
PARTE 47
Toda a vez que surge um problema, por mais remoto que seja, como quando a sua secretária falta bem nas datas importantes de pagamentos, por exemplo, você não olha para mim. Você se ausenta. E presencia-se nela em pensamento (tenho quase certeza disso). Você me compara à ela: a tolerante, a delicada, a dedicada, a submissa, mas incrivelmente sábia. Sábia porque não batia de frente com as suas grosserias, porque não dava as horas se você não estava de bom humor, se mal abria a boca para beijar a sua. Ela era sábia, porque se você não beijava-a o suficiente, o que ela fazia? Não, ela não sentava diante do computador e usava isso como inspiração; ela buscava outras bocas. Porque existem filas de bocas. Filas de bocas entreabertas esperando alguma boca mal beijada. Existem filas de línguas querendo encontrar outra língua mal usada. Existem centenas de milhares de mãos peludas querendo pegar em uma bunda. E ela fazia isso. Em vez de ficar se lamuriando e pedindo a sua ínfima atenção, ela olhava para trás e um batalhão de outros vinham em sua direção. Ela escolhia. Escolhia muito bem escolhido e fazia bem feito, meu bem. Ah, e como fazia! Ahn? Como eu sei disso? Ora, meu querido. Mulheres contam para mulheres que contam para outras mulheres. E uma babaca sempre conta ao namorado para denegrir a imagem da espécie. E este, meu amigo, conta para mais um amigo que conta para outro amigo que conta para uma amiga: eu.