ela: a explicação
Nem tudo tem que ter explicação. Acho que nunca ninguém me ensinou isso.
Na escola, era o contrário. Em casa, também. Tudo tinha um porquê e se não tinha, alguém deveria achar uma resposta.
Assim cresci sabendo que haveria uma explicação pra tudo. Cresci sem medo de saber a verdade e entender que depois que se aprende a ler, não tem mais volta.
Lembro como se fosse ontem. Eu estava no banco de trás de um Del Rey que meu pai tinha e passamos diante de uma farmácia e estava ali a palavra “FARMÁCIA”. Calmamente, perguntei para minha mãe como eu fazia para não saber o que estava escrito. E não tinha mais volta. Mas tinha uma explicação. O meu cérebro tinha aprendido a saber o que significava cada letra e, imediatamente, dava-me a resposta. Nem precisei perguntar o porquê daquilo, eu apenas entendi. Fiquei triste, mas entendi. Foi o primeiro caminho sem volta com que me deparei.
Mais ou menos na mesma época, minha mãe descobriu porque, um dia, eu, ao atravessar uma rua e ouvir o grito: “olha o carro!”, simplesmente parei e fechei os olhos. Mesmo com o barulho do freio muito perto de meus ouvidos, tive a certeza de que estaria salva. Isso porque eu pensava que ao fechar os olhos eu desaparecia, como se fosse mágica. Mas porque você pensou isso? – perguntou minha mãe. Ora, eu só respondi que era simples, que como eu não enxergava nada quando fechava os olhos e ficava sem saber onde estava, nada me enxergava e não me encontraria. Estaria salva de qualquer atropelamento.
Mais tarde ouvi a mais dura realidade sobre a morte: morreu, acabou – dizia minha falecida avó. Crise total dentro de mim. Mas por quê? Ora, porque somos como as flores, os animais, porque somos frágeis, porque não somos finitos. Mas por quê??? Definitivamente, eu não podia aceitar isso. Não podia, apenas, entender que, de uma hora para outra, tudo poderia acabar, que tudo viraria escuridão, silêncio, ausência de ar. Aí entendi o porquê das religiões e da história da reencarnação, das outras vidas e das almas. Afinal, tudo tinha que ter um porquê. Tudo tinha que acabar em uma resposta, fosse ela a mais absurda ou sem porquês tão palpáveis, eu tinha certeza.
Por isso, até hoje, quando ouço ou penso que nem tudo tem explicação, eu não acredito. Você pode não ter pensando nela, mas ela existe. Você pode não querer falar sobre ela, mas ela existe. Você pode não querer dá-la a ninguém, exatamente porque ela existe e pode ser dolorida ou imbecil. Mas ela existe. Agora, diga-me: por quê? Seria tão mais fácil viver sem a maldita. E eu nem preciso dizer porquê.
Quem escreveu
"morreu, acabou - dizia minha falecida vó"
Ironia por todas as partes.
postado por: Menezes | October 13, 2005 6:51 PM
Tento explicar
Invento as mais pálidas histórias
Desdobro os sonhos
Pra que sejam lógica
Fantasio os dias
Pra que pareçam fatos
Rasgo velhas fotos
Nunca tiradas
Pra que elas não me lembrem
Que nunca soube
Que nunca pude
Alguém me explique
Ou sejam todos silêncio
E quem sabe o olhar diga
O bastante
postado por: everton | October 14, 2005 2:45 PM
Foi vOcê quem escreveu isso "EVERTON"?
postado por: stefânia | July 19, 2007 4:52 PM