetição
e reprodução, mas constitui espaço múltiplo e diversificado. Isso nos possibilitaria
perceber microdiferenças onde outros só percebem uniformidade e disciplina,
sugerindo novas possibilidades de investigação do relacionamento dos usuários
com a tecnologia para muito além do consumo receptáculo, capaz de encontrar
criatividade somente entre os produtores. O que propomos é um estudo sobre como
as pessoas utilizam a cultura dos Weblogs,
como a experimentam. E, ainda, de que maneira
os Weblogs são utilizados de maneiras diferentes por diferentes
indivíduos .
Durante muito tempo, os meios de
comunicação foram analisados como todo-poderosos. Seriam bons ou maus,
dependendo apenas de quem os detivesse, de quem os controlasse.
Uma
concepção teológica do poder – uma vez que este era considerado
onipotente e onipresente- levou à crença de que bastava analisar os objetivos
econômicos e ideológicos dos meios massivos para se descobrirem as necessidades
que provocavam e como submetiam os consumidores. (Barbero 1995, p. 279)
Atribuindo todo o protagonismo ao campo da
produção, esse modo de interpretação do processo comunicacional exclui a chance
de se estudar a recepção como um lugar que é também lugar de partida, no qual o
sentido é elaborado e produzido.
Poderíamos supor que é a partir desse ponto
que reside a grande virada dos estudos da recepção: um deslocamento de um modo
investigativo centrado na produção, no qual a recepção é concebida como um
ponto de chegada daquilo que já estava
concluído, para um outro, no qual se busca entender como as
apropriações, as articulações e as negociações se verificam no processo
receptivo.
Essa nossa maneira de conceber o processo de comunicação, na qual admitimos o
papel efetivo do receptor, é anunciadora de um novo paradigma, cuja proposta
não é substituir um campo de estudo, ‘o da produção’, por outro, ‘o da recepção’,
ou mesmo subestimar os saberes dos produtores.
O que nos propomos é enfocar a busca da interatividade e o encontro
entre esse dois campos, em que se entende a recepção, no dizer de Barbero
(1995), como “processo de negociação de sentido”.
Quando em maio de 2003, Rebecca Blood participou
da primeira Conferência Européia sobre Weblogs, o Blogtalk
[57]
, suas primeiras observações referiam-se sobre as
possibilidades inerentes nos Weblogs, não apenas no âmbito das tecnologias
disponíveis a eles como também no público e nas conexões humanas que são criadas
e fortalecidas através dos Weblogs.
Quando
pensamos sobre isso, há dois fatores a se considerar sendo que o primeiro é a
expressão pessoal. (...) Bloggers, se é que eles tem um mandato, são determinados
a apresentar uma observação. Ninguém espera que eles sejam objetivos, ninguém
espera que eles apresentem todas as posições de um assunto, e ninguém espera
que eles sejam justos. (Blood 2003)
Diante disso poderíamos nos apropriar de
determinadas considerações de Umberto Eco, apesar desta pesquisa não se propor
a um estudo profundo voltado à semiótica da recepção.
O
funcionamento de um texto (mesmo não verbal) explica-se levando em
consideração, além ou em lugar do momento gerativo, o papel desempenhado pelos
destinatário na sua compreensão, atualização, interpretação, bem como o modo
com que o próprio texto prevê essa participação. (Eco 1990, p. 2)
Na perspectiva que
adotamos neste trabalho, o receptor não é alguém abstrato ou isolado, mas sujeito de cultura. Precisa ser estudado no
contexto das diversas práticas culturais e sociais nas quais está enredado,
através de múltiplas e intrincadas relações, inclusive com a mídia.
Escrevendo algumas linhas todos os dias, os
autores dos weblogs começam a redefinir a mídia como um público, um esforço
participativo. (Blood 2002, p.10)
Nossa questão pede uma abordagem
alternativa para o estudo da “experiência da audiência” denominada de análise
da recepção. Tal abordagem desenvolveu-se a partir da Teoria Crítica, da Semiologia
e da Análise do Discurso e também de estudos etnográficos de usos da mídia
[58]
.
Nossa análise da recepção
difere da abordagem de “usos e gratificações” que se interessa pelas “satisfações
dos usuários” a partir da questão: o que as pessoas fazem da mídia? Nos afastamos
das “teorias dos efeitos diretos” (hipótese behaviorista) e nos aprofundamos na noção
de leitura negociada. Nela, o sentido e os efeitos nascem da interação entre
os textos e os papéis assumidos pelas audiências
[59]
. Porém vale reformular a
estrutura metafórica de audiência para leitores, uma vez que estudamos não
a televisão e sim weblogs. Weblogs não têm audiência, e sim leitores.
Esta nova abordagem
questiona que há algo na comunicação que não estava sendo considerado: o poder
dos leitores/público ao dar significado às mensagens encontradas nos weblogs. Considera
que o receptor interpreta as mensagens e assim, procura localizar a contribuição
e a construção de significados dados pelo receptor na sua relação com a mídia,
e até mesmo com a sua percepção de vida (tanto social quanto pessoal).
Os leitores dos weblogs clicam de um blog para
o outro e analisam o ponto de vista de cada blogger numa conversa múltipla. E
assim eles formulam suas próprias conclusões diante daquilo que lhes é
importante. Lendo o ponto de vista de outras pessoas, eles irão questionar com
prazer e avaliar o que tem sido dito. Ao fazer isso, os leitores possivelmente
começam uma jornada na descoberta deles mesmos tanto quanto numa jornada de uma
confiança intelectual em si mesmos. (Blood 2002, p.14)
De acordo com Jensen (1991,
p.31), “a recepção das mídias é uma atitude integrada de grupos culturais e
deve ser estudada no seu aspecto social e racional (argumentativo)” Trata-se de
comunidades interpretativas, ou seja, de práticas comuns de usos da mídia. As
comunidades interpretativas teriam critérios, regras e códigos de interpretação
compartilhados, ou seja, um repertório similar que lhes permite atribuir
significados semelhantes e pertencer à mesma ‘comunidade’. Assim, temos os
grupos que lêem blogs sobre a guerra, que lêem blogs sobre música, que lêem
blogs sobre tecnologia, que lêem blogs sobre culinária, etc.
É difícil delimitar a
diferença entre as duas abordagens. Podemos observar o pensamento da abordagem
de “usos e gratificações” no pensar de Umberto Eco, quando ele pensava em um leitor
ideal. O receptor era imaginado, mas não se tinha um contato mais próximo com
ele para verificar o uso que este fazia do produto. Atualmente com os Weblogs e
seu ambiente comunitário, propõe-se uma abordagem que, como a proposta pela
Análise da Recepção, está mais próxima do usuário/receptor. As novas
tecnologias também são um dos fatores que contribuem para essa mudança porque
trazem novas possibilidades de produção tornando-a mais diferenciada e mais
próxima do usuário. O aumento da interatividade do usuário com o produto
diminui a distância entre o emissor/autor e o receptor/leitor.
De acordo com os
princípios básicos da Semiologia, qualquer mensagem tem sentido conotativo
(metafórico ou figurado) e denotativo (referencial ou literal). O empurrão
semiológico nos diz que o significado está associado a padrões, símbolos
compartilhados em uma cultura. Assim, de acordo com esta concepção, o texto tem
os significados encaixados nele. Em estudos semióticos é dada ênfase ao texto,
assim como na visão da Iser, na qual se estuda a relação do leitor com a
leitura do código, mas não o contexto do leitor e nem o contexto do texto
(ISER, 1978). A nossa análise da recepção não descarta a semiologia no processo
de comunicação, apenas não nos aprofundaremos nela.
Stuart Hall contrapôs-se
a alguns elementos da abordagem dos “usos e gratificações” porque ela não
considera a ideologia da comunicação (HALL 1980). Segundo ele, em primeiro
lugar, os comunicadores escolhem codificar as mensagens com propósitos ideológicos
e usam a mídia para isso. Em segundo, os receptores não são obrigados a aceitar
a mensagem da forma como foi enviada. Eles podem resistir. A cultura complexa
de um ambiente como os Weblogs abrange uma variedade de discursos e é impossível
atingir a todos da mesma forma. São espaços únicos que apropriam-se da intertextualidade
[60]
. As estruturas de significados, ou melhor, o repertório
de cada um, interfere na produção de significados/sentidos da mídia que seria
os leitores. As pessoas ocupam posições e papéis sociais diferentes e podem
perceber o mundo e as mensagens dos weblogs de acordo com a sua posição no
contexto social. Admitir isso é dar voz ao receptor, aceitar que ele existe
enquanto sujeito e não apenas fazendo parte de uma massa amorfa e passiva
de leitores/espectadores. A nossa hipótese é considerar que há uma intenção
do emissor na apropriação ideológica do símbolo e que a interpretação que
o receptor faz inclui aceitar ou não a ideologia contida no símbolo.
O receptor é também um iniciador, quer no
sentido de originar mensagens de retorno, quer no sentido de pôr em prática
processos de interpretação com um certo grau de autonomia. O receptor age sobre
a informação que está à sua disposição e utiliza-a. (McQuail apud Cogo 1998, p.15)
Ao buscarmos uma
compreensão melhor deste sentido, deste processo de interpretação, melhor
inserido em nosso ambiente de estudo, os Weblogs podemos resumir a partir de
Valverde que:
O sentido é, antes, uma instituição, isto
é, o resultado sempre provisório de um movimento instituinte que, sem se deter
na fixidez, aparece, em cada momento, como referência instituída, sobre a
qual agirá esse impulso de "deformação coerente" que caracteriza
o movimento da expressão e projeta para além a seta da significação.
[61]
É importante
situar aqui as críticas inseridas aos trabalhos do canadense Marshall McLuhan,
a quem Valverde apropria-se como referência quando estuda “Recepção e sensibilidade”
(do qual trataremos mais a seguir). McLuhan de início mostrava-se crítico em relação
às tecnologias
[62]
. Para os mais céticos, McLuhan exagerava no fascínio pela
‘vida tecnológica’, mas era inegável a empatia que provocava sobre gerações
mais jovens; mas a sua postura acrítica e conformista terminou servindo para
enquadrá-lo no time dos ‘integrados’, conforme escreveu Umberto Eco (1973),
empenhado na denúncia do discurso fragmentado do teórico. É válido lembrar
que algumas das idéias de McLuhan nos têm sido úteis para repensarmos a mediação
gerada pelos meios eletrônicas. É nisso que autores como Lemos e Valverde
se inspiraram para construir suas teses sobre a performatividade das novas
tecnologias, porque encontram em McLuhan ‘insights’ valiosos para as suas
análises.
Perceber
o caráter performativo da mídia que cria
os ambientes interativos descrita em McLuhan é o que impulsiona Valverde a
utilizá-lo como referência bibliográfica em seu artigo “Recepção e
sensibilidade”:
De um
modo geral podemos dizer que a ênfase de suas colocações recai sobre o aspecto
comportamental e não sobre o aspecto neurofisiológico. Em suas palavras, a
‘mensagem’ de qualquer meio ou tecnologia é “a mudança de escala, cadência ou
padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas humanas”, e é dessa
forma que a introdução de um novo meio de comunicação reconfigura o meio
ambiente. (Valverde 2001, p.95)
Valverde apropria-se das
idéias de McLuhan
ao construir seu pensamento sobre o estudo da recepção reconhecendo o receptor
como elemento significativo do processo de comunicação a partir do que A.M,
Mattelard chama de “uma nova sensibilidade”.
Nossa convicção é a de que o recorte do tema da
recepção, como uma problemática autônoma, apontou a insuficiência das
abordagens centradas numa idéia excessivamente intelectual de ‘leitura’ (ora
compreendida como decodificação, ora como interpretação), para descrever o
complexo movimento de acolhimento e assimilação especialmente das obras e dos
discursos, mas também as disposições e dos acontecimentos. (p.87)
É por isso que Valverde
resume as críticas aos modelos tradicionais afirmando:
Há um aspecto de adesão imediata na recepção
que não se restringe à convicção intelectual ou à mera obediência dogmática.
Esse aspecto, de ordem tímica, aproxima a temática da recepção daquela referida
à experiência estética, especialmente no que diz respeito à mobilização das
paixões, à sua dimensão retórica, uma vez que a recepção dos produtos culturais
contemporâneos, indissociáveis dos novos meios de comunicação, supõe não apenas
leitura, interpretação e crítica, mas igualmente, ou mesmo principalmente, envolvimento
e fruição. (p. 87)
A postura do nosso trabalho perante à
sensibilidade ou fruição de Valverde
observa a possibilidade do indivíduo (leitor de um weblog) ao identificar, nos
termos do seu interesse, o lugar, a intensidade e a direção das opções a seu
redor associadas com a capacidade interpretativa e perceptiva pela qual nos é
possível “perceber as relações de expressões que afetam os nossos sentidos”.
As idéias de McLuhan deslocam nossa atenção dos
aspectos conscientes e normativos da cultura instituída para o plano
inconsciente, no qual as oposições e contrastes entre elementos significantes
têm ainda poder instituinte. Na sua perspectiva, a análise da ação dos meios
sobre a sensibilidade enquanto tal é também um reconhecimento de que eles não
atuam apenas segundo mecanismos estritamente intelectivos ou sensoriais, mas
envolvem aspectos emocionais, que estão na base dos julgamentos de valor
geralmente associados a uma determinada tradição. (p. 96)
No ambiente dos weblogs, a
melhor forma de observar e detectar sinais sobre os novos modelos de
interpretação e da sensibilidade que definem a amplitude de nossa pesquisa
sobre o processo de recepção, é a realidade experimental que eles apresentam.
Somente ao nos colocarmos associados aos processos envoltos deste ambiente é
que poderemos reproduzir e formalizar o conhecimento científico aplicado a ele.
Segundo Blood:
Bloggers se estabelecem ou se edificam em suas
esquinas do ciberespaço e então prosseguem a formar conexões e relações de
proximidade com outros que se localizam próximo a eles. Links são trocados.
Conversas iniciadas. Amizades são formadas. A Web tem possibilitado conexão com
outros que são como nós somos, pessoas que se interessam pelas mesmas coisas
que nós, que trabalham com as mesmas coisas que trabalhamos, ou que
simplesmente vêem ou entendem o mundo como nós entendemos. Isto é, sem dúvida
nenhuma, uma das grandes surpresas e prazeres referentes aos weblogs àqueles que
nunca tiveram muito tempo para estar online. Através dos weblogs firmamos nossas
relações humanas. (Blood 2003)
No weblog stands alone, they are relative
to each other and to the world.
Dave Winer
Para inserir aos anexos desta pesquisa o
trailer do Blogumentary de Chuck Olsen, precisávamos de autorização. Em 27 de
maio de 2003 enviei um email a Chuck, e no dia seguinte, lia-se em seu weblog:

Posteriormente
[63]
recebi um email de Chuck com links onde encontraria disponível
partes do documentário ainda não editadas. Uma delas, de David Weinberger
sob a linha de apoio ‘weblogs são conversações’, era a extensão do curto comentário
de David à referência de sua participação no trailer do Blogumentary. Naquele
momento David tentava descrever o que impulsionou o interesse da mídia de
massa a reportar o movimento dos weblogs. Ele disse: “o que conduziu a excitação
sobre os weblogs não foi porque agora haviam 300 mil ou meio milhão de pessoas
escrevendo o que elas pensavam. O que realmente levou a excitação foi quando
essas 300 mil pessoas começaram a ‘linkar
[64]
’”.
