December 15, 2007

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PARTE 6

Escrever é um modo de exorcisar alguma coisa. Mandar embora a dor, pensar melhor sobre o que parece loucura, mas é só um fato comum, feito a morte. Escrever é expulsar os demônios da realidade sem sair dela. É ler a sua vida, o que passou e deixar que, finalmente, tudo passe. Registrar é admitir que aquilo ficou para trás. É um diário sem cadeado, cheio de segredos em aberto. É não ter medo de contar o que houve e tudo o que você sentiu.

Eu senti muita coisa nestes últimos tempos e nada foi registrado em prosa. Tudo era registrado em versos que eram apenas cúmplices, mas nunca claros. Sempre nebulosas, as frases soltas, não centravam o pensamento. Nunca deixavam realmente claro cada acontecimento. Nunca tinha escrito sobre as traições que sempre neguei. Eu fiz sexo oral, eu gozei, eu passei horas fazendo de tudo na cama de quem eu conheci ontem. Eu usei as nossas camisinhas. Eu tirei as fotografias nossas da parede. Eu menti descaradamente. Eu reuni as amigas para contar. Eu relatei cada detalhe. E ri feito bruxa, em uma gargalhada alta, sem o mínimo remorso.

Só que aquela não era eu.

Aquela não era ninguém.

Aquele era apenas um corpo reprimido seguido de um pescoço segurando uma cabeça exausta de ser sempre eu. Ser aquela cheia de métrica, horários, filosofias tão vãs, princípios decorados na sala de estar da minha mãe:
“-Repeat after me:
Moça que dorme com rapazes é PUTA.”
Assim eu cresci, com este “repeat after me”. Cresci pensando que sexo só poderia ser com amor. Que drogas matam. Que mulher tem que ter cabelo comprido. Foda-se o cabelo comprido. Foda-se.



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