
PARTE 4
Dia desses eu li um livro muito ruim. História mal escrita, sem acontecimentos, mas eu precisava chegar até o fim. E fui. Firme, me segurando para chegar à última página. Ao menos, aquela história serviu para dizer que tudo poderia ser diferente. Que se a personagem x tivesse decidido y, se não tivesse sido tão exigente, a sua história seria outra. Não gostei nada de pensar nisso, pois eu não queria agora, a esta altura da vida, me arrepender das minhas escolhas. O engraçado é que foi inevitável e, quando eu pensava “e se…”, “e se…”, tinha a sensação de que eu poderia voltar atrás. Mesmo com o tempo que passou louco pela minha pele, eu poderia voltar àquele lugar, poderia rever aquela pessoa, poderia retomar aquela história. Mas eu, realmente, não queria. Estava me jogando para frente. Queria ir em frente. Acreditar no novo, no futuro, sem resquício nenhum do passado. Eu queria fazer o que nunca tinha feito: mudar de profissão, de cabelo, de tipo de roupa, de filosofias, de corpo. Usar tênis todo o dia, abolir o salto. Comer bananas no café da manhã. Gostar de dormir sozinha outra vez. Ler um livro cedo da noite. Colocar a TV no mudo e pensar no silêncio. Ficar mais de uma semana sem beber. Apagar todas as mensagens dele do celular. Me sentir centrada.
Eu estava pronta para ser outra. Totalmente outra.
Uma que nem eu conhecia.