As
pesquisas sobre a relação das pessoas/usuários com a internet permitem uma
diversidade muito grande de abordagens. Na grande maioria das vezes, e principalmente
nas primeiras pesquisas deste âmbito, a aproximação era feita através de uma
abordagem quantitativa
[65]
, buscando-se determinar a quantidade de horas que as pessoas/usuários
dedicavam à internet, bem como quais os serviços de acesso mais utilizados
e os sites que mais acessavam.
Segundo
Costa, nos primórdios da sociologia, os cientistas pensavam que o envolvimento
do cientista com o objeto de estudo poderia comprometer a validade do estudo
científico:
O
sociólogo buscava da melhor maneira possível manter-se isento de interesses e à
certa distância psicológica e afetiva do objeto estudado, o que, em se tratando
de vida social, era muito difícil. (Costa 1997, p. 210)
Esta
observação de Costa funda as recorrentes críticas que as pesquisas qualitativas
ainda evocam, segundo as quais muitos
cientistas sociais acusam o modelo qualitativo de não apresentar padrões de
objetividade, rigor e controle científico, já que não possui testes adequados
de validade e fidedignidade, assim como não produz generalizações que visem à
construção de um conjunto de leis do comportamento humano. Entretanto, por ser
a metodologia utilizada em determinada pesquisa aquela que ensina o pesquisador
a ‘ver’ a realidade, isto é, a distinguir nela determinados acontecimentos e as
relações existentes entre eles (COSTA 1997), reconhecemos o valor de tais
pesquisas quantitativas mas é necessário avançar um pouco mais, uma vez que
algumas questões permanecem sem respostas.
Segundo
Costa, “sabe-se hoje que a opção ou não por indicadores estatísticos depende
exclusivamente dos objetivos da pesquisa” (idem, p. 210), assim sendo, as
motivações mais profundas dos leitores dos weblogs apresentados neste trabalho,
bem como as justificativas reais que as levam a preferir determinados
webloggers/autores ou identificar-se com determinados weblogs devem ser
buscadas numa pesquisa que procure superar a superficialidade das respostas assim
como aprimorar as pesquisas empíricas no âmbito comunicacional da internet com
o foco aplicado à recepção, interpretação e sensibilidade dos weblogs.
Os dados
qualitativos consistem em descrições detalhadas de situações com o objetivo de
compreender os indivíduos em seus próprios termos. Estes dados não são
padronizáveis como os dados quantitativos, obrigando o pesquisador a ter
flexibilidade e criatividade no momento de coletá-los e analisá-los. Não
existindo regras precisas e passos a serem seguidos, o bom resultado da
pesquisa depende da sensibilidade, intuição e experiência do pesquisador. (Goldenberg
1997, p. 53)
A pesquisa
qualitativa deste trabalho foi realizada a partir de uma observação que buscou
usuários/leitores dos cinco weblogs que apresentamos no segundo capítulo.
Como a nossa premissa levava em consideração a impossibilidade (por meios
e por não dispormos de maior tempo) para desenvolvermos primariamente uma
pesquisa quantitativa que nos indicaria os reais usuários/leitores para os
cinco weblogs que nos dispomos a estudar, realizamos a amostragem a partir
de aspectos singulares que hipoteticamente nos guiaram aos dez entrevistados
que apresentaremos logo adiante. Estes aspectos, determinados experimentalmente
pela minha (já) participação como leitora/usuária de weblogs considerou: links
disponíveis pelos cinco autores/weblogs estudados (em suas páginas) para ademais
weblogs/autores, e nomes de destaque no cenário
[66]
do movimento dos weblogs. Além disso, consideramos os cinco
weblogs/autores estudados igualmente como usuários/leitores.
Nos
propusemos a buscar dez leitores/usuários, os quais seriam contatados através
de e-mail. Nossa técnica de investigação foi construída aos moldes de uma
entrevista (aberta) atribuída de características de um questionário.
Um dos
principais problemas das entrevistas e questionários é detectar o grau de veracidade
dos depoimentos. Trabalhando com estes instrumentos de pesquisa é bom lembrar
que lidamos com o que o indivíduo deseja revelar, o que deseja ocultar e a
imagem que quer projetar de si mesmo e de outros. (Goldenberg 1997, p. 85)
Tendo
em mente que cada questão precisava estar relacionada aos objetivos de nosso
estudo, nosso questionário foi estruturado de modo rigidamente padronizado: as
perguntas foram apresentadas com as mesmas palavras e na mesma ordem, de modo a
assegurar que todos os entrevistados respondessem à mesma pergunta, sendo as
respostas mais facilmente comparáveis. Nossas perguntas foram do tipo abertas
permitindo uma resposta livre, não-limitada por alternativas apresentadas,
permitindo ao pesquisado escrever livremente.
Foram
enviados ao todo trinta e dois emails para trinta e duas pessoas distintas
[67]
. O resultado final, a seguir, apresentará as exatas dez
entrevistas respondidas e recebidas através de email dispostas na ordem de
chegada. Optamos por apresentar as entrevistas nesta ordem afim de melhor
abordar a participação voluntária de alguns dos entrevistados na capacitação
de nossa coleta de dados.
O conteúdo
[68]
da entrevista/questionário enviada por email continha
as seguintes perguntas:
01- Considerando
seu contexto particular, qual é, na sua opinião, a principal razão para acessar
weblogs?
02-
Qual o tipo de conteúdo que você espera encontrar nos weblogs (um assunto
específico? diversidade de conteúdo? assuntos de interesse comuns ao seu?)
03- Caso
você tenha alguma rotina na leitura diária de weblogs, por que você acha que
ela existe? Quais os motivos que o fazem ler diariamente um determinado weblog?
04-
Quais seus sentimentos relativos aos autores de weblogs? Você acha que o
processo da escrita encontrado nos weblogs facilita a comunicação/expressão do
sentimento humano destes autores?
05- Você
acha que os weblogs transformaram ou modificaram o panorama da Web? Caso sim,
poderia descrever suas opiniões relativas a ‘como’ e ‘por quê’?
06-
Ao discutir a comunidades virtual, estudiosos acadêmicos relacionam freqüentemente a rede à idéia de ‘esfera pública’, como é
o caso de Jurgen Habermas
[69]
(1989). Em uma esfera pública ideal, os cidadãos discutiriam assuntos de seu
interesse e chegariam a um consenso para o bem comum. Você acha que os weblogs
trazem um maior compromisso e uma maior
interação entre o leitor e o autor? Você sente esta forma de interação ocorrendo
com você? Caso sim, como você descrevê-lo-ia?
07-
Os weblogs podem ter uma sensibilidade humana? Caso
sim, ‘como’ e ‘por quê’.
08-
Andrew Grumet
[70]
disse: “um weblog pode fornecer:
a-) um modo de nos sentirmos mais próximos de nossos amigos e dos
membros de nossas famílias que podem estar geograficamente distantes;
b-) uma forma de localizar/encontrar e
permanecer atualizado referências quanto as atividades profissionais (de
colegas) ou de pessoas que compartilham de um mesmo interesse comum ao nosso;
c-) variadas perspectivas e observações em
primeira mão sobre eventos atuais;
d-) um vislumbre voyeurístico (relativo a
voyeurismo) à vida de alguém que nos interessa”.
Quais
são suas opiniões às observações de Grumet?
09- Deixe-me indicar alguns nomes: Anil
Dash, Dave Winer, Doc Searls, Matthew Haughey e Mena Trott. Se algum destes
webloggers são weblogs que você geralmente lê, você poderia explicar as razões
porque você os lê e o que você gosta sobre eles? Como você se sente quando os
lê?
Diante do guia de perguntas acima descrito,
nos propomos neste momento a apresentar (brevemente) os dez entrevistados
seguindo com a exposição de suas respectivas respostas
[71]
.
·
David Weinberger: usuário e
autor do www.hyperorg.com/blogger

David Weinberger é Doutor em Filosofia pela Universidade de Toronto. Foi professor
durante seis anos e trabalhou mais sete como escritor de comédia para o diretor
de cinema, Woody Allen. David foi co-autor (juntamente com Doc Searls) do
livro “The Cluetrain Manifesto” e autor de “Small Pieces Loosely Joined” descrito
como “uma unificadora teoria sobre a web”. Outros exemplos de trabalhos publicados
sob sua autoria já estiveram nas páginas de jornais como The New York Times,
Harvard Business Review, The Boston Globe, e de revistas como Wired e Research
in Phenomenology. David é freqüentemente seminarista convidado de diversos
eventos ao redor do mundo onde geralmente discute efeitos relacionados a Web.
Ele é americano e mora na cidade de Boston com sua esposa e seus três filhos.
Suas respostas:
01- Ler diversos pontos de vista de um
assunto que me interessa, manter contato com amigos, inclusive amigos que só
conhecemos através de seus weblogs.
02- Weblogs são formas retóricas. O
conteúdo pode ser qualquer coisa.
03- Eu faço esta leitura através de um
página onde agreguei uma lista de weblogs que facilita minha leitura diária de
weblogs. Os blogs foram inseridos nesta lista porque eles foram ou são
interessantes pra mim. E eu os leio diariamente porque eles estão na lista.
04- Os weblogs são geralmente escritos na
‘voz’ do autor que dessa forma expressa ou conduz muito sentimento.
05- Weblogs têm dado ‘voz’ para muitas pessoas
que de outra forma não teriam encontrado uma forma de se expressar pela dificuldade
ou pela incomodação que tinham na atualização de um website diariamente. O
agrupamento de weblogs, através dos blogrolls
[72]
, cria teia de interesse no topo da WWW. Weblogs tem sido
um local crucial para encontrar análises de notícias.
06- A web é a nova esfera pública, mas não
aquela que traz consenso. Os Weblogs são uma parte disto. Porque os comentários
postados nos weblogs tendem a ser maiores que aqueles inseridos em fóruns de
discussão online, weblogs tem facilitado a entrada de comentários consideráveis
que estão expostos ao público feedback. Os weblogs não trouxeram compromisso
maior entre o leitor e o escritor assim como nenhuma outra forma de escrita trouxe.
Mas a sua perseverança – o fato do mesmo autor escrever um blog todos os dias
durante anos – configurou uma relação única entre o escritor e o leitor.
07- Eu não entendo o que você quer dizer.
Mas se eu tivesse que adivinhar: a grande razão porque estamos lendo weblogs é
porque eles são escritos por uma voz humana.
08- Sim, todos os apontamentos são verdade.
09- Eu leio dois desses freqüentemente. Aqui está o porquê - Winer: notícias, opinião forte e porque eu sei que todo mundo está lendo ele e eu quero saber sobre o que outras pessoas estão falando sobre os assuntos que ele comenta. Searls: notícias, reflexões, e porque ele é um de meus amigos.
·
Jish Mukerji: autor de www.jish.nu

Jish Mukerji é Mestre em Bilogia Molecular (Neurosciences)
pela Universidade de McGill (Montreal). Atualmente ele trabalha para uma companhia
de software na área de biotecnologia e farmácia. Jish, (32 anos) é americano,
descendente de indianos e residente da cidade de São Francisco na Califórnia.
Antes de responder às perguntas enviadas,
Jish nos escreveu perguntando o que achávamos sobre ele mencionar nossa
pesquisa em seu weblog uma vez que alguns de seus leitores também poderiam ser
usuários/leitores dos cinco weblogs que nos propusemos a estudar. Aceitamos a
contribuição/ajuda de Jish que através do ‘post’ em seu weblog (representado
pela imagem abaixo) nos forneceu dois consideráveis usuários/leitores que mais
adiante estaremos apresentando.

Suas respostas:
01- Para mim, os weblogs são uma
grande maneira de manter contato com meus amigos que eu não vejo diariamente.
Dessa forma posso me manter informado quanto ao que está acontecendo na vida
deles e com o que eles tem ocupado suas mentes. Além disso, eu tenho a
oportunidade de espiar a vida de diversas pessoas interessantes que nunca
conheci.
02- Eu
gosto de ler weblogs que linkam interessantes sites da mesma forma que eu gosto
de ler weblogs que são extremamente pessoais e que contém poucos (isso se
alguns) links para sites externos.
03- Alguns
fatores me atraem a um weblog. Primeiramente, se um
amigo em quem confio aprecia um weblog em particular, é quase certo que eu
também irei apreciar e me interessar. Em segundo, eu sempre aprecio ler weblogs
dos meus amigos. Em terceiro lugar, eu me sinto atraído por weblogs com algum
conteúdo relativo a tecnologia (especialmente gadgets
[73]
). E por último, se eu encontrei algum conteúdo que me interessou em
um weblog em particular, provavelmente retornarei.
04- Não necessariamente. Muitos autores de weblogs simplesmente apresentam fatos como
um repórter faria ao invés de oferecer uma observação pessoal ou uma
perspectiva de acordo com o que pensam. Entretanto, eu sou atraído a sites que oferecem um
‘toque humano’ juntamente ao conteúdo.
05-
A interconexão e a disseminação (como vírus) que os weblogs tem reproduzido à
rede tem drasticamente transformado o panorama da web. É surpreendente pensar
que eu seria capaz de testemunhar um evento que interfere nos padrões de vida
da humanidade, e espalhar notícias no meu weblog para o conhecimento de (potencialmente)
milhões de leitores num espaço de tempo irrisório.
06- Weblogs permitem uma relação melhor entre o
leitor e o autor do que as oferecidas em outras formas de mídia. Por exemplo,
um repórter que
publica artigos no jornal geralmente menciona no final
de seu artigo ou matéria um comentário como ‘enviar e-mail com suas opiniões
para reporter@empresaondetrabalha’. Se o artigo fosse num modelo tradicional de
weblog (permitindo aos leitores fazerem seus comentários logo em seguida e
publicamente, onde os demais leitores também poderiam ler seus comentários),
isto facilitaria com que muitos leitores trocassem opiniões não apenas com o
autor mas entre si também. Esta forma de interação/diálogo ocorre em ambas as formas no
meu weblog e quando eu visito weblogs de
amigos. Muitas vezes, eu percebo que um mesmo grupo de pessoas comenta
‘posts’/entradas de um weblog em especial. De alguma forma, isto forma uma
comunidade de leitores.
07- Certamente que podem. Um exemplo de um weblog onde eu não
encontro os sentimentos ou a personalidade
do autor é o Gizmodo
[74]
. E isto não é uma coisa ruim, em fato, este é um dos weblogs que eu visito
e revisito muitas e muitas vezes. Ao visitar outros weblogs, freqüentemente noto que visito pelos sentimentos mais profundos do autor (ou fotógrafo, no caso de photoblogs
[75]
) que brilham
através das
páginas.
08- a-) esta é uma das razões primárias do porquê
eu me sinto conectado aos weblogs dos meus amigos que estão ao redor do mundo.
Na minha opinião, eu me acho capaz de relacionar/simpatizar com os sentimentos
pessoais mais sinceros dos meus amigos de forma melhor do que eu poderia
relacionar de pessoas que são desconhecidas por mim.
b-) eu mencionei Gizmodo anteriormente.... e mesmo
que eu me sinta atraído por weblogs com conteúdo sobre tecnologia (para saber
de novas parafernálias lançadas no mercado), Gizmodo é um exemplo de ‘parada para
compras’, onde eu posso encontrar destaques de lançamentos atuais e discussões
sobre estes equipamentos.
c-) as pessoas freqüentemente comparam weblogs com
jornalismo e o pensamento inverso é motivo de debate da mesma forma.
