
PARTE 25
Tudo o que eu mais queria era conseguir espalhar cada parte dela pelo mundo para você nunca mais vê-la. Eu queria sim, ter cortado a mulherzinha da sua vida aos pedaços, mas eu não sou uma exímia cirurgiã que manuseia ferramentas de amputação e nem um homem com tamanha força capaz de empunhar uma serra elétrica. Como os pulsos dela eram finos e frágeis, eu consegui separar somente o par de mãos daquele corpo que já fodeu com você centenas de vezes. O resto, como a polícia já sabe, eu consegui colocar em um saco de lixo e jogar no rio. Um corpo desprovido de mãos, com a nuca furada pelo candelabro empunhado por mim.
Quando eu soube que encontraram o corpo, eu estremeci. Não pelo medo de ser presa, mas pelo fato de você poder olhar para ela de novo. Ela foi encontrada bela, ainda digna de um velório. Um velório que, como você sabe, eu fui e acabei presenciando uma das cenas mais lindas e terríveis da minha vida: você admirando aquela mulher, passando a mão em cada pedacinho do rosto do cadáver sem mãos e balbuciando cada músculo da face. Você sabia cada nome (pois aprendeu na faculdade de medicina) e parecia conhecer cada reentrância (pois aprendeu na cama, acariciando aquela mulher).
Eu o vi passando a ponta dos dedos nas maçãs do rosto dizendo:
- Elevador do lábio superior, zigomático menor, zigomático maior, bucinador, orbicular...
E, então seguiu pelo queixo anguloso da vítima dos meus medos e disse:
- Depressor labial.
E, depois, bem na minha frente, beijou a boca carnuda e fria.
Com ternura, continuou sussurando termos indecifráveis para o meu conhecimento péssimo em anatomia e memorizou, pela última vez, cada curva daquele rosto que você nunca mais esqueceria e que olhou inúmeras vezes pra você, mexendo delicadamente cada músculo facial, respondendo positivamente à pergunta: "você me ama?". Pergunta que você fazia com os olhos toda a vez que ambos se misturavam em fluídos na cama.
Para você, meu amor, ela foi enterrada viva.