September 23, 2005

1/2 dia - parte II

- Onde você esteve ontem?
- Em casa.
- Eu liguei pra lá e quem atendeu foi a secretárria eletrônica.
- Eu ouvi. Estava no banho.
Depois da resposta final ele baixou os olhos e foi até a cozinha. Pegou uma leiteira, despejou o resto do leite da caixinha, misturou uma colher de achocolatado e tomou tudo num gole só. Ela foi atrás e ficou olhando-o fixamente com seus braços cruzados. Sempre cruzados.
- Você tem certeza?
- Do quê?
- Que você estava no banho.
Ele limpou com o punho da camisa as gotas do leite achocolatado que ficaram escorridos pela boca e passou por ela num ímpeto como um vento repentino num dia de sol. Entrou no quarto há procura de um sapato mais confortável. Calçou. Desabotoou a camisa, vestiu a primeira camiseta da pilha que ele dobrara ontem e saiu porta afora sem mencionar uma única palavra. O ódio dela virou tristeza. E o vizinho da sacada lateral viu o seu corpo escorrendo pela parede da cozinha até chegar ao chão, ao lado do lixo. Ela sentia-se um lixo e, simplesmente, queria que ele sentisse o mesmo. Ele também é um lixo, ele também é um lixo – ela repetia em silêncio.

Ainda sentada no chão do cozinha, ouviu o telefone tocar. Deixou que a secretária eletrônica fizesse o seu trabalho. Ninguém deixou recado. Nenhuma palavra de saudade. Nenhum xingamento. Nenhuma respiração silenciosa. Nada.

Quando percebeu, estava em posição fetal. E, ao lado dela, estava ele com a camisa, o sapato desconfortável, segurando com uma das mãos uma leiteira com um resto de leite misturado a um achocolatado qualquer. Ele ofereceu um gole, ela bebeu. Ele limpou o resto do achocolatado dos lábios dela com o punho da própria camisa.

Em silêncio, foram até o quarto e sobre o edredon ficaram abraçados. Dormiram. E sonharam com alguma discussão imbecil sobre o que não havia acontecido.



Quem escreveu

nossa senhora de aparecida
isso tem cara de fruto de paranóia

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