Pessoalmente, eu concordo com a avaliação de Andrew quando diz ‘variadas
perspectivas de primeira mão’. A maioria das opiniões expressas em ‘post’ de weblogs
não foram projetadas ou destinadas para o consumo de massa.
d-) Um comentário comum sobre meu weblog que eu
recebo e leio de amigos e de desconhecidos que acessam meu weblog é: ‘eu gosto
de ler sobre o que está acontecendo na sua vida’. Algumas vezes isso pode soar
meio horripilante, mas ao que observamos de uma outra forma, isto alimenta o
exibicionismo que existe em casa um de nós.
09- Os
weblogs que tendo a freqüentar são de amigos ou de conhecidos próximos. Isso
não quer dizer que eu avalio o que eles dizem como um conteúdo de maior valor
ou superior a outros weblogs, eu simplesmente estou mais interessado em me
manter atualizado com o que está acontecendo na vida dessas pessoas que por mim
são estimadas. É como cruzar com um velho amigo na rua e parar num bar para
beber alguma coisa e papear sobre o que anda acontecendo com a vida dele. E por
esta razão eu sigo e leio os weblogs de Matt, de Mena e
de Anil.
·
Matthew Mullenweg: autor do
photomatt.net
Matthew Mullenweg é americano e estudante do
segundo ano de Economia na Universidade de
Houston. Leitor
de Jish Mukerji, Matthew teve interesse em responder a entrevista proposta para
este trabalho e nos enviou um e-mail com suas respostas. Matthew mora na cidade de Huston, no estado do Texas. A imagem a seguir
representa seu weblog.

Suas respostas:
01- O que aprecio na leitura de weblogs porque eu gosto da inclinação pessoal sobre eventos que eles oferecem. Ao invés da escrita comum e genérica eu consigo muito mais de personalidade. Como eu estou na Web durante muitas horas do meu dia, minha sede por atualizações é saciada pela freqüente atualização que muitos weblogs têm.
02- eu sou realmente aberto a tudo. Pessoalmente eu sou mais impulsionado a ler um blog que tenha tendência em assuntos de tecnologia porque é algo que me interessa muito. E eu parei de ler muitos blogs que passaram a se dispersar muito desse foco.
03- Eu sigo a coluna lateral do meu weblog que se atualiza automaticamente assim que algum dos weblogs que eu freqüentemente leio foi atualizado. Eu clico em cerca de uma dúzia deles e ao ler, posso ir seguindo diversos links que são oferecidos por eles também e algumas vezes eu deixo comentários. Faço isso diversas vezes durante o dia e geralmente quando eu encontro um tempo livre. Certos blogs eu leio mesmo quando estou ocupado porque aprecio demais o conteúdo deles e dentre esses eu citaria: tantek.com/log [76] , simon.incutio.com [77] , www.zeldman.com [78] , diveintomark.org [79] .
04- Absolutamente. Como eu disse anteriormente, é a voz do autor um dos principais atrativos dos weblogs pra mim. Consigo pensar em Mark Pilgrim e Dave Winer que são realmente insolentes algumas vezes, mas que assim como outros bloggers que conheci ou que me correspondo, são realmente pessoas bacanas.
05- Eu acho que a recente revolução de publicações pessoais através de ferramentas para a produção de blogs irá mudar tudo. Você até mesmo pode notar os efeitos disso nos rankings de ferramentas de busca como o Google por exemplo.
06- É provável que a maioria dos autores de weblogs concordem que cerca de 20% de sua audiência/leitores é ativamente participativa, deixando comentários e seguindo os links oferecidos. Zeldman [80] fez um ‘post’ sobre isso na semana passada eu acho.
07- Eu não tenho bem certeza sobre o que você quer saber com esta pergunta.
08- a-) Quando a maioria dos meus amigos se mudaram devido à universidade em que foram aceitos, eu os ajudei a montar seus weblogs que hoje tem nos ajudado a manter contato com bastante freqüência. É uma forma meio que passiva de se manter atualizado com o que está acontecendo na vida deles, e isto certamente me convida a continuar uma maior comunicação.
b-) Sim. Algumas pessoas na minha cidade (de cerca de 3 milhões de pessoas) dividem comigo o mesmo interesse e sensibilidade por assuntos sobre a Web, dessa forma, ter uma comunidade inteira (ou ‘tribo’ como eu já ouvi sendo chamado) online é meio que acalmar a solidão.
c-) Isto é raro, mas quando isto acontece é ótimo. Veja Salam Pax [81] por exemplo.
d-) Mais uma vez, correto.
09- Dave Winer: ele é um imbecil que capta muitas das coisas erradas, mas que ocasionalmente tropeça em algo que realmente pode ajudar a comunidade. Ele é um melhor programador que comunicador e mesmo a contragosto eu o respeito. Algumas vezes seus comentários realmente me aborrecem, mas fornece ótimos links, então eu o leio freqüentemente. Matt Haughey: ótimo cara que desenvolve excelentes códigos e que faz um ótimo trabalho comunitário. Algumas vezes parece que ele fica meio que sem assunto no blog dele, mas geralmente é maravilhoso. Anil Dash: Um dos meus favoritos. Sua escrita é realmente excelente, seus ‘posts’ perspicazes e o estilo dele é puro entretenimento. Quase todos os posts são jóias e apesar dele geralmente não retratar assuntos mais técnicos ligados a Web, religiosamente leio seu blog. Os links diários que ele oferece são ótimos também e eu os acesso da mesma forma.
·
Scott
Gowell: autor do www.sinekow.org
Scott Gowell é americano e graduando do
curso de Computação pela Universidade Northern Michigan. Leitor de Jish Mukerji, Scott teve interesse em
responder a entrevista proposta para este trabalho e nos enviou um e-mail com
suas respostas que seguem abaixo. Scott mora na cidade de Marquette onde
finaliza seu curso e trabalha como webmaster para diversos sites do Governo do
Estado do Michigan. A imagem abaixo representa a página com seu
weblog.

Suas respostas:
01- Weblogs
fornecem uma nova forma de conteúdo. Muito além de serem apenas diários online,
weblogs dão às pessoas um lugar onde dividir suas idéias e pensamentos (não
importando o quanto pessoal eles forem), suas experiências (não importando o
quanto embaraçosas tenham sido), e suas opiniões (não importando o quanto
politicamente incorretas elas sejam).
02-
Qualquer coisa. Eu tenho um ‘blogroll’ muito
eclético e me orgulho disso. Os assuntos variam do mundano ao cotidiano, ao
tecnológico.
03- Alguns
dos blogs que leio narram fatos da vida pessoal de seus autores, como cada novo
dia traz um novo capítulo à ‘saga’. Alguns sites são apenas tentativas de leituras,
geralmente humorísticos e que podem fazer meu dia.
04- Eu
sei que em meu blog eu posso escrever e falar sobre assuntos que não falaria
nem mesmo com minha família, e isso é liberdade.
05-
Certamente. Recentemente fui entrevistado pela Wired
[82]
sobre as mudanças da ferramenta de busca Google com o advento
dos blogs e na entrevista disse que a Web de hoje é um ambiente totalmente
diferente do que era quatro, dois, um ano atrás. Nós não ouvíamos sobre freqüentes
atualizações tão imediatas em páginas de raiz de sites
[83]
.
06-
Blogs, e mais importante ainda – as ferramentas para blogs permitem uma melhor
‘inter-comunicação’ entre o blogger/autor com o leitor. Trackback
[84]
e Pingback
[85]
, especialmente.
07-
Um blog tem a mesma sensibilidade que seu autor, além da mesma forma como eles
interpretam e se revelam através do formato.
08-
Winer escreve sobre o movimento dos ‘blogs’ e isto realmente me fascina, da
mesma forma que Doc e Mena. Matt está no mesmo nível de leitura uma vez que ele
também trabalham com programação (assim como Mena e também Anil). O conteúdo de
seus blogs e a prática profissional de
cada um deles é o me faz retornar e revisitar seus sites.
·

Cheyenne Burnsworth (31 anos) é americana residente da cidade de São Francisco
no estado da Califórnia. Atualmente trabalha para uma companhia de energia
elétrica americana como suporte (técnico e em web). Cheyenne produziu dois
programas sobre weblogs para um canal de televisão da Califórnia exibidos
ano passado. Cheyenne também é leitora e amiga de Jish Mukerji, mas recebeu o e-mail
contendo a entrevista desta pesquisa por estar citada no weblog de Dave Winer.
Suas respostas:
01- A
habilidade de interagir com uma variedade de pessoas de diferentes estilos de
vida e poder espiar um pouco na vida delas, assim como colher informações que
nos podem ser importantes a partir das palavras escritas por estas pessoas.
02-
Eu encontro de tudo através dos weblogs, de humor à suporte técnico.
03-
Leio diariamente porque formei ligações/relações com os autores dos weblogs. É
como tomar um café com alguém com quem você simpatiza através de um monitor e
um teclado.
04-
Considero a maioria dos autores dos blogs que leio, meus amigos e nós nos
comunicamos e conversamos um com o outro desta forma.
05-
O ato de ‘blogar’ abriu uma nova avenida para a comunicação. Quando observamos
que a grande maioria das pessoas na sociedade atual trabalham em média 50/60
horas por semana, mantendo suas famílias, criando seus filhos, mantendo
atividades extras e de lazer; podemos perceber que os weblogs tornaram possível
a interatividade dessas pessoas com outras que passam pelas mesmas situações
que elas, fazendo com que nenhuma se sinta deixada de lado. Weblogs são úteis
por diversos motivos, mas à comunicação é a principal.
06-
Eu permito comentários em meu weblog de forma que isso gradativamente aumenta
minha interatividade com meus leitores da mesma forma que em outros weblogs
(que leio) isto me permitiu formar novos laços de amizade (tanto pessoalmente
quanto online).
07-
Claro. O primeiro passo foi a criação dos weblogs, agora nós estamos nos
ramificando e partindo para conhecer aqueles com quem ‘blogamos’.
08- Concordo com tudo que Grumet declarou como comentei em meu weblog na época. Acredito que nós todos temos um lado naturalmente voyeurístico e que os blogs têm, de alguma forma nos levado a expressar este lado.
09- Leio os weblogs de Dave Winer, Doc Searls e Mena Trott porque os conheci pessoalmente e porque colho informações (pessoais e tecnológicas) relevantes pra mim em seus blogs.
·
Chuck Olsen: autor do chuckolsen.blogspot.com
Chuck Olsen foi apresentado no início desta pesquisa como o americano que atualmente realiza um documentário independente sobre Blogs – “Blogumentary A Documentary About Blogs”. Por ser Chuck (também) um usuário/leitor/autor de weblog, nossa entrevista também foi respondida por ele.

Suas respostas:
01-
Dois motivos: 1- estar melhor informado e aprender coisas novas, 2- para se
entreter.
02-
Geralmente notícias e opiniões políticas,
notícias e opiniões tecnológicas e detalhes sobre vidas pessoais.
Progressivamente áreas mais específicas atravessando ocupações (educação,
direito, leis) e interesse (costura, culinária, The Matrix) e ademais.
03-
Sim, minha rotina primeiramente é checar sobre o que a blogosfera está cochichando,
via DayPop, Blogdex, Corante
[86]
, BuzzMachine, Anil Dash, e assim por diante. Eu
também visito os blogs de meus amigos locais diariamente. Tudo isso geralmente
me mantém sintonizado ao que eu faço a leitura sobre muitos assuntos de informação
e entretenimento. Dado ao meu trabalho realizando o documentário, eu venho
tentando me manter atualizado com o mundo ou o movimento dos blogs especificamente,
bem como percorrendo as trilhas daqueles que estão lendo meu blog, vendo meus
vídeos e o que estão comentando sobre eles.
04-
Em algumas situações sim. Por exemplo, uma mulher de Minnesota “Plain Layne
[87]
” é muito sincera e pessoal em seu weblog ao que ela descreve
seus problemas com relacionamentos. Seu diário incita, algumas vezes, um sentimento
e uma resposta de seus leitores incluindo eu mesmo. Pessoalmente, eu acredito
que ela seja tímida, até porque ela hesita em me encontrar para participar
do Blogumentary, mas ela acha fácil se expressar e se comunicar através do
seu blog.
05-
Sim, completamente. Blogs facilitaram pra todos a publicação online, e mais
importante ainda, capacitaram e permitiram milhares de pessoas a linkar e a
comunicar; formaram laços comuns ao redor de interesses comuns, incitaram
debates políticos, e tantas outras coisas. É bem evidente também para
ferramentas de busca como o Google, por exemplo. É como tocar um microcosmo da
humanidade.
06-
Às vezes. Algumas pessoas estão mais interessadas em polarizar argumentações,
e a web é um espaço muito fácil para a aplicação e a prática disso. Mas a
web também facilitou a apresentação da informação ao formar um consenso se
isto é que você quiser encontrar, ou for o que você estiver disposto a escutar
na vida real. Com esperança, as comunidades virtuais mantém os pólos extremos
porque há pessoas suficientes nessa comunidade para moderar e apresentar informação.
Eu já tive debates políticos em blogs e eles raramente atingem um consenso,
mas eu experimentei e estou de acordo com o que experimentei e eu tenho lido
assuntos com uma nova visão porque parte da interatividade está através de
alguém que divide uma opinião diferente da sua. Exemplo? Michael Moore na
noite do Oscar
[88]
. Alguém diz que ele é uma fraude, um mentiroso e que deveria
ter ficado quieto. Eu discordava, mas aprender que ele falou besteira e satirizou
demais sua mais recente obra
[89]
, me aquietou. A web é indubitavelmente o lugar onde as
mais importantes conversas sobre política, sociedade, economia e ética está
acontecendo, e isto é uma esfera pública de alguma forma.
07-
É quase que um requisito básico ter uma sensibilidade humana afim de se manter
um blog. Mesmo se um blog for ‘frio’ ou muito ‘técnico’, isto está refletindo a
natureza da pessoa que escreve. Muitos blogs literalmente são extensões da
pessoa que escreve, cheio de personalidade e vida.
08- a-)
Sim, e até mesmo se eles não estão geograficamente distantes. Eu não falo muito
com minha mãe mas nós trocamos email ou mensagens instantâneas na internet ou
nos falamos via blog, e ela mora três quilômetros de distância de onde estou.
Eu entrevistei uma garota que morou na Tailândia por um tempo e o blog dela foi
o instrumento principal de comunicação dela com amigos e sua família que sabiam
através dela, como estava sua vida.
b-)
Absolutamente
c-)
De fato, e Salam Pax é, com certeza, o
melhor exemplo disso.
d-)
De fato, veja meu exemplo sobre Plain Lane já mencionado.
09-
Eu leio Dave Winer porque ele é a voz de sentinela sobre blogs e tecnologia, e
ele é meio nervoso e engraçado. Algumas vezes leio Doc Searls por suas
observações e reflexões sobre tecnologia, jornalismo e ademais assuntos. Eu não
leio o blog da Mena a não ser que algum outro blog que eu esteja lendo a tenha
linkado, mas eu sou fã dos Trotts e estou sempre interessado no que está na
cabeça e na mente da Mena, uma vez que ela é a menina prodígio atrás do
MovableType. Os Trotts são fascinantes, eles são tímidos e um tanto nerds à
primeira vista, além de criativos e influentes. Anil tem sempre links incríveis
e eu conversei com ele pessoalmente em diversas ocasiões, então eu gosto de me
manter informado com o que está acontecendo na vida dele. Eu também
simplesmente gosto do cara, ele é engraçado e eu quero continuar atualizado com
o que ele está fazendo dentro do TypePad.
Oops,
esqueci do Matt Haughey. Eu leio muito ele. Nós temos muitos interesses em
comum e ele está sempre à frente em jornalismo e em tecnologia. Ele me lembra
muito um colega de ginásio que eu tive, o Andy, nerd e muito legal por sinal.
