June 22, 2009

pálpebras

Quando as pálpebras dobram duplamente
é porque estou velha.
É porque estou anja, calejada, já eterna.
É porque sou passada do tempo
mesmo que o cônjuge me ache linda
ao vento.
Quando o espelho mostra que o meu piscar
faz duas dobras
eu vejo tudo o que sobra
tudo o que fica
e o que me conforta.
Vejo que o tempo não passou:
está passando
bem na minha porta.
Mas não tenho mais fôlego
para trocar de endereço.
Ele me acha, mesmo assim:
tem um pacto com os correios dos anos.
E então eu tento não piscar resoluta
para que as pálpebras não se dobrem
absolutas.
Mas elas o fazem bem no risco
entre a sombra
e a pele virgem:
uma dobra entre a fronteira da maquiagem
e da estiagem
do tempo sobre a minha pele.
Quando há dobras nas pálpebras
o meu eu se dobra
para o tempo
agora.



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