August 17, 2007

PRIMEIRA PARTE



Eu sabia que ele não gostava de perfeições. Nem de corpo magro, seios milimétricos ou peso ideal. Gostava ssim, de boca carnuda (coisa que eu não tinha). Ele também não gostava que eu escrevesse ou melhor: dava a mínima para um dos meus maiores prazeres. Não dava a mínima para o que eu mais queria fazer na vida. Eu queria viver disso. Viver de palavras e de amor. Eu queria que as vírgulas fossem lidas, eu pensava que tinha muita história para contar, mas não, eu não sabia nada da vida. Eu vivi coisa alguma, eu morei a vida inteira em um mundo menor que o meu quarto. E ele não deveria desconfiar. Talvez, pela minha idade, poderia pensar que de tudo sabia. E eu só sabia que queria viver de amor e de palavras e materializar estas duas coisas com livros e filhos. Simples assim.

Descobri tudo isso ao crème brullé – um dia eu comeria este doce de olhos fechados, fazendo malabarimos com a minha colher e olhando para ele. Olhando sem ver nada em seus olhos (a cor deles deixa tudo nebuloso, quase inexpressivo). Eu entraria em um lugar que nunca fui sem sentir que era a primeira vez. Meu pensamento já teria passado por ali de uma outra forma. E igual a algumas primeiras vezes em lugares onde há mesas e cadeiras uma a frente a outra, para que as pessoas se olhem nos olhos, lugares em que estive com ele, ele comentaria sobre livros, sobre a vida e eu diria que ele deveria parar de falar das pessoas. Que eu não queria saber da vida das pessoas, as quais poderiam tê-lo machucado através de palavras, pela simples falta de amor. Palavras e amor – eis as duas coisas juntas que eu mais queria, aparecendo nas linhas outra vez.

Antes de mais nada, beberíamos um vinho e saborearíamos uma massa com um prazer que jamais teria sentido antes. Talvez, por achar que antes, nada tivesse sentido. Ou que eu nunca tivesse sentido tamanha estranheza em mim. Uma mistura de aceitar e não aceitar o que poderia vir a acontecer. Eu poderia ter um filho com ele, eu poderia me inspirar com ele. Eu poderia realizar as minhas coisas simples com ele.

Um dia alguém disse que eu teria estas duas coisas e que seria com ele. Tal alguém afirmou como se fosse Deus. Como se fosse o autor do meu futuro. E nada conseguia tirar isso da minha cabeça. Eu não conseguia aceitar, mas me entreguei aos céus e deixei que eles o fizessem. E começou a acontecer no momento em que quebramos o créme brullé. No momento em que ele contou a sua vida como se quisesse mostrar a mim quem ele, realmente, era. Um aventureiro por acaso, alguém com perdas. Alguém com sentimentos controversos, sem provas, com percalços, com algumas razões e com uma ou outra vez, a falta dela. Uma pessoa pronta para ser. Querendo encontrar. Fingindo não sentir.

E então eu descobri que ele gosta sim, de perfeições. Gosta das perfeições que ainda não havia encontrado em outras palavras saídas de outras bocas, talvez, bem mais carnudas do que a minha. E que poderia me amar, mas de um jeito que nunca desejei. Que poderia querer mantendo a calma, sem falar nenhuma palavra explícita. E eu senti que poderia, mas não naquelas mãos, não com aquela voz, não naquela ternura escondida. Não com a adolescência ainda não resolvida. Não com a convicção que derrubava as minhas. Nem com a gentileza secreta travestida pela idade incorreta.



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