Matt me ofereceu o quarto de hóspedes da casa dele pra quando eu for visitar o
oeste, o que é imensamente gratificante porque isto significa que ele confia em
mim e que aprecia meu projeto. Ele é tão respeitado em seu projeto MetaFilter –
como um deus – que eu costumava achar que ele era tipo um esnobe, mas depois de
conhecê-lo, percebi que ele é terrivelmente tímido e consegue ser irreverente
online. Em fato, ele é extremamente legal que eu quase me sinto um parente
dele.
·
Matthew Haughey: autor do
a.wholelottanothing.org
Autor
de um dos cinco weblogs estudados neste trabalho, Matt também é um
usuário/leitor de weblogs. Tendo em vista que sua apresentação deu-se no
segundo capítulo deste trabalho, iremos, neste momento, apenas a descrever suas
respostas à entrevista/questionário.
01-
Manter contato com os amigos, encontrar links para novas coisas e ler
notícias/novidades.
02-
Espero encontrar basicamente de tudo: texto, fotografias, músicas, qualquer
coisa que o autor se disponibilizar a contribuir e publicar.
03-
A maioria dos blogs que leio são de pessoas que conheço por referência ou que
conheço pessoalmente.
04-
A maioria dos weblogs que leio são escritos por amigos pessoais, então acredito
que os blogs substituem o contato humano ausente do momento, então eles devem
comunicar ou expressar certo sentimento humano.
05-
Sim, eles voltaram a fazer da web um ambiente de escrita (no modo computacional
de ler/escrever). Nos primórdios da web, a maioria das pessoas que a utilizavam
também criavam conteúdo pra isso, mas no final dos anos 90, a web se tornou
quase que totalmente leitura apenas, com pessoas tratando a web como se a web
fosse uma forma interativa de televisão. O movimento dos blogs fez com que as
pessoas se lembrassem que qualquer um pode escrever o que quiser e ainda
encontrar um lugar pra isso na web.
06-
Weblogs aumentam a interação entre leitor e autor, mas acredito que em grande
parte isso está relacionado a percepção. Se você lesse meu blog por anos, como leitor você poderia achar que me
conhece, mas eu posso não saber nada sobre você.
07-
Eu não sei o que você quis dizer com esta pergunta.
08-
Isto se parece com quase tudo que descrevi nas questões anteriores. Eu concordo
com todas as observações de Andrew.
09-
Eu leio os blogs de Mena e Anil regularmente porque são meus amigos e gosto de
manter contato com eles através de seus blogs, sabendo o que estão fazendo e
pensando. Leio Dave Winer de tempos em tempos pra saber sobre o que ele tem
escrito sobre indústria, e o resto eu leio quando alguém da minha lista de leitura
diária menciona ou linka.
·
Anil Dash: autor do www.dashes.com/anil
Também
autor de um dos cinco weblogs estudados neste trabalho, Anil igualmente é um
usuário/leitor de weblogs. Tendo em vista que já o apresentamos no segundo
capítulo deste trabalho, passaremos, neste momento, apenas a descrever suas
respostas à entrevista/questionário.
01- Eu
acredito que o primeiro motivo/razão em se ler weblogs é que as pessoas ganham
acesso a uma variedade muito grande de opiniões e informações utilizadas para
preencher a forma como elas vêem e observam o resto do mundo delas.
02-
Muitos dos meus sites prediletos são sobre assuntos específicos e sites
realmente apaixonados por aquela determinada área (do assunto). Porém, muitos
dos que eu mais freqüento são de pessoas
que eu acho interessante e que são consideráveis em qualquer assunto que
estejam discutindo.
03-
Uma ou duas vezes por dia eu acesso todos os sites que costumo ler atrás de
atualização. Depois eu passo por alguns que seguem uma freqüência inexata de
leitura na minha rotina. Tipicamente um weblog que eu leio diariamente tem
atualizações freqüentes, uma personalidade marcante e uma boa variedade de
assuntos e uma profunda escrita.
04-
Eu absolutamente acredito que o weblog como um ‘meio’ demanda mais sensibilidade
e presença pessoal do que qualquer outro formato que aspire ser anônimo ou
isento ou imparcial. Eu noto que os sites que leio mais freqüentemente
tendem a ser escritos por amigos, mesmo quando eles não são pessoas que eu
conheço pessoalmente.
05-
Eu acho que os weblogs restauraram algumas idéias das pessoas que tentavam
compreender ou estudavam como a web se desenvolveria, com uma enorme
participação de pessoas conectadas entre si através da rede criando formas,
caminhos, e tendo um acesso fácil. O boom dos domínios transformou a web em
algo que ela não era realmente boa, e talvez os weblogs estejam ajudando a web
a se recuperar.
06-
Weblogs são de longe a maior forma de interatividade da mídia. Eu
constantemente estou recebendo comentários, e-mails e mensagens instantâneas de
meus leitores e eu mantenho contado com autores de blogs que leio dessa mesma
forma – e isso preenche ou alimenta a minha escrita assim como também me
encoraja a redefinir a minha
comunicação, meu processo de comunicação. Isto também tem me dado confiança
para pressionar meus leitores em termos de assunto e estilos de comunicação,
uma vez que as pessoas que entram em contato reforçam seus desejos de acomodar
ou trocar idéias e expressões que são pouco comuns e algumas vezes originais.
07-
Eu acho que eles devem de modo a terem sucesso. A sensibilidade ou o toque
humano em um weblog é o que distingue isso das demais formas de escritas
encontradas em outros meios, e a possibilidade de encontrarmos isso na web.
08-
Eu diria que os weblogs fornecem todos estes benefícios e mais: weblogs podem
muitas vezes atuar como uma fonte definitiva dentro de um assunto obscuro ou
ainda não claro, ou como o ponto de encontro de uma grande comunidade onde nem
estaria incluído o autor do weblog. Estas são fantásticas e inesperadas
tendências que vemos emergindo na área dos weblogs.
09-
Eu costumo ler Dave Winer quando outros blogs o linkam. Eu acho que ele tem
muito a contribuir à área de tecnologia mas o que foge a este assunto em seu
weblog (e suas conversas sobre contribuições tecnológicas) tendem a distrair e
difamar o valor das principais mensagens.
O
site de Doc Searls eu checo freqüentemente e os assuntos tendem a espelhar ou
conduzir às perspectivas e opiniões que eu lerei em outros sites. Eu vejo isso
como um barômetro da popularidade de idéias no cenário dos weblogs, da mesma
forma que um medidor de sua popularidade.
O
blog de Matt é a forma com que mantenho contato com um amigo. Muitas das idéias
que eles escreve são sobre assuntos que apareceriam em uma conversa normal com
ele caso nos encontrássemos, por exemplo. E eu vejo observo que a escrita de
Matt sobre essas idéias são aprofundadas e melhor analisadas quando ele as
apresenta em seu weblog.
Eu
também leio o blog da Mena
[90]
, mas é difícil pra mim comentar sobre o dela uma vez que
ela é minha chefe e somos bons amigos. Então eu não sei o quanto eu poderia
dizer além de que é muito bom ver alguém utilizando um weblog como meio de
expressão do lado humano de sua carreira profissional. Parece que existe um
esforço consciente onde tentamos representar através do blog dela o lado pessoal
e humano da empresa. Acredito que isto no futuro servirá de modelo visto que
uma gama de executivos poderiam ter weblogs.
·
Daniel Pádua: autor do www.dpadua.org/weblog

Daniel Pádua
[91]
(23 anos) é brasileiro residente da cidade de Belo Horizonte
no estado de Minas Gerais. Daniel estudou Informática
no Cefet-MG, Publicidade - até o quarto período - no UNIBH (Centro Universitário
de Belo Horizonte) e atualmente cursa Educação Artística, na UEMG (Universidade
do Estado de Minas Gerais). Daniel trabalha com internet desde 1997 e hoje
é designer de interfaces do UNIBH.
Suas respostas:
01- A princípio, vários motivos, especialmente porque, como qualquer outra pessoa, desempenho atividades na minha vida que me direcionam a diferentes tipos de informação. Entretanto, eu não sinto que estou lendo um weblog, mas "chegando atrasado" para uma conversa íntima. Existe uma pessoa do lado de lá. Por isso, no fim das contas eu acredito que lemos os blogs por uma curiosidade típica da espécie, uma vontade de ouvir as pessoas, descobrir os sentimentos que elas estão experimentando e talvez até participar dessa experiência com ela, se a expressão dela nos contagia de alguma maneira.
02- Eu leio weblogs de todo tipo... e os procuro em função da minha
demanda por informação, que é bem dinâmica. Quando estou interessado em ler
sobre a
minha atividade produtiva, procuro blogs de gente que reflete sobre a Internet
e acompanham seu desenvolvimento, quando quero relaxar e "trocar
idéias", acesso blogs de pessoas que me são extremamente simpáticas e com
as quais me identifico em termos de interesses, quando estou num dia bastante
curioso, saio procurando blogs a esmo, e aí leio praticamente qualquer coisa:
da colegial apaixonada ao tarado por sexo. É como eu disse: não sinto que leio
pelo conteúdo, mas porque a pessoa que ali escreve é capaz de me cativar de
alguma maneira.
03- Infelizmente não tenho tido tempo de
organizar uma rotina diária de leitura... por dois motivos: sempre estou
envolvido com algum trabalho e meu bookmarks é bem grandinho. Por isso eu acabo
escolhendo este ou aquele para dar uma lida. Entretanto, alguns weblogs
conseguem me fazer retornar todos os dias. Geralmente são aqueles que mais me
cativam (aí seria como ter saudade da pessoa que escreve e querer voltar
sempre). Ou quando ler um determinado weblog torna-se parte da sua rotina
social - que é quando você participa de
alguma comunidade online e quase todas essas pessoas estão atentas à este blog.
No meu caso, dois bons exemplos são o No Mínimo Weblog (nominimo.ibest.com.br -
clicar em “weblog") - e o Don't Believe the Hype (www.dbth.net), que são
bastante lidos pelo pessoal do Projeto Metáfora (www.projetometafora.org), do
qual participo. Neste último caso, é interessante uma comparação com a hora do
cafezinho, numa empresa. Quem perde a conversa da hora do cafezinho, geralmente
fica boiando uma boa parte do dia sobre o que as pessoas estão comentando ou
refletindo.
04- Certamente. Porque os símbolos despertam reações emocionais. A informação é um mecanismo que catalisa uma construção sensível no interior das pessoas. Acredito que num mundo onde o hábito de ler sucumbiu em parte à apreensão direta das situações simbólicas, nem todos temos uma sensibilidade sintonizada com a decodificação abstrata do texto. Mas aqueles que o tem, com certeza conseguem captar o sentimento do outro, talvez numa profundidade até maior. Eu costumava ler o blog da Rossana Fischer (www.wumanity.com), até o dia em que ela entrou em depressão, e eu simplesmente não conseguia mais acompanhar. Porque as palavras dela expressando a angústia estavam me ferindo, me envolvendo da experiência pela qual ela passava.
05- Sim... a Web estava se tornando o lugar
do conteúdo corporativo, trazendo para o nosso "playground" a mesma
sensação de que só a mídia comercial tinha informações sobre a vida. De
repente, com os weblogs, o véu das info-corporações caíram e começamos a
perceber mais facilmente a Internet como uma malha conectando pessoas, e cada
uma dessas pessoas tendo algo de útil a acrescentar à conversa do dia-a-dia.
Pra mim é óbvio que estamos no
estágio embrionário de uma nova alternativa de infra-estrutura de comunicação
social, centrada na contribuição de cada indivíduo, definitivamente tratado com
uma carga confiável de informações e munido de ferramentas para se expressar em
escala mundial. De fato, eu vejo os weblogs como parte de uma tendência
bastante nítida da Internet, de fortalecimento das aplicações que servem de
plataforma descentralizada para a formação de conexões dinâmicas entre pessoas
- e-mail, p2p, weblogs, instant messaging. Ao mesmo tempo em que evolui a
infra-estrutura onde os indivíduos criam "pontes" entre si de forma
cada vez mais simples e integrada, a experiência social descentralizada e
colaborativa traz impactos profundos e amplos na forma como os grupos humanos
se organizam, causando uma mudança de sensibilidade nas pessoas em relação ao
coletivo. Mas estas mudanças são ainda pouco claras.
06- Em alguns casos os weblogs produzem e
fortalecem laços. Em outros, não. Acho que esta visão real da esfera pública
dependerá muito da evolução da integração dos weblogs, que ainda são apenas
páginas web interlinkadas. Eles precisam passar a existir num espaço onde a
conversação em tempo real e a mobilização de uma rede de pessoas pode ocorrer
de maneira imediata, através da mesma interface. Na Internet, vejo uma espécie
de "fronteira de
interfaces": diversos espaços, diversas atividades, fragmentando a
dinâmica interativa. Uma esfera pública é um espaço único, onde toda forma de
troca de informação pode acontecer. Na Web, hoje, a esfera pública é o
somatório de diversos meios, sendo os blogs apenas um deles. Um cruzamento
interessante seria weblogs + file-sharing + instant messaging, sob mesma
interface, plenamente integrados. Uma mesma plataforma para todo tipo de troca
de informação. Estou inclusive começando um projeto assim, o Livenodes (www.livenodes.org)
- vamos ver no que vai dar.
07- Acredito que sim. Novamente, porque os símbolos são capazes de codificar a experiência de alguém e assim possibilitar uma decodificação desse sentimento... mas essa decodificação bem-sucedida depende especialmente da condição sensível do leitor. Para um coração frio, quase tudo é indiferente. Uma coisa que eu fico pensando às vezes é em encontrar o weblog perdido de alguém que morreu no anonimato. Será que os relatos ali contidos não me dariam pelo menos uma parcela de compreensão do que essa pessoa viveu? Eu não ficaria tocado de alguma maneira?
08- Eu acho que ela é verídica, apesar de ser bastante pontual sobre uma ferramenta de uso tão genérico. De fato, no estágio atual e levando em consideração a afirmação do Grumet, eu sinto que os weblogs funcionam hoje mais como um repositório isolado da voz do que como um espaço dinâmico que interagem facilmente com as vozes dos interlocutores que ali se reúnem de vez em quando.
09- Eu leio o Dave Winer, e o Doc Searls. Eu acabei sendo cativado por eles basicamente pelo conhecimento técnico apurado bastante útil que eles compartilham através de seus weblogs, pelas propostas e reflexões inovadoras e bem sintonizadas com as tendências da Internet, e por um ar casual bem humorado e desprendido com relação ao que eles dizem. Eu particularmente gosto de gente que acaba sendo séria, mas que essencialmente preferem os prazeres da vida às complicações e picuinhas do convívio humano organizado. Eu me sinto mais livre com relação ao meu ofício. Como se ele fosse muito mais uma diversão do que um fardo.
· Frank Schaap: autor do fragment.nl
Frank Schaap
[92]
é holandês residente da cidade de Amsterdam. Formado em
Antropologia pela Universidade de Amsterdam, Frank segue atualmente na academia
onde é aluno do programa de Doutorado pesquisando a construção de identidade
e gêneros em diversos ambientes online. Autor do livro “The Words That Took
Us There - Ethnography in a Virtual Reality”, Frank mantém em seu domínio
Fragment.nl uma parte dedicada aos seus estudos sobre Cibercultura, Identidade
e Gêneros. A imagem abaixo ilustra seu weblog.

