September 22, 2005

1/2 dia


Bebeu mais um gole de cerveja quente. Respirou fundo. Piscou vagarosamente e sentiu os cílios pesados do rímel do dia anterior. Enquanto olhava-o dobrar as camisetas surradas, ela pensava na dúvida insana. Falar ou não falar? Relatar o ocorrido?
Ele olhou-a nos olhos e viu algo estranho. Sentiu que não era ela e conseguiu prever que o mundo desmoronaria.

Ela bebeu mais um gole de cerveja já sem espuma. E ficou olhando para o copo suado e lembrou do seu corpo suado daquele meio-dia.

Ela tinha feito sexo. Puro. Animal. Havia traído todos os seus princípios. Não havia almoçado para ser comida por outro. Sim, ela tinha acabado com todos os seus discursos, tudo ficara, incrivelmente, falso. Enquanto pensava em falar a verdade, sentia-se excitada lembrando das pernas abertas, do salto alto roçando as costas do outro, do suor escorrendo pelo sutiã, dos gemidos, do desejo diante do perigo.

Bebeu mais um gole de cerveja quente. Respirou fundo. Piscou vagarosamente e sentiu os cílios pesados ainda do acúmulo do dia de hoje e do anterior. Ele já havia dobrado as camisetas velhas, em silêncio. Agora começava a recolher as roupas dela: todas as calcinhas, as blusas cavadas, as saias rodadas. Ele não olhou-a mais nos olhos para não sentir outro algo estranho. Para que o mundo não desmoronasse.

Ela ficou em silêncio, vendo aquelas mãos que ela ama tanto. Sentiu-se excitada outra vez ao lembrar delas tocando o seu eu entre as pernas. Com a boca entreaberta ainda da dúvida, ela fez alguma pergunta banal, encheu o copo de cerveja com água do tanque e largou ao lado do amaciante de roupas. Saiu sem olhar para trás e sentiu as mãos dele abraçando-a pelas costas. Assim como ela tinha feito: traído seu amor pelas costas. Mas ela não pensou nisso. E se pensou, conseguiu afastar o pensamento maldito.

Foi tirando a roupa pelo caminho. Deitou sobre os lençóis e esperou que ele deitasse ao lado. Ele o fez. Ela beijou seus lábios como sempre e sentiu o nó da cabeça descer para a garganta. Ele chorou poucas lágrimas e olhou-a com gana. E ela viu que ele sabia de tudo. Mesmo assim, ele começou a acariciar mecha por mecha dos cabelos sujos dela daquele dia. E continuou olhando-a no escuro, até poder dizer que a amava. Que não importava aquele dia. Que esqueceria. Que nada havia acontecido.

Como se aquelas palavras fossem uma canção de ninar, ela dormiu. E acordou em um outro e comum meio-dia. Como sempre, cheio de traições.



Quem escreveu

adoro seus escritos,venho aq todos os dias prá me sentir bem.
obrigada claudinha
beijos

Obrigada, Regina.
Venha sempre, inclusive aos meio-dias.
Grande beijo.

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