algumas pessoas me desaconselham a falar "eu odeio". expressão forte demais pra isso - dizem eles - e com toda a razão. eu apenas desgosto da maioria das coisas pelas quais eu cito o ódio. acho que não sinto ódio. acho que nem sei o que é isso e (assim como algumas drogas) espero nem conhecer. aí penso naquela velha frase dizendo que o ódio e o amor estão próximos. se isso é verdade, será que nunca amei? aí penso que talvez eu tenha odiado o meu pai porque agora, com ele a sete palmos abaixo da terra eu tenho muita certeza de que o amo. o amo. e não o "amei". o verbo é no presente sim. porque, mesmo com o corpo a sete palmos abaixo da terra, ele vive em mim, respira através de mim e até me faz beber copos de cerveja. minha mãe? eu amo a minha mãe. já posso tê-la odiado todas as vezes em que ela não deixou que eu fosse em reuniões-dançantes. todas as vezes em que ela não me deixou comer doce antes do jantar. todas a vezes em que ela não emprestou os sapatos lindos que ela tem. mas isso tudo foi quando eu ainda tinha vergonha de dizer que amava, porque eu achava piegas, cafona, estranho. aquela frase não cabia na minha boca porque me soava mentirosa. eu passei muito tempo sendo uma menina aprendendo as coisas básicas do mundo. eu não sabia o que era sentir falta, valorizar as sensações de estar sempre protegida, de admirar. tudo isso junto resultava em amor. e eu não sabia. hoje eu sinto ódio por ter perdido tanto tempo sem ter, realmente, a certeza do que isso significava. e que todos esses ingredientes resultam em um bolo tão delicioso que chega a doer de tão bom. se eu odeio, eu odeio isso. odeio o tempo perdido. coisa que eu tendo a fazer com frequência.
tempo = a única coisa que não se recupera.
e segundo a astrologia, o ano começa hoje. feliz ano novo. com amor. sem perder tempo.