Suas respostas:
01-
Aprecio assuntos sobre os quais não tenho muito conhecimento ou sobre os quais
eu não teria pensado em escrever, organizados pelo traço ou ‘pensar’
característico de uma pessoa em especial, a qual eu não preciso necessariamente
conhecer. Isto imediatamente explica porque eu leio determinados blogs e não
outros: eu tenho que gostar do modo como o autor do blog que leio se expressa,
como ele organiza seus pensamentos, que tipo de assunto ele opta em escrever.
02-
A maioria dos weblogs que leio tendem a ter um foco específico – uma vez que
eles podem ter o foco em qualquer coisa acerca de qualquer assunto: webdesign,
CSS
[93]
, jogos, academia) – o que eu espero encontrar? Uma voz
especial articulando questões sobre até mesmo qualquer coisa que esteja vagamente
relacionada ao foco ou assunto central de seu weblog. Mas eu também não me
importo (ocasionalmente) em ler posts completamente ‘nada a ver’ ou totalmente
fora de foco.
03-
Minha rotina diária consiste em percorrer cerca de quinze favoritos
[94]
(de weblogs) dos quais eu gosto. Mais do que quinze blogs
é o que eu posso lidar diariamente, embora eu ainda siga alguns links citados
nestes quinze weblogs e acabe ainda passando mais tempo lendo. Ocasionalmente
eu adiciono um novo blog à minha lista e ocasionalmente eu também removo um
weblog que havia listado. Dessa forma minha rotina diária é meio pragmática.
04-
Acho que eu nunca parei pra pensar sobre isso na verdade. Há tantas formas
diferentes em que as pessoas escrevem seus weblogs que acredito que você
realmente não pode delimitar o processo ‘geralmente encontrado nos weblogs’. Eu
não acho que exista um ‘geralmente’, embora exista algumas associações. Sobre
sensibilidade e lado humano nos autores? Até onde isto é possível percebo que,
alguns eu admiro de alguma forma, alguns eu apenas acho interessante, e alguns
são mais acessíveis e nos deixam mais confortáveis que outros. No entanto, a
menos que eu tenha uma interação mais íntima com esses autores, online ou fora
da rede, isto assemelha-se muito com o gostar ou o admirar de um escritor de
livros de ficção ou o colunista de um jornal (com uma certa distância).
05- Bem,
eles ainda não transformaram. O que é realmente importante é que muitas pessoas
não estavam interessadas em HTML/webdesgin, tem um modo simples de expressar
suas idéias (de seus interesses) através da web que é acessada por muitos. A
forma como eu vejo isso, é que daqui algum tempo, alguma coisa apenas baseada
em folhas de estilo se tornará o estilo padronizado de publicação na web. Os
weblogs de certa forma comandam este desenvolvimento e são um exemplo singular
nisso.
06- Por muitas razões não irei me importar de escrever isso aqui: eu acho que a idéia de ‘esfera pública’ de Habermas é, se não errada, ao menos otimista demais. Se você realmente tem um público como autor de weblog, e nisso eu quero dizer - nem que seja 12 assíduos leitores -, eu acredito que há uma integração melhor entre o autor e os leitores. Mas isto é um grande ‘se’. E sim, este tipo de interatividade acontece e eu vejo acontecer no meu weblog por exemplo. Quando isso acontece, eu aprecio muito, especialmente quando alguém realmente se engaja numa das minhas argumentações porque isto ajuda com que eu articule melhor meus pensamentos, idéias, teorias, opinião.
07- Eu realmente acho que não entendi sua pergunta. Weblogs são weblogs e por isso não podem ter sensibilidade, mas weblogs podem mostrar a sensibilidade de seus autores.
08- a-) Acho que um weblog pode fazer isso, assim como uma carta, uma ligação telefônica, ou e-mail faz.
b-) Absolutamente.
c-) Isso é o que em grande parte os weblogs fazem, embora não seja meu principal interesse.
d-) E sim, ocasionalmente eles provém
alguma informação em seus weblogs que fazem você dizer "uhmmmm!?!"
Eu realmente não acho que estas quarto observações constituem uma perspectiva. Elas carecem de uma maior estrutura teórica.
09- Dave Winer: eu parei de ler o weblog dele porque ultimamente eu: a-) não gosto de ler apenas pequenas citações e b-) fiquei entediado com suas irritações pessoais e brigas mimadas.
Mena Trott: eu leio o blog dela uma vez por semana. Eu uso MovableType em meu weblog e como ‘interesse profissional’ eu gosto de observar o que os criadores da ferramenta que utilizo estão fazendo e pensando na vida pessoal deles, e/ou em relação a empresa e produto deles.
Anil Dash: Um dos bloggers ‘originais’ hummm, leio seu weblog principalmente para saber as manchetes e sobre o que está acontecendo na blogosfera.
Como eu me sinto quando eu leio o blog deles? Ehm, nada em especial. Algumas vezes eu leio algo interessante ou ‘empolgante’, mas é o conteúdo da mensagem que me interessa e me deixa empolgado e não o fato de eu estar lendo aquele determinado weblog.
Ao
estudar a realidade e os métodos de observação da organização da sociologia
como ciência, Cristina Costa, sobre os modos de ver de um cientista, afirmou:
O nosso
olhar não vê a realidade à nossa volta em sua essência, mas distingue nessa
mesma realidade aqueles fenômenos cujos conceitos nos são dados pela cultura. É
assim que organizamos os dados sensíveis da realidade de maneira a ser possível
reconhecer elementos significativos. Sem essa educação do olhar, a visão do
real seria impossível, e nossa percepção
apenas registraria dados aleatórios e caóticos. (Costa 1997, p. 208)
Ao que partimos para a análise de nossas entrevistas, pretendemos analisar dados observados, de modo que não signifiquem simplesmente ‘olhar’, mas discriminar e discernir. Nos propomos a separar aquilo que é circunstancial e periférico daquilo que é essencial e diz respeito ao nosso problema investigado.
Blogs are so human that you pass by them on
the web like you walk down your workplace: for some people you like to say hi,
hug and ask for their kids, others you just wave your hand or nod with
your head, and others you just pass by because either you don’t like them or
are afraid to know them better.
Gustavo Fischer
Quando Chuck Olsen iniciou seu projeto, ele planejou a realização de um documentário independente atento ao movimento dos Weblogs. Seu público alvo, além dos bloggers ou blogueiros como são conhecidos no Brasil, era a massa - a sociedade de massa - pressuposta consumidora de cultura. Sua amostragem partia de problemáticas detectadas por Chuck como pesquisador. Seu foco, em um objeto delimitado, estava na transformação das expressões pessoais, na ação democrática dos weblogs como mídia, na tensão entre revelação e anonimato, na dinâmica de relações (romance, amizade, familiar, profissional), na conexidade, e na blogosfera como um organismo humano. Como todo bom pesquisador, Chuck tinha que estar preparado para lidar com uma grande variedade de opiniões e com descobertas inesperadas. Sendo muito freqüente o surgimento de novos problemas que não haviam sido previstos no início da pesquisa e que se tornaram mais relevantes do que questões iniciais, ele tinha de ser capaz de reorientar seu estudo.
No dia 25 de maio de 2003, Chuck nos escreveu contando sobre seu encontro com Nora Paul [95] , autoridade na Universidade de Minnesota. Chuck disse: “ao conversar com ela ficou claro que eu deveria fazer uma versão do Blogumentary destinada a estudantes de jornalismo e pesquisadores acadêmicos”.
Ao realizar seu projeto, agora, previsto para dois públicos-alvo, Chuck conta que seu foco não precisa necessariamente mudar. Ele diz que certamente um maior número de entusiastas e de cabeças ‘pensantes’ na área dos Weblogs aparecerá em sua versão ‘educativa’, mas que “mentes singulares não deixarão de aparecer e nos ensinar”.
Assim, ao que nos aproximamos do final do
trailer do Blogumentary de Chuck, podemos assistir mais uma vez a singularidade
dos pensamentos de Seth Appel. E então ouvimos ele dizer: “eu
prevejo que um dia as pessoas saberão o que são blogs. Elas ficarão obcecadas
pelos blogs que mais a entretêm ou com os que mais se identificam, ou com aqueles
que representam um alivio para as emoções ou angustias que elas também sentem”.
A Internet engendra fenômenos que vão bem além da
comunicação no sentido estrito do termo. Mais do que um meio de comunicação,
ela oferece suporte à um espaço simbólico que abriga um leque muito vasto
de atividades de caráter societário, e que é palco das práticas e representações
dos diferentes grupos que o habitam. William Gibson, um dos expoentes da literatura
Cyberpunk
[96]
,
cunhou o termo "Ciberespaço" justamente para designar esse espaço.
Em "Neuromancer" (1984), boa parte da ação transcorre em seu interior.
Case, o protagonista, em meio à uma série de venturas e desventuras próprias
ao gênero de ficção científica, entra e sai da Matrix, a rede de computadores
onipresentes que constituem o Ciberespaço, no interior da qual relaciona-se
com outros humanos e com máquinas, vivendo uma realidade virtual, mas não
por isso menos "real".
Um dos temas fetiche dos anos 90, a virtualidade
via de regra é associada à uma "não-realidade", concepção que não é
das mais adequadas para pensarmos o Ciberespaço. Dentre os autores que se
dedicam ao estudo da metafísica dessa nova dimensão, Lévy (1997) argumenta que
o virtual não se opõe ao real, mas sim que o complementa e transforma, ao
subverter as limitações espaço temporais que este apresenta.
Desta forma o virtual não seria o oposto do real, mas sim uma esfera singular
da realidade, onde as categorias de espaço e tempo estariam submetidas à um
regime diferenciado.
A intenção de reprodução ou criação de 'mundos
virtuais realistas' não é estranha às propostas para o futuro da World Wide Web. A partir do desenvolvimento
de estratégias para a incorporação de modelos digitais tridimensionais a Web
Sites, dentre as quais a linguagem VRML
[97]
é ainda a mais bem sucedida, um número cada vez maior de
modelos de existentes do mundo dito 'real' e simulações de uma determinada
versão de nossa experiência cotidiana do espaço vem sendo publicado na WWW
[98]
.(Fragoso 2002, p. 5-6)
Fragoso ainda afirma que:
A percepção da espacialidade do ciberespaço, no entanto, independe da inclusão de modelos tridimensionais à World Wide Web. Assim como apreendemos a espacialidade do mundo físico a partir da percepção das relações que os vários elementos que o povoam estabelecem entre si, também o espaço da Web se revela para os usuários a partir da identificação das relações estabelecidas entre as várias 'páginas' [99] (idem, p. 6)
Essa relação entre as várias páginas as quais Fragoso menciona poderia ser refletida ao objeto de nossa pesquisa, os weblogs, visto que cada um deles encontra-se em uma página. Desta forma, poderíamos dizer que as relações dos nossos usuários/receptores está naquela estabelecida por cada um deles ao que ‘viram páginas’, acessam outros weblogs, seguem links postados pelos autores dos weblogs que estão lendo, e ao que fazem analogias e criam metáforas.
Quando em seu artigo “Espaço, ciberespaço, hiperespaço” Fragoso nos diz que “a analogia com a percepção da espacialidade urbana é bastante clara”, poderíamos recuperar exemplos como:
Jish: É como cruzar com um velho amigo na rua e parar num bar para beber
alguma coisa e papear sobre o que anda acontecendo com a vida dele.”
Cheyenne:
É como tomar um café com alguém com quem você simpatiza através de um monitor e
um teclado”.
Daniel: eu não sinto que estou lendo um weblog, mas "chegando
atrasado" para uma conversa íntima. Existe uma pessoa do lado de lá. Por
isso, no fim das contas eu acredito que lemos os blogs por uma curiosidade
típica da espécie, uma vontade de ouvir as pessoas, descobrir os sentimentos
que elas estão experimentando e talvez até participar dessa experiência com
ela, se a expressão dela nos contagia de alguma maneira.
A rede promove a diluição das fronteiras geográficas mas também a geração de novos territórios, identidades e práticas sociais. Lugares e Não lugares. Mas até que ponto os browsers e os sistemas de pesquisa de informação poderiam ser entendidos como não-lugares?
Segundo Fragoso, Bolter (1996) identificou ainda outras características comuns ao espaço urbano e ao ciberespaço, particularmente o caráter coletivo de sua instituição, a heterogeneidade e os modos de apreensão dos dois fenômenos.
Cada habitante persegue seus próprios interesses, e ainda assim as atividades de todos combinam para direcionar e tornar viva a cidade como um todo. O ciberespaço, ou pelo menos a Internet, possui esta qualidade. Talvez nenhuma outra metáfora disponível possa capturar como a da cidade a tensão através da qual a ação individual conduz a um senso coletivo de coerência. (Bolter apud Fragoso 2002, p.7)
Os weblogs, passam a ser concebidos pelos seus
utilizadores como espaço de pesquisa de informação, de encontro e de partilha,
ou seja, os weblogs geram uma espacialidade inteiramente abstrata que é
reforçada pelas metáforas de navegação e de site (lugar). Gera-se uma proximidade
que muitas vezes nada tem a ver com a proximidade geográfica, mas sim com a
proximidade representacional que promove a idéia de comunidade. É interessante
refletir sobre esta característica nos weblogs, enquanto novas formas de
publicação na web, promovendo a uma escala considerável, o estatuto de
comunidade para os seus utilizadores.
Se observamos a clareza com que cada um de nossos
entrevistados busca nos weblogs que lêem, afinidades e assuntos de seu próprio
interesse, não poderemos deixar de pôr à questão, se não estaríamos face a uma
virtualização do espaço público concreto com a tendência para a multiplicação
das formas de mediação.
As comunidades virtuais são feitas de pessoas e do
que elas realmente querem, daquilo que realmente lhes interessa, sem
constrangimentos prévios ou póstumos (…) As novas tecnologias dão a cada um de
nós um poder sem precedentes de construir o nosso próprio mundo de referência,
de encontrar as pessoas que realmente nos interessam, estejam onde estiverem,
de aprender e ensinar sobre aquilo que realmente queremos que faça parte da
nossa vida.(Soares 1999, p.75)
A idéia de comunidade virtual também nos remete à
‘esfera pública’ mencionada na questão seis de nossa entrevista. Sobre ela
ainda poderíamos observar que a rede por si mesma incita à idéia de território
organizado, mas que diante da questão da territorialidade da Internet numa
tripla dimensão nos faria pensar: 1) a Internet como um território simbólico
abrangente associado à idéia de globalidade, 2) as implicações da flexibilidade
territorial que a Internet permite sobre o território geográfico e
socio-político, 3) a representação de territórios individuais e/ou privados na
Internet, quer a nível grupal quer pessoal. Esta tripla dinâmica, que se
entrecruza, faz com que a constituição de uma rede internacional global tenha
promovido a oportunidade de afirmação das identidades locais através da sua
presença nessa mesma rede, passando a ter visibilidade global. As identidades
locais afirmam-se pela especificidade simbólica, iconográfica, ideológica tanto
quanto pela língua (apesar do inglês ser a língua dominante).
David: A web é a nova esfera pública, mas não
aquela que traz consenso.
Chuck: A web é indubitavelmente o lugar onde as
mais importantes conversas sobre política, sociedade, economia e ética estão
acontecendo, e isto é uma esfera pública de alguma forma.
Daniel: Acho que esta visão
real da esfera pública dependerá muito da evolução da integração dos weblogs,
que ainda são apenas páginas web interlinkadas. Eles precisam passar a existir
num espaço onde a conversação em tempo real e a mobilização de uma rede de
pessoas pode ocorrer de maneira imediata, através da mesma interface. Na
Internet, vejo uma espécie de "fronteira de interfaces": diversos espaços,
diversas atividades, fragmentando a dinâmica interativa. Uma esfera pública é
um espaço único, onde toda forma de troca de informação pode acontecer. Na Web,
hoje, a esfera pública é o somatório de diversos meios, sendo os blogs apenas
um deles.
