
PARTE 37
Eu morri nas fotografias. Eu não sou mais a mesma nas imagens roubadas pela câmera fotográfica. Minhas rugas são mais aparentes, minha olheiras estão cada vez mais profundas, minha aura não tem mais cor. Porque eu fiquei doente não sei se foi de amar de verdade ou fingir que amo de verdade. Agora as coisas se confundem. Não sei se acreditei na minha própria mentira ou se eu o amo mesmo. Agora, com este distanciamento entre nós, tudo fica mais confuso e deveria somente ficar mais claro.
Mas sem o seu corpo perto de mim, sem os seus olhares, tudo se perde e eu fico cheia de dúvidas. Talvez eu nunca descubra o que sinto. Talvez tudo tenha se acabado mesmo e eu fiquei aqui, num limbo, no limbo da dúvida, tentando achar uma resposta. E eu não vou encontrar esta resposta. Eu sinto que não. Se alguém não me ajudar, eu não vou encontrar. Vou morrer com um enorme e pesado ponto de interrogação fazendo pesar a minha cabeça. Eu vou morrer assim: na dúvida do quanto te amo, se te amo, se fiz que te amei. Sem contar com o seu peito: o que aconteceu, realmente, dentro dele? Eu não surgi na sua vida apenas para abrir alguma porta? Apenas para você ter certeza que a amava ou para você sentir que a vida continua mesmo que não seja comigo?
Não é a primeira vez que faço isso na vida de um homem. Servi para que vários desses tomassem jeito e passassem para a próxima mulher que teve fihos com eles, que viajou com eles, que aproveitou cada um ao máximo. Porque eu fiz brotar o que tinha de melhor em cada um. Mas não fui capaz de colher nenhuma flor. Nenhuma pétala, sequer. As jardineiras vieram e levaram a flor para o seu jardim. Replantaram, cortando as folhas secas. E eu ficava olhando aquele jardim florido de longe, enquanto a minha terra, ainda úmida de você, ficava vazia sem mais as suas sementes.