pseudo-carta a ninguém
Não tenho mais a dizer. Cansei das falhas minhas e das falhas suas. Cansei das inverdades sutis. E das certezas invisíveis. Cansei dos cansaços. Cansei até dos abraços. Já não sinto mais o ânimo, a saudade, a espera. A hora marcada virou perda do meu precioso tempo. Tudo o que vejo são palavras soltas a alguéns, expectativas que inexistem, dívidas, dúvidas e momentos em maus lençóis. Meu cabelo está cheio de nós. Nós na cabeça pensante. Do que me resta está somente eu frígida entre as pernas e uma solidão imutável e sem gosto de um vinho insosso que acompanha uma comida fria. De sobremesa, simples sorrisos da mais fingida alegria.
Da janela não vejo mais a sua casa. Já não sinto os ventos do velho Guaíba. Entre sonhos umedecidos e malucos meu coração fica a espreita, doente por sentir outra vez. Ah, como eu queria olhar em seus olhos e me ver! Ah, como eu queria ser surda e distraída para as dores íntimas, só minhas, só minhas, não suas.
Sim. Hoje o dia escureceu aflito e minhas obras perderam o valor, perderam a certeza do que eram quando as fiz. Cada palavra minha escrita não é lida por você. Cada pedaço de música que cantei não entra em seus ouvidos. Cada mão minha carinhosa em seu corpo perdeu o hábito. Cada elogio constante já não tem mais o mesmo sentido.
E então eu deito sobre meus pedaços e derreto como gelo ao sol acreditando que serei chuva para alguém que está seco.