» Comida

Disposta a cozinhar aos montes
como se abundante eu fosse.
Como se na tua mesa, a minha comida não faltasse
como se eu tivesse vidros e vidros de cereja
na despensa indispensável
como se o lombo dourado
estivesse sempre pronto
para ir ao prato.
Disposta a usar somente o avental
já que é regra na cozinha
e lavar os corações de alface na água envinagrada
e pegar os tomatinhos brandos
as couves em filetes milimétricos
e embeber em vinho
tais pequenas doses de vida
e tédio.
Pronta para colocar na fervura
os sassamis de frango e o ventre
(o meu útero é a tua panela)
pegar dois ovos
sem quebrar tais gemas
e bater e bater os restos
depois tirar do forno
com um pouco de dificuldade
já que o parto é demorado
fervoroso
e animal.
E então te servir assim
com tudo a gosto
e de bom grado.
(Sabor meu e teu, misturados
dando um novo toque à mesa
onde o lençol faz as vezes
da toalha xadrez.)
» Tem poesia

Tem poesia perdida
por aí
dentro de um cofre
guardando segredos velhos.
Dentro da gaveta de remédios
tem outra
pronta para tirar tuas dores de anos.
Tem mais de uma vencida
no fundo do baú fechado
bem debaixo da cama do teu colchão
ácaro.
Tem a poesia daquele dia
que ficou no diário
chaveado.
E tem outra no balcão da pia
amarrada ao cano enferrujado que ainda pinga
aos choros.
A poesia que decorei está toda empoeirada
numa sala fechada
de um destes prédios velhos
escondida dentro do ar condicionado central
que não mais funciona.
Tem poesia
mas o que ela tem pra dizer
passou.