A Internet poderia ser vista como um espaço de
espaços onde o público e o privado, o local e o global, o material e o virtual
coabitam. Isso poderia conduz à geração de novas sociabilidades e reorganização
das sociabilidades tradicionais. Porém, o usufruir desta nova dinâmica é um
exercício individual que no campo prático ainda depende de ferramentas. O que
podemos destacar dessa forma é o que este exercício individual tem realizado
atualmente, e mais especificamente, nos weblogs.
Quando muitos de nosso entrevistados comentaram sobre
a interação do leitor com o autor, muitos deram exemplos de ferramentas que,
disponibilizadas não apenas nos weblogs (como os comentários por exemplo)
mas também na Internet (mensagens instantâneas e trocas de e-mail), fomentam
uma maior inter-comunicação. De forma a esta inter-comunicação acontecer,
antes de mais nada é preciso pensarmos no processo de interpretação dado ao
conteúdo de um weblog, que de forma física, não deixa de ser um texto
[100]
.
Quando um texto é produzido não para um único destinatário
mas para uma comunidade de leitores, o autor sabe que esse texto será
interpretado não segundo suas intenções mas segundo uma complexa estratégia de
interações que co-envolve também os leitores, juntamente com a competência
destes em relação à língua como patrimônio social. (Eco 1990, p.84)
Um texto ‘aberto’ continua, ainda assim, sendo um
texto, e um texto pode suscitar uma infinidade de leituras sem, contudo
permitir uma leitura qualquer. É impossível dizer qual a melhor interpretação
de um texto, mas é possível dizer quais as interpretações erradas. (idem, p.81)
Quando aplicamos isso à Internet ao observarmos o
conteúdo ‘texto’ disponibilizado no ambiente dos weblogs deparamo-nos com o
processo de interpretação individual mediado por cada um. A possibilidade de
dizer onde e quais interpretações foram erradas é detectada através dessa inter-comunicação
dos leitores/receptores ao dialogar (Jish), ao debater (Chuck), ao argumentar
(Frank) e ao redefinir um processo de comunicação (Anil), sendo todos a partir
destas ferramentas disponibilizadas (como já dissemos) tanto nos próprios
weblogs como na Internet. Outra questão relevante é a observação de que estes
leitores/usuários também coexistem como autores/usuários, e que é partir do enraizamento e projeto
existencial de cada um deles, que cada um explora a informação e as teias
relacionais que os weblogs lhes permitem. O local (material e/ou
representacional) será sempre o microcosmos a partir do qual se pode
compreender a dinâmica social. Para alguns isso incitará um laço de
familiaridade (Chuck), para outros poderá ser laços de amizade (Jish, Cheyenne,
Daniel, Frank, Anil), e noutros ainda laços profissionais (Matthew Mullenweg,
Daniel, Scott, Anil). Por sua vez, o que podemos observar em todos é o caráter
de rotina, onde a relação deles com o meio (primariamente a internet e
consequentemente os weblogs) reconfigurou os afazeres diários incitando novas práticas
de consumo de mída, onde através de uma rotina na leitura diária de weblogs os
usuários/leitores partiram em busca daqueles que maior (ou melhor) contextualizam
o que lhes interessa.
Valverde chama à isso a questão dos modos como
podemos interpretar a relação entre sensibilidade e tecnologia.
Quando dizemos que nossa sensibilidade, nosso ‘modo
de ver’ as coisas, foi modificada, precisamos esclarecer o caráter da
modalização considerada. É certo que o modo humano de ver as coisas é diferente
daquele dos pássaros e dos macacos, e estes não captam o mundo do mesmo modo
que os peixes. Da mesma forma, falamos também em diferentes modos de percepção
humana, tendo em vista a diversidade de época, localização, nacionalidade,
faixa etária, situação econômica, etc. (Valverde 2001, p.91)
O que se anuncia aí, portanto, é a idéia de que as
diferentes formas de sensibilidade são diferentes padrões de recepção adquiridos pelos hábitos introduzidos por
diversos meios, sustentados em diferentes tecnologias. E, além disso, que a
recepção facultada pela sensibilidade compreende a mediação tecnológica e
depende, portanto, da relação física com alguma interface; ou seja, é
sustentada pela percepção sensorial, mas não se reduz a ela, uma vez que opera
num ambiente discursivo e segundo uma disposição (um pathos), que se traduz em determinados usos e costumes. (idem,
p.94)
A diversidade de experiências comunicativas
na rede vistas através dos weblogs aponta para um modelo multifacetado de
comunicação, que engendra modos distintos de comunicar ao mesmo tempo que
demonstra como tais modos tendem a se expandir e a se transformar.
Apesar de todos os desenvolvimentos tecnológicos
permanece a necessidade de uma crítica da idéia de progresso e a necessidade de
re-pensar de forma holística, integrada e ecológica o desenvolvimento da humanidade
face à avalanche de novas produções na rede.
Assistimos a um dos raros momentos em que, a partir
de uma nova configuração técnica, isto é, de um novo relacionamento com o
cosmos, inventa-se um estilo de humanidade.(Authier e Lévy 1998, p.129)
Re-pensar o modelo de desenvolvimento da humanidade
implica, também, refletir sobre os bens imateriais e os espaços imateriais.
Estes terão, possivelmente, um contributo crucial numa dinâmica de
desenvolvimento em que os conhecimentos e os valores culturais são elementos
estruturantes do processo.
Talvez o
ciberespaço seja um dos lugares públicos informais onde possamos reconstruir os
aspectos comunitários perdidos quando a mercearia da esquina se transforma em
hipermercado. Ou talvez o ciberespaço seja precisamente o lugar errado onde
procurar o renascimento da comunicação, oferecendo, não um instrumento para o
convívio, mas um simulacro sem vida das emoções reais e do verdadeiro
compromisso perante os outros. Seja qual for o caso, precisamos de descobri-lo
o mais rapidamente possível.(Rheingold 1996)
O ciberespaço propõe mudanças, mas são os usuários
(sociedade) que fazem uso desse meio. É certo que não se deve ter uma expectativa
demasiado elevada quanto à mudança porque a velocidade da mudança social é
substancialmente mais lenta que a mudança do meio. A mudança social não acontece,
constrói-se. Ela pode estar sendo construída (de modo singular) através das
relações mediadas
[101]
pelos weblogs, mas é real o pensar de um de nossos entrevistados
(Daniel) quando este nos diz:
A informação é um mecanismo que catalisa uma construção sensível no interior das pessoas. Acredito que num mundo onde o hábito de ler sucumbiu em parte à apreensão direta das situações simbólicas, nem todos temos uma sensibilidade sintonizada com a decodificação abstrata do texto. Mas aqueles que o tem, com certeza conseguem captar o sentimento do outro, talvez numa profundidade até maior.
O conhecimento que a humanidade possui da realidade
é uma representação dessa realidade, sempre foi uma representação, mas com os
novos mediadores essa representação complexifica-se. Esses novos mediadores são
agora autores/usuários que simultaneamente existem como leitores/usuários. Dessa
forma, a liberdade total das falas encontrada no âmbito dos weblogs (mencionada
por nossos entrevistados) poderia ter um papel significativo no enraizamento
sociocultural na elaboração da concepção da realidade, a partir de mediadores
globalizantes.
Os computadores não seriam objetos culturalmente
tão poderosos como o são se as pessoas não estivessem a apaixonar-se pelas suas
máquinas e pelas ideias que as máquinas veiculam. (Turkle1997, p.71)
A Internet tem uma gramática socio-técnica própria,
tanto quanto cada produto dela o tem. Ao observarmos os weblogs, isso lhes dá a
especificidade baseada na convergência e na interoperabilidade, envolvendo
novas linguagens, novos comportamentos e novos simbolismos. Esta realidade
promove uma nova gramática organizacional que terá que ter em consideração que
os media são sempre híbridos - técnicos, sociais e culturais - e que os usos
não são apenas tecidos por uma lógica racional, mas também emotiva.
considerações finais
Desejando compreender o processo de recepção em weblogs nos dispusemos a estudar aspectos como interpretação, sensibilidade e interação desse processo. Queríamos, ao enfrentar um novo meio de comunicação, a partir do meio virtual, aprender com eles. Mas não é fácil enfrentar o novo quando uma observação muito próxima tende a interferir e a se sobrepor diante do que se nos apresenta.
Ao pesquisarmos o tema dos weblogs tivemos uma série de dificuldades decorrentes da própria novidade do objeto de estudo. Percebemos que a nossa maior dificuldade centrava-se no fato de estarmos enfrentando algo novo, lançando mão de recursos já utilizados em pesquisas anteriores. Se o objeto de estudo já era novo, a lacuna quanto aos estudos de recepção no meio era ainda maior. Vygotsky (1991), estava mesmo certo ao dizer que um novo objeto de estudo exige novos métodos. O uso da internet, suas novas produções, está exigindo de nós uma nova abordagem. Aquilo que chamávamos de observação participante teve que se adaptar ao novo suporte. Ficou claro então a necessidade de focalizar os receptor/usuário pela observação participante usando a mediação da própria internet. E assim ao estudarmos incitamos nosso próprio laço afetivo com o objeto. Se pensarmos pelo ponto de vista de que não amamos pessoas mas sim as coisas que fazemos para mediar nossa vida com esses indivíduos, aprendemos a partir deste estudo em weblogs a amar coisas que os seres humanos fazem para mediarem-se conosco. Os weblogs são apenas uma das vias, mas são objetos mediadores.
Aparentemente a comunicação no espaço público
tradicional está doente: as pessoas queixam-se da falta de comunicação entre os
elementos da família e da comunidade. Passamos progressivamente a viver num
regime de solidão organizada no qual a comunicação e as trocas simbólicas
parecem estar enfraquecidas e, com elas, a idéia de comunidade também parece
encontra-se bastante fragilizada. Talvez até a idéia de comunidade não esteja
enfraquecida e apenas estejamos a passar por uma fase transitória em que essa
idéia, e respectivo sentimento associado, estejam a sofrer um processo de
metamorfose. E nessa metamorfose coabitem modos tradicionais de comunidades e
novas formas emergentes do cenário tecnológico da comunicação. Ainda assim,
poder-se-á pôr a questão: Quem se sente membro de uma comunidade de bairro, de
paróquia, etc.? Apesar de não existir uma resposta unívoca a esta questão, ela
faz refletir sobre uma certa diluição de alguns modos de comunidades locais
baseada na presença e a afirmação progressiva de comunidades baseadas em laços
proporcionados pela geografia da rede (uma página está apenas a um clique de
distância de uma outra página). É neste cenário que as trocas simbólicas no
âmbito da internet, vistas a partir dos weblogs desta pesquisa, parecem recriar
a comunicação onde ela parece estar moribunda, ou seja, a nível interpessoal e
a nível da geração de laços sociais potenciadores do surgimento do sentimento
de comunidade. Deste modo, o mundo virtual das práticas nos weblogs surge como
uma nova oportunidade, como possibilidade de comunicação aparentemente segura e
sem conflitos, enquanto que no mundo real os conflitos se multiplicam e a
insegurança se instala. Quem toma a iniciativa de encetar diálogo com o
estranho que se encontra da mesa do lado, no café? E quem hesita estabelecer
diálogo com o desconhecido que está da sala de um bate-papo onde se acaba de
entrar ou que tem o seu e-mail numa web-page que trata de um assunto que também
nos interessa ou nos despertou curiosidade? Pelo que nossos entrevistados
responderam, webloggers são esses ‘quem’.
Nietzsche entendia já que os nossos instrumentos de escrita intervinham no nosso pensamento e McLuhan entendia que o medium é a mensagem. O numérico, para se instalar, supõe uma ruptura forte com os suportes tradicionais e materiais. Com esta ruptura desaparece a figura do autor, o que se desenha no horizonte é o fim do estilo e a virtualização do real. Há pontos de vista mais otimistas. Para esses, a verdadeira revolução da Internet vai consistir em libertar uma fantástica criatividade coletiva, no sentido em que a produção de sentido através da interatividade coletiva precede qualquer emergência de avaliação, qualquer vontade redutora para instaurar uma intencionalidade unívoca. A Internet vai permitir que o insconsciente colectivo chegue à expressão (Walter Benjamin fala da "câmara que inicia ao inconsciente óptico como a psicanálise ao inconsciente pulsional"). Mas continuamos a braços com a questão da técnica e os seus malefícios. O formato de publicação disseminado através dos weblogs permitiu a qualquer pessoa expôs na rede o que julgasse melhor. Num campo aberto, o trigo sempre mistura-se com o joio, e talvez o joio nos faça notar a diferença entre muitos e entre todos. Continuamos como Heidegger a interpretar a técnica de maneira positiva, como o modo próprio que tem o nosso tempo de manifestar a verdade, e portanto, a manifestação do ser. Uma observação muito próxima ao nosso objeto pode ter nos impulsionado a idolatrá-lo e a transcrevê-lo de modo, muitas vezes, deslumbrado. A verdade é que a técnica des-cobre a verdade que sem o seu auxílio permaneceria escondida, re-coberta.
A técnica ou a metodologia experimentada nesta pesquisa nos levou a duvidar de sua capacidade e performance investigativa. Alguns de nossos entrevistados não responderam uma de nossas questões e dessa forma nos perguntamos até que ponto estávamos aptos à pesquisar sem nos valer da questão do bias. O fato é, nosso pensamento ao formular uma questão como: “os weblogs podem ter uma sensibilidade humana?” foi romântica.
Vivemos como se o poder da escrita mudasse de mãos.
Como se a natureza do texto tivesse mudado. De fato, o texto produzido por um
weblogger mediado por um computador não é senão a materialização instantânea de
um processo de produções virtuais. É por isso um texto eminentemente
"frágil", sem a autoridade do texto estabelecido. A leitura
proporcionada pelos weblogs é uma leitura do fluxo, do instantâneo, do móvel,
do universal, do interativo. Os weblogs põem em causa sobretudo a componente
material do signo, o que leva vários autores a falar de imaterialidade.
Esta desmaterialização confere ao texto em weblogs características que não
apresenta em nenhum outro suporte. O texto em weblogs é: móvel, engendrável,
instantâneo, interativo, organizado e deslocalizado.
A leitura e a escrita tornaram-se uma aventura
experimental no âmbito dos weblogs. As escritas unívocas e as escritas híbridas
entraram em fusão. As primeiras constituem aqueles modos de interpretação da
realidade que privilegiam, em princípio, os fenômenos onde a unidade e a
perfeição surgem como valores máximos e, em última análise, a 'pureza' ou a
eficácia do estilo e das idéias. Pelo contrário, as escritas híbridas demandam,
assumidamente ou não, a impureza, o contato coincidente com o contrato, a
contaminação através da comunicação.
Os weblogs de certa forma poderiam ser vistos como um produto de seus leitores. Um usuário/autor acessa sua ferramenta de atualização e escreve o que tem em mente e isto torna-se um texto quando a interação com seus leitores ativa alguns dos significados. Por tornar-se texto, subentende-se que será lido, comunicará e proporcionará a produção de sentidos. Assim, nessa forma de pensar, Frank Shaap não estava errado ao afirmar que não existe sensibilidade nos Weblogs. Ao responderem ou não nossa questão de número sete, nossos entrevistados nos guiaram a perceber que um weblog só pode ser ‘sentido’ enquanto texto, quando tiver leitores. Ser weblog pressupõe a interação com o leitor. Desta forma, o conceito de “nova sensibilidade” foi, e é fundamental para se estudar o processo de recepção em weblogs. Essa sensibilidade poderia ser entendida como o sistema de representação social que produz e faz circular um conjunto de significados coerentes sobre uma determinada área do conhecimento. Poderíamos dizer que o processo de recepção em weblogs compõe uma “estrutura de significados”. Tal estrutura nada mais é do que o repertório de cada um que interfere na produção de sentidos da mídia. O fato de a mídia ter mensagens de múltiplos significados é intencional para abranger, com uma única mensagem, a leitores diferentes, com conteúdos diferenciados.
