SEGUNDA PARTE
Lamento dizer, mas você não é único. Você é a mistura de tantos. Ora você é um, ora você é outro. Mas eu sou única. Mesmo que você diga que sou parecida com outra mulher qualquer, eu sou única. Talvez você tenha me achado parecida com algum enredo sequencial interminável. Porque eu canso. Talvez você tenha visto o meu senso de humor em outra. Você viu a minha independência nesta outra. Você viu os meus problemas malucos em outra. Você viu a espera. A espera minha.
Enquanto eu pensava nestas coisas, lembrei das suas mãos. Mãos que eu nunca quis que me tocassem. As suas mãos não são as mãos que imaginei no meu corpo – eu já havia dito isso. O seu cheiro é bom, mas não em todas as partes do corpo. Então eu lembro do outro corpo, onde eu percorria por inteiro aceitando tudo. Aceitei as mais bizarras imperfeições e não consigo explicar isso. E foi o dono deste corpo que eu perdoei (mesmo que superficialmente) pela primeira vez na minha vida. Não sou dona daquele corpo, e nunca serei. Porque a índole da cabeça que domina aquele corpo pensa em tantas outras coisas que meu pensamento nunca quis pensar em pensar que haveria esse tipo de coisa na cabeça de quem - passasse pela minha cabeça - pudesse ser o homem com quem eu dividiria a minha vida.
As coisas mudam, eu sei, mas nem tudo. Você vai continuar sendo arrogante, tendo seus pensamentos narcisitas, materialistas, cometendo tantos erros imbecis em prol de uma insegurança idiota. Confuso? Sim, eu sei. Mais confuso ainda é que ninguém imagina que eu quis estar lá naquela casa, naquela noite, mesmo que dividindo o espaço com tantas outras pessoas. Ninguém imagina que nunca pensei em estar lá em outra noite, beijando em público uma boca que eu mal poderia pensar que eu iria conhecer. E ninguém imagina – nem mesmo você - tudo isso e mais um pouco.
Você não iria acreditar que eu sou a mesma. Você nem me conhece, mas sabe tudo sobre mim. Porque eu não sou uma pessoa que gosta de jogar, mesmo que pareça, às vezes, que estou jogando. Eu queria não atender o telefone uma ou outra vez (um dia eu consigo). Eu não consigo fingir e dizer que amo, se já não sei mais o que ficou. Eu não queria confundir a todos escrevendo isso. Mas é necessário. Era preciso.
Lamento dizer, eu sou única. E, por isso, fica difícil servir a todas as suas caras de uma só vez. Então eu serei só minha.
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E foi assim que terminei a carta para quem eu nem sabia a quem enviar. Ele existia? Alguém poderia existir com aqueles olhos malévolos? Com aquela exigência de perfeições? Com aquela crença em qualquer coisa que o fizesse bem? Com aquela síndrome narcisista de quem pensa que pode ser apaixonante para qualquer mulher?
Escrevi a última palavra com a caneta azul, dobrei em duas partes e depois em mais duas e guardei na gaveta usada que, talvez, estivesse guardando coisas velhas de um tempo passado (que, finalmente, passou).