January 6, 2008

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PARTE 2

Eu precisava dar um jeito naquelas coisas. Eu tinha encontrado dois tênis na área de serviço. Estavam empoeirados e ainda sujos de lama de algum campo de futebol. Existia uma caixa no alto do armário e nelas uns papéis que nunca tive coragem de mexer. Mas eu tinha que fazer isso, um dia. Um dia em que eu estivesse mais forte, menos fragilmente serena (a minha serenidade era frágil). Existia também um ventilador. Talvez eu usasse no verão que estava para chegar, mas não seria justo, ele não era mais meu. A televisão maior tinha uma rachadura no canto. Não sei se fui eu a responsável ou ela já chegou assim, mas eu devolveria daquele jeito. Sem remorsos.Também existiam alguns livros (um até que foi o meu presente de aniversário) e uma penca de cartões de banco. O que eu faria com aquilo? Eu deveria continuar guardando. Eu guardaria todos eles. Ele gostaria que eu ficasse com seus cartões e senhas, talvez de lembrança, como se ele fosse apenas um número. Também havia uma gaveta no armário que há muitos meses não era aberta. Estava cheia, tão cheia que ficava difícil deslizá-la. Eram algumas camisetas velhas, alguns moletons desbotados, uma calção de futebol, algumas meias sem par. Sem contar ainda com as dezenas de fotografias, os bilhetes em uma lata e tiras de papel com palavras soltas que eu penei para conseguir montar as frases. Sim, ele era criativo. Um menino criativo que inibia a minha criatividade pelo simples fato de que eu ficava consumida pela tensão, pela paranóia, por um medo infantil de perda. Eu ficava aflita com a possibilidade de uma mentira inconsequente, como se eu não soubesse que as palavras inversas à realidade nunca teriam fim. Nunca pararia de acontecer. Mesmo que passassem mais 10 anos. Mesmo que ele acordasse adulto. Mesmo que um dia ele chegasse lá. Mas eu estaria descrédula. Exatamente como estava no dia em que tomei a decisão, depois de cansar de ter experimentando tantos homens na nossa cama.



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