January 2, 2008

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PARTE 7

Diante do espelho eu vi cada pedaço caindo.
- Pretende fazer um aplique ou vender as mechas? – a cabeleireira perguntou.

Eu não estava com nenhuma vontade de responder à pergunta. Permiti que fizesse o que bem entendesse com aqueles cabelos que andei por aí a vida inteira.

Agora tudo tinha ficado curtinho, bem na base da nuca com alguns fios mais longos na frente. Minhas costas todas de fora. Os omoplatas marcados. A alça do sutiã também. Me sentia livre. Nunca tinha imaginado a sensação. Uma penca de fios mortos fazendo-me sentir presa. Porque permiti isso durante tanto tempo? Litros e litros de shampoo no box, pesando a prateleira, fazendo eu perder tempo. Em vez de estar lavando o cabelo eu poderia estar lendo um dos livros do mundo. Ou poderia estar escrevendo alguma coisa pra relaxar.

Ou poderia estar beijando aquela boca.

Beijar aquela boca me faz pensar na possibilidade. Como seria beijar aquela boca? Seus lábios são finos, sua pele é estranha. Que cheiro tudo teria? Por trás da barba haveria alguma cicatriz? Você me machucaria com aqueles fios duros, podados por tantas vezes? Você me beijaria ao acordar assim como beijei todos que amei sem dar a mínima para o hálito da manhã?

Em vez de lavar os cabelos eu poderia estar beijando aquela boca.
Anotei esta frase.



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