
Acordo todas as manhãs com a cama, praticamente, arrumada. Não existe ninguém para rejeitar os lençóis.
Agora eu lavo as embalagens de iogurte para colocar no lixo reciclado. (eu aprendi e, afinal, quero que meus filhos tenham um mundo tão bom quanto o nosso ). E saboreio todos eles antes de vencer a validade.Vou ao supermercado e esqueço de olhar os preços. Compro menos leite.
Olho para as portas e não há, em nenhuma delas, toalhas secando pós-banho. Deixo quase todas as luzes de casa, apagadas. Ouço o ranger do armário que só eu abro e já não remeto o barulho a sua presença. Todas as roupas que sobraram estão dobradas dentro de uma única gaveta. As fotografias ainda estão lá - embora eu tivesse programado tirá-las para não olhar para nós todos os dias.
Nunca mais a TV parou em um canal de futebol e o radinho de pilha está
mudo, no fundo de uma gaveta que foi sua. Os vinhos estão guardados. As vodkas que ficaram, também.
O caracol não está mais lá. Deve ter encontrado o seu caminho. No meu celular chegam mensagens, mas nunca são seus bom-dia. E-mail chega um por dia, contando algumas coisas e, em cada palavra, há um pouco de sofrimento. Tento não escrever ou responder, mas não consigo pois, como você mesmo diz: " você fuma suas tristezas".
Não há mais valsas ou sambinhas em lugares inapropriados (os olhos do elevador não sorriem mais). Quase não falo. E os gatos acham o silêncio estranho (apenas penso).
Não, eu não sinto frio - coloquei um cobertor a mais na cama e ligo o
ar-condicionado durante uma meia hora para esquentar o quarto. Assisto a filmes no DVD e não pego no sono - o que eu gostava mesmo era de ter
você me velando ao lado. Não tenho vontade, nem paciência, nem
inspiração para textos (há muito não tenho) ou para a cozinha.
Descongelo congelados, peço tele-entrega que eu possa comer na cama, até porque é triste ficar sozinha sobre uma toalha limpa, com pratos brancos e talheres bonitos à mesa. Também não sinto falta dos amigos. Quero a solidão, para que você, aí do outro lado, não sinta-se sozinho
com ela (quando você tiver um milhão de amigos eu estarei chorando, pois fiz-me esquecer).
Todos os bilhetes estão guardados - e não quero lembrar onde - mas tem
um no box do banheiro que continua lá, feito um souvenir. Na estante tem mais espaço para os meus perfumes e só há um sabonete para ser
usado. Os shampoos...Não mudou a quantidade deles, mas é porque eu sempre gostei de variar. Esta noite sonhei que meus cabelos estavam curtos, muito curtos e que eu, às vezes gostava e outras vezes, lembrava de você que poderia lamentar (mas nem tenho mais as suas mãos para acariciar e nem seus olhos para olhar).
Amanhã posso acordar melhor. Acordar para outra coisa. Ou reacordar para você. Mas se isso acontecer, amanhã eu escreverei outra carta. Talvez.
Porto Alegre, ontem, 2007.
Quem escreveu
nhaaaaaaaaaa
postado por: calu | June 21, 2007 8:05 AM
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postado por: calu | June 22, 2007 2:16 PM