
Porto Alegre, dia de hoje, este ano.
Preciso confessar que não acredito, realmente, em você. Não totalmente. Desconfio do seu jeito fácil e corajoso de ser o que é. Penso que você vai bater (ou já pode ter batido por esses lados em que você está) na porta de outra e me fazer bater a minha porta na sua cara. Sendo assim, sinto-me menina. Menina que acabou de descobrir coisas que já descobri há tempos: que nada é perfeito, que nem todos são corretos e que até eu tenho coragem de cometer faltas, loucuras e fugas. E, por isso, fico chorando por qualquer coisinha e sorrindo, ao mesmo tempo, em que lembro de momentos nossos. Momentos tão simples (o oposto de meus descréditos em você) que ainda rondam meu sono, meu despertar, minhas horas vazias.
Hoje chove lá fora, está frio e ainda preciso colocar no lixo todos os bilhetes que você deixou. Eles já estão mortos e sinto-me viva – não quero que nada me faça morrer outra vez. Sim, talvez o nosso amor morra (eu tento matá-lo a cada dia que acordo quando sinto meu coração me entorpecer de taquicardias infantis).
Ontem fui convidada para uma festa: não fui. Não senti vontade e isso me assustou. Durante o dia recebi mensagens no celular e não eram suas. As mensagens lotaram minha caixa de entrada e eu me senti sem saída. Tentei deletá-las todas e não me contive em guardar algumas poucas. E muitas daquelas suas antigas e tão doces que insistem em ficar gravadas, inclusive, em meu pensamento.
Não tenho a mínima idéia de quando você vai voltar. Parece que muito tempo se passou e fiquei todo este tempo esperando. Não quero ter a mínima idéia de como vai ser quando você me reencontrar com minhas rugas a mais, meu cabelo mais comprido, minha pele mais vivida. Não tenho idéia se você vai voltar o mesmo. Se você vai olhar pra mim e me abraçar com gana como todas as outras vezes. Talvez até você volte com outro alguém fazendo-me arrepender de ter dito tantos nãos a outros tantos. De ter ficado tanto tempo sem olhar para o lado, sem perceber os olhares, os desejos alheios.
Já estou perdida no tempo do tempo. Completamente saudosa daquela outra que fui: segura, íntegra, única. Eu tinha feito a promessa de que não mais amaria um improvável futuro e não a cumpri. Agora estou aqui, escrevendo para quem devo arrancar de dentro de mim com todas as suas raízes. Mas logo vou embarcar para longe, longe de nós. E rezo que você não volte antes.
Não sei mais o que escrever e como mais posso descrever tanta dor incerta.
E peço desculpas pela pouca clareza que me resta.