
PARTE 42
Chega de divagar no que você amava, em como eu queria que fosse, no ideal da vida de um casal feliz para sempre e que não vai ser feliz por mais de meia hora se eu continuar divagando assim.
Se eu matei eu já o fiz, se ele amou-a, e daí? Preciso saber responder isso da forma mais racional que puder.
Tenho que esquecer de tudo isso e tentar nascer de novo. Usar as giletes nos pulsos e nascer outra para poder amar de verdade. Tirar do corpo os resquícios de todas as traições, da cabeça as paranóicas loucuras que são tantas que já nem sei o que partiu do real, o que veio do inventado, o que imaginei com afinco.
Fico olhando agora os quadradinhos dos puxadores do guarda-roupa. E um pouco da luz do sol reflete no alumínio prateado. O sol que entra pelas frestinhas da janela que ele sempre insiste em deixar abertas. Fico olhando fixamente para os puxadores em forma de quadradinhos prateados e brinco de levar com os meus olhos aqueles quadradinhos para outras partes da porta. Sabe quando o sol faz isso com os olhos? Você olha para ele e formas geométricas, talvez imaginárias também, surgem em diversos lugares, até no ar.
É assim que eu devo levar esse amor. Como uma forma quadradinha que se enche de luz e se propagada. É assim. Mas tem alguma coisa errada que toma conta de tudo. Tem alguma coisa errada que me tira da cama e faz com que eu não fixe os olhos nos quadradinhos. Minha avó chamava isso de olho gordo. Minha mãe, de macumba da braba. E uma velha negra senhora indicava arruda, mel e rosas brancas durante o banho e espadas de São Jorge atrás da porta da entrada da casa. Eu vou saber se isso dá certo? Eu vou saber se esta poção mágica vai fazer com que os quadradinhos solares se propaguem? Como vou saber?
Ah....eu tinha prometido ser racional, mas quase não consigo. Não consigo resetar a máquina que é esta minha cabeça pensante demais. Uns pensam que eu sou geniosa, mas não, eu sou louca mesmo. Eu penso, repenso, misturo tudo: alegria com euforia, raiva com medo, insatisfação com tristeza, incompetência com azar. Eu não tenho o mínimo discernimento entre essas coisas. Eu tenho a sensação de que não há mais chances, a não ser nascer de novo.
Preciso de alguém que me assassine.