|
![]() January 23, 2008»
PARTE 14 Desculpa, querido, mas não contarei a você como o fiz. Jamais revelarei esta que você conheceu tão doce, assassina. Mas vou dizer que quando consegui matá-la, eu me senti outra. E não fiquei nada arrependida. Eu apenas fiz isso por amor. Fiz isso para continuar tendo seus bilhetes nos meus livros. Ter você todas as noites na minha cama para o seu cheiro ficar impregnado em meus lençóis. Ver seus pés se esfregando pela manhã, saborear seu hálito, beijar seu peito, fazer de tudo isso uma rotina. Eu só queria estes detalhes para sempre. Eu não poderia aceitar você correndo o risco de ver você voltar atrás. Eu não suportaria tê-la viva pelas ruas, do outro lado do seu celular e em um repente de saudade, na nossa cama. Foi o melhor a fazer. Agora ela está a sete palmos abaixo da terra e nós estamos em cima - eu em cima de você, depois você em cima de mim - aproveitando o fato de estarmos mais vivos do que nunca. postado por claudia ( 8:02 PM) | escreva também (1211)
January 14, 2008»
PARTE 9 Ele continuava dormindo docemente na minha cama. Deixava seu cheiro em meus lençóis. Dormia menos do que desejávamos, pois a esposa andava chegando de viagem inesperadamente. Sim, eu agora era uma amante. E com muito orgulho. Assim eu não seria enganada, pois era eu o instrumento da traição. Eu tinha paciência para esperar o dia certo e não me chateava ao ter que adiar o encontro por algum problema com a esposa - a não ser quando banhava meu corpo com o hidratante perferido dele e tinha que desperdiçá-lo com o próximo da minha lista que sempre estava pronto para vir me ver – bastava um telefonema. A poucos meses, eu mal poderia imaginar que me sentiria bem sendo a tal ”outra”. Mas vi que isso era muito mais seguro. Eu que sempre fui independente, dona do meu próprio nariz, pagando minhas contas e até as contas de alguns amigos necessitados, poderia fazer o que bem entendesse com o meu corpo. Corria o risco de me perder no coração, mas poderia fazer o que bem entendesse das minhas noites. Poderia receber quem eu quisesse na minha casa e não deveria satisfação para nenhuma esposa, namorada ou mulher alheia. Dentro do meu apartamento eu era livre. Dona dos meus beijos, abraços, risadas, frases, DVDs, CDs, lençóis, travesseiros e garrafas de vinho. Dona daquele corpo, nem que fosse por alguma horas. Aquele corpo doce que já deveria ter sido meu bem antes de conhecer a mulher que o esperava, pensando que o dia de trabalho estava, apenas, se estendendo por mais algumas horas ou até madrugada adentro. Corpo que eu poderia ter me entregue a tanto tempo. Corpo que poderia ser dono do meu para todo o sempre. Mas dentro do meu apartamento eu poderia fantasiar, acreditar, me entregar como se eu estivesse em 1999 ainda de cabelos lisos, muito magra, com as roupas que já não uso mais atiradas pelo chão da sala. Tudo era novo, sim. Eu tinha mudado a pele, feito cobra. Eu sabia o que poderia fazer. Eu era segura de mim. E nunca pensei que pudesse seguir por este caminho por tanto tempo e com tanta tranquilidade, até que um dia, inesperadamente, encontrei no livro que lia, o seguinte bilhete: “Vou deixá-la. Pedi a separação. Hoje mesmo vou arrumar minhas coisas e voltar para a casa de meus pais. Isso até que você diga: ‘ quero que você durma em minha cama para sempre.’ ” postado por claudia ( 9:30 PM) | escreva também (0)
January 9, 2008»
PARTE 11 O ano tinha chegado. O esperado ano. O ano da cor vermelha. O ano das paixões, do amor verdadeiro. E você não apareceu. Não mandou um beijo, um abraço, ou qualquer mensagem tôsca daquelas chamadas “padrão”. Eu aceitaria uma mensagem padrão – saberia que você pensou em mim, ao menos, de um jeito padrão. Virei a meia-noite virando uma taça de espumante de um jeito padrão. Vestida de branco, como o padrão de todas as mulheres. Passei a noite sentindo saudade de meus cabelos longos e suas mãos tentando separar as mechas onduladas – aquele jeito padrão que você tinha de me tocar. Fiz meus pedidos de ano novo sem pular as 7 ondas, comer lentilhas e uvas e guardar as sementes. Não amarrei fita do Bonfim