September 13, 2005

manhã

Hoje acordei dona de sonhos alheios.
Levantei da cama
estranha com algo que não houve
que não veio.
Tive pesadelos que não lembro
e um silêncio esquisito calou o meu
bom-dia.
No banho nada mudou:
a água estava quente
e o meu corpo continuou frio.
Vesti qualquer roupa
mal escovei os cabelos
e guardei na boca
por um tempo
a saliva noturna
não usada.
Pensei em tomar café da manhã
mas faltava tempo
café
leite
açúcar
margarina
e o dia parecia pão
amanhecido.
Me olhei no espelho embaçado
e não me reconheci
ontem eu estava tão outra
(o que fez uma noite tão estranha comigo?)
Por um momento perdi os sentidos
e ainda não os recuperei
e mal olhei para os olhos do homem
que estou a amar.
Manhã insana
sem anteriores satisfações.
Que o meio-dia transforme o que resta
em um dia e meio de vez.



Quem escreveu

Hoje acordei meio
Esquivo do espelho
E não reconheci nos olhos
A água da torneira
E o dia correu lá fora
E brincou ao vento

E não fez sentido

Eu fiquei ali comigo
Agarrado à metade que resta
Quanta pressa me falta
Quanto apreço pela vida
Não tenho
E me refiz no dia

Começando

As mãos correndo a testa
Segurando os cabelos
Um suspiro inteiro
No peito partido

Um fio de água e voz
Nos ouvidos

E o silêncio frente a porta do armário
Procurando roupas
E um sentimento que aqueça

triste dia
frio nos pés
doei minha vontade para o primeiro ônibus que passou
chutei a alegria no primeiro cachorro que
acoou
espero que a noite seja diferente
como todos os dias
eu sempre gosto delas
pois me dão alegrias

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