January 14, 2008

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PARTE 9

Ele continuava dormindo docemente na minha cama. Deixava seu cheiro em meus lençóis. Dormia menos do que desejávamos, pois a esposa andava chegando de viagem inesperadamente. Sim, eu agora era uma amante. E com muito orgulho. Assim eu não seria enganada, pois era eu o instrumento da traição. Eu tinha paciência para esperar o dia certo e não me chateava ao ter que adiar o encontro por algum problema com a esposa - a não ser quando banhava meu corpo com o hidratante perferido dele e tinha que desperdiçá-lo com o próximo da minha lista que sempre estava pronto para vir me ver – bastava um telefonema.

A poucos meses, eu mal poderia imaginar que me sentiria bem sendo a tal ”outra”. Mas vi que isso era muito mais seguro. Eu que sempre fui independente, dona do meu próprio nariz, pagando minhas contas e até as contas de alguns amigos necessitados, poderia fazer o que bem entendesse com o meu corpo. Corria o risco de me perder no coração, mas poderia fazer o que bem entendesse das minhas noites. Poderia receber quem eu quisesse na minha casa e não deveria satisfação para nenhuma esposa, namorada ou mulher alheia. Dentro do meu apartamento eu era livre. Dona dos meus beijos, abraços, risadas, frases, DVDs, CDs, lençóis, travesseiros e garrafas de vinho. Dona daquele corpo, nem que fosse por alguma horas. Aquele corpo doce que já deveria ter sido meu bem antes de conhecer a mulher que o esperava, pensando que o dia de trabalho estava, apenas, se estendendo por mais algumas horas ou até madrugada adentro. Corpo que eu poderia ter me entregue a tanto tempo. Corpo que poderia ser dono do meu para todo o sempre. Mas dentro do meu apartamento eu poderia fantasiar, acreditar, me entregar como se eu estivesse em 1999 ainda de cabelos lisos, muito magra, com as roupas que já não uso mais atiradas pelo chão da sala.

Tudo era novo, sim.

Eu tinha mudado a pele, feito cobra. Eu sabia o que poderia fazer. Eu era segura de mim. E nunca pensei que pudesse seguir por este caminho por tanto tempo e com tanta tranquilidade, até que um dia, inesperadamente, encontrei no livro que lia, o seguinte bilhete:

“Vou deixá-la. Pedi a separação. Hoje mesmo vou arrumar minhas coisas e voltar para a casa de meus pais. Isso até que você diga: ‘ quero que você durma em minha cama para sempre.’ ”



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