com os 3 pedidos padrão, pois quando o fiz, a tal fita levou 3 anos para arrebentar e ainda tive que passar mais 3 anos para o meu desejo de ter você se realizar. E você não lembrou de mim quando os fogos tomaram conta do céu, quando lembrei do fogo do teu corpo sobre o meu. Era mais uma atitude padrão você não aparecer na hora. Só senti que tiraria a minha calcinha vermelha quando vi você empurrar levemente a porta do quarto, todo de branco, tirar a taça da minha mão, secar as lágrimas padrão precipitadas e me beijar mais uma vez. Primeiro beijo do primeiro ano que seria nosso. Pela primeira vez eu não estava repetindo minhas atitudes padrão de me envolver com homens errados. Se você não notou, eu estava dizendo sim ao seu bilhete. postado por claudia ( 9:02 PM) | escreva também (0)
January 6, 2008»
PARTE 2 Eu precisava dar um jeito naquelas coisas. Eu tinha encontrado dois tênis na área de serviço. Estavam empoeirados e ainda sujos de lama de algum campo de futebol. Existia uma caixa no alto do armário e nelas uns papéis que nunca tive coragem de mexer. Mas eu tinha que fazer isso, um dia. Um dia em que eu estivesse mais forte, menos fragilmente serena (a minha serenidade era frágil). Existia também um ventilador. Talvez eu usasse no verão que estava para chegar, mas não seria justo, ele não era mais meu. A televisão maior tinha uma rachadura no canto. Não sei se fui eu a responsável ou ela já chegou assim, mas eu devolveria daquele jeito. Sem remorsos.Também existiam alguns livros (um até que foi o meu presente de aniversário) e uma penca de cartões de banco. O que eu faria com aquilo? Eu deveria continuar guardando. Eu guardaria todos eles. Ele gostaria que eu ficasse com seus cartões e senhas, talvez de lembrança, como se ele fosse apenas um número. Também havia uma gaveta no armário que há muitos meses não era aberta. Estava cheia, tão cheia que ficava difícil deslizá-la. Eram algumas camisetas velhas, alguns moletons desbotados, uma calção de futebol, algumas meias sem par. Sem contar ainda com as dezenas de fotografias, os bilhetes em uma lata e tiras de papel com palavras soltas que eu penei para conseguir montar as frases. Sim, ele era criativo. Um menino criativo que inibia a minha criatividade pelo simples fato de que eu ficava consumida pela tensão, pela paranóia, por um medo infantil de perda. Eu ficava aflita com a possibilidade de uma mentira inconsequente, como se eu não soubesse que as palavras inversas à realidade nunca teriam fim. Nunca pararia de acontecer. Mesmo que passassem mais 10 anos. Mesmo que ele acordasse adulto. Mesmo que um dia ele chegasse lá. Mas eu estaria descrédula. Exatamente como estava no dia em que tomei a decisão, depois de cansar de ter experimentando tantos homens na nossa cama. postado por claudia ( 9:52 AM) | escreva também (0)
January 2, 2008»
PARTE 7 Diante do espelho eu vi cada pedaço caindo. Eu não estava com nenhuma vontade de responder à pergunta. Permiti que fizesse o que bem entendesse com aqueles cabelos que andei por aí a vida inteira. Agora tudo tinha ficado curtinho, bem na base da nuca com alguns fios mais longos na frente. Minhas costas todas de fora. Os omoplatas marcados. A alça do sutiã também. Me sentia livre. Nunca tinha imaginado a sensação. Uma penca de fios mortos fazendo-me sentir presa. Porque permiti isso durante tanto tempo? Litros e litros de shampoo no box, pesando a prateleira, fazendo eu perder tempo. Em vez de estar lavando o cabelo eu poderia estar lendo um dos livros do mundo. Ou poderia estar escrevendo alguma coisa pra relaxar. Ou poderia estar beijando aquela boca. Beijar aquela boca me faz pensar na possibilidade. Como seria beijar aquela boca? Seus lábios são finos, sua pele é estranha. Que cheiro tudo teria? Por trás da barba haveria alguma cicatriz? Você me machucaria com aqueles fios duros, podados por tantas vezes? Você me beijaria ao acordar assim como beijei todos que amei sem dar a mínima para o hálito da manhã? Em vez de lavar os cabelos eu poderia estar beijando aquela boca. postado por claudia ( 8:26 PM) | escreva também (0)
|
|
|||||||||
|
|||||||||||