
PARTE 27
Meu amor,
Ontem encontrei fotos dela em suas gavetas. Estavam todas empilhadas no fundo, delicadamente envoltas por uma fita de cetim branca que deve ter sobrado de um pacote de um presente que ela deu a você. Vi impressos no papel fotográfico todos os sorrisos dela. Sorrisos que ela deu pra você, pois era você quem segurava a câmera do outro lado. Todas as poses dela na sua visão. E eram tantas que eu mal conseguia segurar com uma só mão. Elas não acabavam mais. Era ela na sua cama, na sua sala, no seu escritório, na China, na índia, na Itália, na Alemanha, no Egito. No Egito! Exatamente onde eu queria ter estado com você. Exatamente no lugar onde nós, virgens do país, pisaríamos juntos pela primeira vez. Mas você já tinha perdido tudo com ela: a virgindade, a virgindade dos lugares dos meus sonhos, a virgindade de sentir o amor pela primeira vez. Foi para ela que você montou e desmontou o primeiro apartamento, em alguma vez que ela olhou pra você e disse: - meu amor, quero morar em uma casa. E você fez toda a mudança, desmontou os móveis, comprou uma casa e levou tudo para lá e colocou ela dentro. Ela tinha vivido tudo o que eu queria que você vivesse pela primeira vez comigo. Não adiantou tê-la assassinado, nem adiantaria colocar fogo naquelas fotos e na fita branca. Não adiantaria colocar fogo na nossa cama. Porque o seu fogo foi dela por centenas de vezes, você gozou nela centenas de vezes, você depositou centenas de milhares de espermatozóides no útero rosáceo dela.
Meu amor, ontem encontrei tudo dela no meu pensamento e cogitei seriamente em acabar com ele com um tiro na cabeça.