Nosso trabalho não poderia ser concluído de
forma a tecer novas teorias, novos comportamentos e novas tendências aos
estudos da recepção. Podemos finaliza-lo indicando aspectos de transição e
mudanças, e afirmando que o indivíduo receptor realmente atua como fonte
geradora de conhecimento aos estudos empíricos nesta área. Os indivíduos
receptores em weblogs promovem o pensar, pedem diálogos, gostam de debater,
discutir e argumentar. E eles também têm suas justificativas. A percepção humana
em cada um deles promulga reações sensíveis que tanto podem promover a
interação quanto simplesmente promover um adicionar de um link novo em seus
favoritos. Como nos disse Monclar (2001), “as diferentes formas de
sensibilidade são diferentes padrões de recepção” e como nos disse Daniel, “nem
todos temos uma sensibilidade sintonizada com a decodificação abstrata do
texto. Mas aqueles que o tem,
com certeza conseguem captar o sentimento do outro, talvez numa profundidade
até maior”.
Se houve falhas no nosso percurso investigativo, também houve na compreensão das falhas, um novo modo de aprender com o objeto pesquisado. Cada um de nossos entrevistados descreveu suas razões ao lerem os cinco weblogs que apresentamos no capítulo dois de nossa pesquisa. Cada um deles, singularmente, percebe o ‘outro’ a partir de como o ‘outro’ é percebido por eles. Modelos como identificação e buscas de interesses foram notados. Conversa escrita. Escrita/conversa. Oralidade/Escrita. Escrita/Oralidade. Realmente não dá para polarizá-las. Na cibercultura se concretiza a dialética do oral/escrito. É o que Levy (1997) chama à atenção ao afirmar que a emergência do ciberespaço tem um efeito tão radical sobre a pragmática das comunicações como teve em seu tempo a invenção da escrita. Esta abriu um espaço de comunicação desconhecido pelas sociedades orais possibilitando a tomada de conhecimento de mensagens geradas por pessoas distantes, que não partilhavam da mesma situação, não estavam em interação direta. Nesse sentido a escrita nos weblogs poderia ser vista como algo descontextualizado. Hoje os weblogs nos levam de volta a essa situação anterior à escrita, porém numa outra escala e numa outra órbita na medida em que a interconexão e o dinamismo em tempo real das memórias em linha, faz os parceiros da comunicação partilharem novamente o mesmo contexto, o mesmo hipertexto vivo. Ler um weblog é ao mesmo tempo escrever e a escrita se torna leitura. E todo weblog é uma escrita em potencial.
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VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
Obs: O último acesso de todos as referências bibliográficas citadas neste trabalho data junho de 2003.
Anexo
1 – Entrevista original em inglês
I'm writing to ask
that you collaborate in the first Brazilian study, both scientific and
academic, in the field of reception specifically focused at Weblogs.
For this purpose I
have developed a survey, which is included below. The purpose of this survey
the users and readers of Weblogs. Only individuals who access and read Weblogs
are being asked to participate. Specifically, I am contacting the people on the
list below.
This study is being
conducted for academic purposes by researchers at the
01 - In your opinion,
and taking into account you particular context, what is the main reason for
accessing Weblogs?
02 - What type of
content do you expect to find in weblogs (a specific topic? general material?
common interests?)
03 - If you have any
particular routine in your daily Weblog reading, why do you believe it exists?
What reasons bring you to read a specific Weblog on a daily basis?
04 - What are your
feelings regarding specific Weblog authors? Do you feel that the writing
process usually found in Weblogs facilitates the communication of human
feeling?
05 - Do you think that
weblogs have transformed the landscape of the world wide web? If so, could give
me your opinions regarding how and why this is so?
06 - When argumenting
ideas associated to virtual communities, internet scholars often relate the net
to the idea of the 'public sphere', as developed by Jurgen Habermas (see,
Habermas 1989). In an ideal public sphere, citizens would discuss issues of
concern and arrive at a consensus for the common good. do you think weblogs
bring greater engagement and interaction between the reader and the author?
Does this form of interaction occur with you? If so, how would you describe it?
07 - Can weblogs have
a human sensibility? If so, how and why?
08 - Andrew Grumet
said that: 'a weblog can thereby provide
a-) a way to feel
closer to friends and family members who may be geographically distant,
b-) a way to locate
and to stay current on the activities of professional peers or people who share
a common interest,
c-) a range of firsthand
accounts and armchair perspectives on current events, as they happen,
d-) a voyeuristic
glimpse into the life of someone that interests you. '
What are your opinions
and thought regarding this perspective?
09 - Let me point
out some names: Anil Dash, Dave Winer, Doc Searls, Matthew Haughey and Mena
Trott. If any of these happen to be weblogs you usually read, could you explain
the reasons why you read them and what do you like about them. How do you feel
when you read them?
I'm doing typical
research: reading, interviewing, thinking and organizing. When my work is
complete, my resulting thesis will be an investigation into the reader's
receptivity to weblog content in an empiric scientific way. I would be very
appreciative if you could answer these questions in a personal, human, sincere
and critical fashion: human virtues which should not be ignored.
I'm trying to find the
human factor that makes readers constantly return to the same weblogs for
updates. I'm trying to articulate how readers have become a part of the weblog
process, where we have all been given voices, and can now be heard by anyone,
anywhere.
Anexo
2 – Respostas originais da entrevista
----- Original Message
-----
From: "David
Weinberger" <self@evident.com>
To:
"'carmela.toninelo..'" <carmela@meltoni.com>
Sent:
Subject: RE: researching
receptivity to weblog content
01- To read
various viewpoints on a topic of interest. To keep up with friends, including
friends you know only through their weblogs.
02- Weblogs
are a rhetorical form. The content can be anything.
03- I read
through a weblog aggregator that makes it easy for me to click through my daily
list of weblogs. Blogs get put on that list because they're interesting to me.
I read them every day because they're on the list.
04- Weblogs
are generally written in the "voice" of the author which by itself
conveys much feeling.
05- It's
given voice to many people who otherwise would have found it too difficult or
annoying to update a web site every day by hand. The groupings of weblogs,
through weblogrolls, creates webs of interest on top of the WWW. Weblogs have
been a crucial place to find the analysis of news.
06- The Web
is a new public sphere, but not one that brings about consensus. Weblogs are a
part of that. Because they weblog entries tend to be longer than contributions
to discussion boards, etc., weblogs have made it easier for slightly more
thoughtful commentaries to posted and exposed to public comment. Weblogs bring
no greater engagement between reader and writer than other forms of writing.
But their persistence -- the fact that the same author writes a blog every day
for years -- builds a unique relationship between writer and reader.
07- I don't
know what you mean. If I had to guess: A big reason we are reading weblogs is
because they are written in human voices.
08- Yes,
those are all true.
09- I read
these three frequently. Here's why: Winer: News items, strong opinion, and
because I know everyone else is reading him and I want to know what others are
talking about. Searls: News, reflection, and he's a friend of mine.
----- Original Message
-----
From: "Jish M."
<jish@jish.nu>
To:
"carmela.toninelo.." <carmela@meltoni.com>
Sent:
Subject: Re: researching
receptivity to weblog content
Hi Carmela!
As promised, my perspectives are noted below ...
Jish
01- For me, weblogs are a great way of keeping in ouch with my friends who I do
not seen on a daily basis. I am able to keep in touch with what's going
on in their lives, and read what they're occupying their time thinking about.
In addition, I get to peek into the lives of several interesting people that I
do not know or have never met.
02- I enjoy
reading weblogs that links to interesting websites as much as I enjoy weblogs
that are extremely personal in nature and contain little (if any) external
links.
03- A few
items will draw me to a weblog. First, if a trusted friend enjoys a particular
weblog, I'm almost cerain I will enjoy it. Second, I always enjoy reading
the weblogs of friends. Third, I find myself drawn to weblogs which deal
with some aspects of technology (mainly "gadgets"). Lastly, if
I found some content which interested me in a particular weblog, I'm likely to
return.
04- Not
necessarily. Many weblog authors simply state facts as a reporter would
and do not offer insight or commentary. However, I am drawn to sites
which do offer a "human touch" along with the content.
05- The
interconnectivity and virus-like infectiousness that weblogs have offered to
the web have indeed drastically transformed the landscape of the www.
It's amazing to think that I would be able to witness a life-changing event and
spread the news on my weblog to (potentially) millions of readers within a
matter of hours.
06- Weblogs
allow a closer engagement of reader and author than is offered in many other
media. As an example, a reporter who publishes articles in the newspaper
oftentimes has a "feel free to e-mail me with your feedback" note at
the end of her/his article. If the article were in a
"traditional" weblog format (allowing readers to make their comments
public), it would be
possible for many readers to share feedback not only with the author, but also
to read feedback of fellow readers. This form of interaction occurs both on my
own weblog, and also occurs when I visit weblogs of friends. Oftentimes,
I will see that a same core group of people will make comments when visiting a
particular weblog, in some ways, this forms a community of readers.
07- Certainly, they can. An example of a weblog where I do not detect the
author's feelings or personality is Gizmodo. This is not a bad thing, in
fact it is one of the weblogs I find myself re-visiting many times. When
visiting other weblogs, it is often the case that the author's (and
photographer, in the case of photoblogs) deepest sentiments shine through.
08- a - this
is one of the reasons why I primariy find myself most connected to the weblogs
of friends that I have around the world. For myself, I am able
relate/sympathize with the personal feelings of friends more deeply than I am
able to do with persons who are unknown to me.
b - I mentioned Gizmodo above ... even though I find myself drawn to technology
weblogs to read about the latest gadgetry on the market, Gizmodo is an example
of "one stop shopping", where I can get the highlights of recent
releases and discusssions.
c - people
often equate weblogs with journalism, and the reverse is also debated.
Personally, I agree with Andrew's assessment of "armchair
perspectives". The majority of opinions expressed/daily reports on
weblogs are not designed or destined for mass consumption.
d - a common comment about my weblog "I like to read about what's going on
in your life" ... this comes from both friends and from strangers.
In some ways, it is very creepy, but in an another way it feeds the
exhibitionist in all of us.
09-
The weblogs I tend to frequent are those of friends or close
acquaintances. It's not always on account of the fact that I deem their content
to be superior to other sites, I'm simply most interested in catching up on
what they have to say/have said. It's like bumping into an old friend and
sharing a drink while catching up on recent events. For this reason, I
follow the weblogs of Matt, Mena and Anil.
----- Original Message
-----
From: "Matthew
Mullenweg" <m@mullenweg.com>
To: <carmela@meltoni.com>
Sent:
Subject: Re: researching
receptivity to weblog content
01- I enjoy
reading weblogs because I like the personal slant on events they give. Instead
of reading bland and generic writing, I get a lot of personality. I'm also on
the web quite a bit, and my thirst for new content is satisfied by the frequent
update schedule most weblogs have.
02- I'm
really open to anything. Personally, I'm more likely to follow a blog with a
technology slant though, as that interests me more. I have stopped reading
several blogs because their focus went too far from what I am interested in.
03- I go
down my sidebar on photomatt.net that changes order based on who has updated. I
click through about a dozen of these and open them in new tabs, then I
read through them, sometimes following links and leaving comments. I do this
several times a day, usually whenever I have a free moment. Certain blogs I'll
look at when they update even if I'm busy because I enjoy their content so
much. Some I can think of like this: http://tantek.com/log/ http://simon.incutio.com/ http://www.zeldman.com http://diveintomark.org/
04-
Absolutely. Like I said before, it's the voice of the author that is one of the
main attractions to me. There are one or two can think of (such as Mark Pilgrim
and Dave Winer) that are pretty obnoxious at times, but overall most of the
bloggers I've met or corresponded with have been very nice people.
05- I think
the nascent revolution of personal publishing through blogging tools is going
to change everything. You can already see the effects in Google rankings and
such.
06- I think
most blog authors would agree that about 20% of their audience is an active
participant, leaving comments and following links. Zeldman had a postabout this
in the last week or so.
07- I'm not
sure what you mean by this.
08- a. When
several of my friends moved away for college I helped them set up blogs and it
has helped us keep in touch quite a bit. It's a passive way to keep up with
what's going on in their lives, and it invites more communication. People used
to do this by setting up forums or such in the past, but this is a more elegant
method. b. Yes. Few people in my city (of 3 million people) share the same
sensibilities and interests regarding web development that I do, so having an
entire community (or "tribe" I've heard it called) online is very
reassuring and fufilling. c. This is rare, at best. But when it happens, it can
be great. See Salam Pax. d. Again, absolutely.
09- Dave
Winer: He's an asshole who gets a lot of things wrong, but occasionally he
stumbles across something that can really help the community. He's a better
coder than communicator, and despite his thoughts I respect him. Sometimes his
writing really pisses me off, but he has good links so I visit pretty
regularly. Matt H.: Nice guy who does great coding and community work. He is
sometimes off-point on his blog, but it's usually excellent. Anil Dash: One of
my favorites. His writing is really excellent, his posts insightful, and his
style entertaining. Almost every post is a gem and though he doesn't usually
deal with web development topics I am generally interested in I follow his blog
religiously. His daily links is great, and I follow it quite a bit as well. I
hope this helps, if you'd like me to expand on anything specific in these brief
answers let me know.
----- Original Message -----
From: Scott Gowell
To: carmela@meltoni.com
Sent:
Subject: RE: researching receptivity to weblog content
Hey, Got this from Jish
.... hope this helps:
01. They provide a new type
of content. More than just online journals or diaries, Weblogs give a place for
people to share their thoughts (no matter how personal), their experience (no
matter how embarassing), and their view (no matter how politically incorrect).
02- Anything. I have a pretty eclectic blogroll,
and pride myself on that. Topics very from the mundane and everyday, to the
very technical.
03- Some of my the blogs I read chronicle people's daily lives. As everyday
gives a new chapter in their saga. Some sites just give me a kick to read,
always funny and that can make my day.
04- I know that in my blog I can talk about things that I wouldn't even talk to
my family about, and it is freeing.
05- Certainly. I was just
interviewed by Wired about the change of Google with the advent of blogs, and
in that interview I said that the web is an entirely different place than it
was 4 years, 2 years or even 1 year ago. Providing content on a main site was
unheard of.
06- Blogs, and more importantly blogging software allows for a great
inter-communication of the blogger and the reader. Trackback and Pingback
especially.
07- A blog has the same sensibility as the blogger, and the way they interpret
and reveal themselves through the blog.
08- All 4 of those points exemplify the reasons why both bloggers blog (one
side of the dialogue) and blog readers read (the opposite side).
09- Winer talks about blogging and that really intrigues me, as do Mena
and Doc. Matt is on the same level for reading as they are developers (as are Mena,
and Anil). Their content and their practices keep me coming back.
----------------------------------------
Scott Gowell
sgowell@sinekow.org
----- Original Message
-----
From: "
To:
"'carmela.toninelo..'" <carmela@meltoni.com>
Sent:
Subject: RE: researching
receptivity to weblog content
Here you go.
