O coração não tem cérebro. Ele apenas resolve bater mais forte diante de algo sem explicação. Porque não tem como explicar, afinal, ele não pensa. Você é que pensa tudo ao contrário: acha o feio, bonito; o improvável, uma probabilidade, o engraçado, encantador. Aí não tem jeito e nem escolha: o coração abduz a cabeça, faz ela acreditar que é e sempre será. Depois ele reclama trazendo dias e noites de dores catastróficas, causando um infarto ilusório. Lá vem ele apertar o peito, induzir os olhos às lágrimas, o sono ao pesadelo.
O coração é malvado, cruel. É por isso que ele matou meu pai: o homem que mais amou na vida. Ele amava músicas, palavras, mulheres, as filhas, o pai, os irmãos. Ele também amava rodinha de violão. Não sabia cantar, mas tentava. Tudo só porque o coração mandava.
É. O coração. O órgão que em vez de bater, deveria poder levar uma surra para não fazer isso com a gente.