
Querido,
Hoje estou completamente apavorada com tudo. Com as coisas boas, as ruins e as coincidências bizarras. Anteontem vi você três vezes na rua: mesmo cabelo, mesmo jeito de andar e até o seu cheiro eu pude sentir. Em uma das vezes saí correndo feito uma louca pensando que você poderia ter feito a agradável surpresa: chegar sem avisar. Abordei o outro você que me olhou nos olhos com o mesmo olhar que você tem e eu só vi que não era você quando ouvi a voz não sua.
Ontem eu tive insônia e, no exato momento em que abri meus olhos, vi uma mensagem sua chegar atrasada no celular e, quando a li, eu previ palavra por palavra, como se eu mesma tivesse escrito cada linha.
Hoje eu fui sair do hotel pensando em comprar alguma coisa para enviar a você e, simplesmente, não encontrei a chave da porta: tive que chamar a portaria que não encontrava a cópia – a única cópia desaparecida era a minha. Fiquei trancada por duas horas: o exato tempo em que se podia comprar alguma coisa por perto antes que as lojas fechassem e o correio também.
Não sei o que está acontecendo, parece um pesadelo em que não me sinto mal ou um sonho sem sentido algum. Um caminho que mudou de direção. Um destino alterado por alguma força alheia. Você sabe, querido, que eu não acredito nestas coisas. Mas tais coisas estão mexendo com algo em mim. Sinto-me sangrando sem dor, perdida por ruas que conheço desde criança, tentando entender o que eu mesma escrevi um dia.
Ainda não desfiz minhas malas e não consigo aceitar o fato de ficar um bom tempo sem meus quadros, minha cama, minhas cortinas, minhas luminárias e lençóis pintados por nós. Sinto falta do meu lugar, aquele que eu tinha ao seu lado.
Venha logo para que eu não parta. Não parta o meu coração de vez (mais uma coincidência que vem se repetindo pela minha vida inteira).