Sorry to be late I was out of town and was having a hard time getting mail sent
out. I don't do these interviews well at all I must warn you :)
Good luck
01- The
ability to interact with a variety of people from all lifestyles and peer into
their lives, and glean from their words.
02 - I find
everything in weblogs ranging from humor to tech support
03- I read
daily because I've formed relationships with blog owners/readers so it's a cup
of coffee with someone via a monitor and keyboard
04- I
consider most of the blog owners I visit to be friends and we communicate in
that manner
05- Weblogging
has opened up a new avenue in communicating. Where people in today's society
are working on an average of 50 to 60 hours a week, raising families, pursuing
activities etc the weblogs have made it possible for us to interact with each
other and not feel cut off from the world. Weblogs serve many purposes but
communication is the main one.
06- I allow
comments so it greatly heightens my interaction with my readers and has allowed
me to form friendships in person as well as online
07- Of
course. The first step was the fact that blogs were created now we're branching
out into meeting those we blog with.
08- I agree
with all that Mr. Grumet stated as I've written that myself before. I believe
we all have a voyeuristic side to us naturally and blogs have somehow let us
tap into that.
09- I read
Dave W, Doc's, and Mena's because I've met them all in person and I glean tech information from them as well as personal.
----- Original Message -----
From: Chuck Olsen
To: carmela.toninelo..
Sent:
Subject: Re: researching receptivity to weblog content
Carmela,
My apologies taking so long... here's my best shot on a late nite!
01- 1) To be
better informed and learn new things 2) To be entertained
02- Generally
political news/opinion, technology news/opinion, and details of personal lives.
Increasingly more specific areas traversing occupations (eg law, education) and
interest (quilting, cooking, The Matrix) and beyond.
03- Yes, my
routine is first to see what the blogosphere is buzzing about, via DayPop,
Blogdex, Corante, BuzzMachine, Anil Dash, and so on. I also visit my local
friends' blogs daily. All of that usually gives me a wealth of reading on many
topics for informational and entertaining. Given my documentary I am trying to
keep up on the world of blogging specifically, as well as track who is going to
my blog and video and what they're saying.
04- In some
instances yes. For example, a
05- Yes,
completely. Blogs make it easy for anyone to publish, but more importantly,
enables those thousands of publishers to link and communicate, form common
bonds around common interests, debate politics, etc. It is also evident from
Google searches and such - it's like tapping into a microcosm of humanity.
06- Sometimes.
Some are more interested in polarizing arguments, and the web makes that easy.
But it also makes it easy to present information and form a consensus if that's
what you want to do and are willing to listen in real life. Hopefully virtual
communities keep the polar extremes in check, because there are enough people
to moderate and present information. I've had political debates on blogs, they
seldom reach consensus but I have experienced compromise and seen issues in a
new light because of interacting with someone with differing views. Eg -
Michael Moore at the Oscars. Someone says he's a fraud and a liar and should
keep qiuet, I disagree but learn that he has fudged the truth in his recent work
-- so there's give and take. The web is undoubtedly THE place where the
important political/social/economic/ethical conversations are happening, it is
the public sphere in some form.
07- It's almost a requirement to have a human sensibility. Even if a blog is
cold an technical, it likely reflects the nature of the person. Many blogs
literally feel like an extension of the person, full of personality and life.
08- a-) yes,
or even if they're not geographically distant. i don't talk to my mother much
but we email, AIM, and blog. she lives 5 miles away. i interviewed a girl who
moved to
09- I read Dave Winer because he is a sentinel voice
in blogs and technology, and he's grumpy and funny. I sometimes read Doc Searls
for his insight on technology, journalism, and so on. I don't read Mena Trott's
blog unless someone links to her -- but I'm very fond of the Trotts and I'm
always interested in what's on Mena's mind when I run across it, as one of the
wunderkind behind Movable Type. I'm quite fascinated with the Trotts, they are
shy and nerdy at first look, yet whipsmart and creative and influential. Anil
always has amazing links, and I've talked to him on several ocassions so I like
to keep up with him. His actual blog entries are very hit-or-miss. I also just
like the guy, he's funny. And I want to stay on top of what he's doing with
TypePad. Oops, forgot Matt Haughey. I read him a lot, we have a lot of
interests in common and he's at the forefront of blog journalism and
technology. He reminds me a lot of my high school friend Andy, nerdy and cool
and matter-of-fact. He offered to let me sleep in his spare room if I go out
west, which is secretly hugely gratifying because it means he trusts me and
likes my project. He is so revered in MetaFilter - like a god - and I used to
think he was kindof a snobbish asshole. But after meeting him I realize he's
paaaainfully shy and can come off as flippant online. In fact he is really very
nice and I feel a little sense of kinship or comraderie with him.
----- Original
Message -----
From: "Matthew
Haughey" <matt@haughey.com>
To:
"carmela.toninelo.." <carmela@meltoni.com>
Sent:
Subject: Re: i come here
because i need you
I've been
extremely busy and haven't gotten to these questions until now, so sorry about that. My answers are below. If
there are followup questions, I can't guarantee I'll have any time to answer
those.
01- To keep up with friends, find links to new things, and read news.
02- I expect
to find just about anything. Text, photographs, songs, whatever the author feels like contributing.
03- Most of
the blogs I read are written by people I know or at least have met.
04- Most of
the weblogs I read are written by personal friends, so I guess they replace human contact, so I guess that they
communicate human feeling.
05- Yes,
they've turned the web back into a writing environment (in the read/write computer sense). In the early days
of the web most people that used the web
also created content for it, but in the late 90's, it became almost entirely read-only, with people
treating the web as if it were interactive television. Blogging reminded
everyone that anyone can write anything
they want and still find a place for it on the web.
06- Weblogs
do increase the interaction between reader and author, but I think most of that is perception. If you read my
site for years and years you, as a
reader, may think you know me, but I may know nothing about you.
07- I don't
understand what you mean here.
08- It
sounds like everything I described in an earlier question. I agree with all points.
09- From
that list, I read Mena Trott, and Anil's sites regularly because they are
personal friends and I like to keep up on what they are doing. I read Dave Winer from time to
time to see what he's writing about the industry and the rest I read whenever
someone in my list of daily weblogs points at them. I let my favorite blogs
filter the rest for me to some extent.
----- Original Message
-----
From: "Anil Dash"
<anil@dashes.com>
To:
"'carmela.toninelo..'" <carmela@meltoni.com>
Sent:
Subject: RE: i come here
because i need you
Carmela,
Sorry for the slow reply. My answers are below, and good luck with your research.
01- I think
the primary reason for reading weblogs is that people can gain access to a
wider variety of opinions and information to inform the way they see the rest
of their world.
02- Many of
my favorite sites are topic-specific and really passionate about one area, but
a lot of the ones I visit most frequently are run by personalities that I find
interesting, and that interest rubs off on whatever topic they're discussing.
03- Once or
twice a day I go through and check updates on all the sites I read, and then I
skim through others on an infrequent basis in between. Typically a weblog that
I read daily will have requent updates, a strong personality, and a good
variety and depth to the writing.
04- I
absolutely think the weblog medium demands more of a human touch and a personal
presence than other formats that aspire to be more anonymous or dispassionate.
I tend to feel like the sites I read most often are written by friends, even
when they're not people I've met in person.
05- I think
they've restored a lot of people's original views of how the web would develop,
with participation by a wide variety of people in creative ways, networked
together and easily accessible. The dot-com boom transformed the web into
something it wasn't naturally good at, and perhaps weblogs are helping it
return to normal.
06- Weblogs
are by far the most interactive mass medium. I am constantly getting comments,
emails, and instant messages from my readers, and am in touch with other weblog
authors through the same media, and it informs my writing and encourages me to
refine my communication. It also has given me confidence to push my audience a
bit in terms of subject matter or communication style, since the people who get
in touch reinforce that they're willing to accommodate ideas and expression
that are unusual or novel.
07- I think
they must, in order to succeed. Having a humanity to a weblog is what
distinguishes it from merely writing for other media and having it appear on
the web.
08- What are
your opinions and thought regarding this perspective? I'd say weblogs provide
all of these benefits and more. Weblogs can often act as a definitive resource
on an obscure subject, or as the common meeting point for a larger community
that might not even include the weblog's
author. Those are fantastic and unexpected emerging trends rising out of the weblog
realm.
09- I tend
to read Dave Winer when others link to him. I think he has a lot of interesting
contributions to make to technology, but that the non-technical content on his
weblog (and the conversations around the technological contributions) tend to
distract and detract from the value of the key
messages. Doc Searls' site I check frequently, and it tends to mirror (or lead)
trends that I read on other sites. I see it as a barometer of the popularity of
ideas in the weblog realm, and as a gauge of their popularity. Matt Haughey's
site is a way that I keep in touch with a friend. A lot of the ideas he writes
about are topics that would come up in conversation with him on a personal
level, and I get to see a much broader scope to his ideas and a deeper level of
thinking applied to them when he fleshes out an idea for his weblog.
Hope I've
answered the questions to your satisfaction. Do let me know what results you
come up with, and I'd love to see your research online when it's done!
Anil
----- Original Message
-----
From: "Anil Dash"
<anil@dashes.com>
To:
"'carmela.toninelo..'" <carmela@meltoni.com>
Sent:
Subject: RE: oops!
Heh, I do read Mena's
weblog. It's hard for me to comment on, as she is my boss and we are good
friends, so I don't know how much I would say other than it's good to see
someone using a weblog as a human side to their professional career. There
seems to be a conscious effort to have the
personal, human side of the company represented through her personal weblog, and
I think that will be a model in the future as it becomes more common for executives
to have weblogs. It's also unusual for any successful businessperson's public
persona to be so self-deprecating and humorous.
And yes, I would expect
that Ben and Mena are too busy to get to your survey, unfortunately. Tomorrow
(today! It's late!) is a holiday here in the
Thank you so much for the
kind words about MT and TypePad, both here and on your site. We're extremely
excited and I'm glad we can finally offer Brazilian bloggers a better service
than Globo's. ;)
I've some friends who speak
Portuguese, so maybe even if you can't get it translated, I'll have access to
your paper. And in the worst case, I love the sound of the language, so I'll
have them read it in its native language and then just pretend that it says
wonderful things about me. We Americans
might be ugly in our ignorance about the rest of the world, but it makes it that
much easier to charm us with anything foreign and novel.
Good luck with your paper!
Talk to you later.
Anil
----- Original Message -----
From: "Frank Schaap" <fts@myrealbox.com>
To: <carmela@meltoni.com>
Sent:
Subject: Re: researching receptivity to weblog content
Hi Carmela,
Apologies
for replying so late to your request, it's been very busy here.
01- I enjoy
reading about things that I don't know about or wouldn't have thought about,
organised by and through the idiosyncracy of a particular person. This immediately
explains why I read certain weblogs and not others: I have to like the way the
author of the weblog, the personality of/behind
the weblog, expresses him or herself and the way his or her mind works, what kind
of stuff they come up with.
02- Most
weblogs I read tend to focus -- well as far as weblogs can be said to focus on
anything -- around certain topics: webdesign, CSS, games, academia. What do I
expect to find there? A particular voice articulating issues that are at least
somewhat vaguely related to the central topic of their weblog,
but I don't mind the occasional out-of-the-blue, completely off-topic posting.
03- My daily
routine consists of clicking on about 15 bookmarks for weblogs I like. More
than 15 weblogs is more than I can deal with on a daily basis, although I
regularly follow links from those 15 weblogs to new/other weblogs and spend
some time there. Occasionally I add one new blog to the list and occasionally I
remove a blog from the list. So my daily routine is at least in part governed
by rather pragmatic reasons. Why do I sometimes add a weblog to my daily list?
Hmm... Occasionally I find a weblog that I really like straight away. That has
to do mostly with the voice of the author and the topic of the weblog. Btw, I
_do_ think that part of the 'personality' of the weblog lies in its design. If
I find such a weblog, I add it to my 'intermediate' list and I check out the
weblog on a more or less daily basis for a week or two weeks. If I still like
the weblog, I move it up to my daily list.
04- I
haven't really thought about this very much. There are so many different ways
in which people write weblogs that I think that you can't really talk about the
writing process "usually found in weblogs". I don't think there is a
"usually" here, although there certainly commonalities. Feelings
towards weblog authors? As far as this is possible, some authors' online
presentation/presence I like, some I admire in a way, some I find interesting,
some more approachable than others. However, unless I have had a more personal
interaction with these authors, online or offline, it's more or less the same
kind of liking or admiring as you'd have for a novelist or a columnist in a
newspaper... with a certain distance.
05- Well,
transformed... not quite yet. What is really important though, is that many
people who are not interested in HTML/webdesign now have a fairly simple way of
expressing their ideas on the internet, accessible to many. The way I see it,
is that in some time, some sort of CMS (content management system) will become
the default way of publishing something on the web. Weblogs in a way lead this
development and are a very particular form of it.
06- For many
reasons I don't care to state here, I think Habermas's idea of the public
sphere is, if not wrong, at least too optimistic. If you actually have a public
as a weblog author, and I mean at least a few dozen daily readers, not just
some passers by, then I do believe that there is a greater engagement between
the author and the audience. But this is a really big if. I, however, don't
believe this actually helps realize/actualize something like a Habermassian
public sphere. Sorry.
Yes, this
kind of interaction happens through my weblog, occasionally. When it happens, I
like it, especially when someone really engages my argument, because it helps
me articulate my thoughts, theories, opinions better. Ordoes that sound to
Habermassian? ;)
07- I don't
really understand your question here. Weblogs are weblogs and therefor cannot
have sensibilities, but weblogs can and do show the sensibilities of their
authors.
08- a-)
geographically distant, I think a weblog can do that, just like a letter, phone
call or e-mail can do that. Certainly. b-) Absolutely. c-) This is what many
weblogs do, but these are not my main interest. d-)Ah yes, occasionally provide
some information on their weblogs, that makes you go... "uhmmmm!?!"
I really
don't think that these 4 observations constitute a perspective.They lack a
theoretical framework.
09- Dave
Winer: I stopped reading this weblog, because ultimately I a) don't like to
read so many short remarks in a row and b) got bored of his personal peeves and
pet fights.
Mena Trott: I read this weblog about once a week. I use MT myself and as a 'professional'
interest I like to see what the creators this software are doing/thinking
personally and/or in relation to their software.
Anil Dash:
One of the 'original' bloggers... hmm, I mainly read him weblog, or rather I
just scan the headlines, to see what's going on in the blogosphere.
How do I
feel when I read their weblogs? Ehm, nothing special. Sometimes I read
something interesting or exciting, but it's the content of the message that
makes me interested or excited, not the fact that I am reading it on this
particular weblog. I don't get all fuzzy about the fact that I'm reading
someone's weblog... it's not like we're all revolutionaries and that we are
creating a better world by reading and writing weblogs.
I hope
everything goes well with your research. I would love to hear about your
results... I just hope there will be something in English (or Dutch ;) because
my Spanish is not very good. But I must say that you have a really beautiful
website, even though I can only make some informed guesses about
what you're talking about there :)
Cheers, Frank.
- Não anexamos o original de Daniel Pádua por este
constar em seu original, respondido em português, no capítulo quatro desta
pesquisa.
Anexo
3 – Blogumentary
Os arquivos encontrados dentro deste CD referem-se
a versão original do primeiro trailer do Blogumentary disponibilizado na rede,
bem como a versão 1.1 assim chamada por Chuck Olsen. Os demais arquivos de
vídeo nos foram fornecidas por Chuck e referem-se a partes ainda não editadas
do documentário.