dos arquivos: o poema infinito
Encontrei este poema nos meus arquivos de 2000. É uma retrospectiva da vida que não respeita uma cronologia perfeita. Percebi que fui escrevendo impulsivamente (mesmo que de uma só vez) à medida que lembrava dos fatos. Ele se chama “Poema Infinito” porque posso continuá-lo até o fim da vida. Até que nesse dia se tornará finito, de fato. E agora que o redescobri, pretendo fazê-lo. No fim pode dar uma biografia fácil de ler: longa história-que-não-cansa.
Duas décadas e sete anos.
Uns treze quadros
(se me engano).
Uma doença rara
um trauma no dentista
um pulso quebrado
dois gatos
duas gatas
um gato aos quatorze
uma decepção aos quinze.
Dois livros que não são livros
um diploma que nunca vi
um texto premiado.
Um cabelo com franja
um vestido bordado.
Mais de cinco mil noites
mal-dormidas.
Bonecas, carrinhos
um video-game
um autorama
uma piscina de plástico
uma Priscila amiga.
Mesada
matinés aos domingos
com bala Sete Belo na boca
chiclé no cabelo
e piscadelas
e flertes
e fofoquinhas
e pai bebendo
e irmã já moça
e amigas burras.
Todas as provas com notas boas
três professoras inesquecíveis
um namorado lindinho
nenhum beijo-marco.
Um vestido preto com laço dourado
um choro abafado no quarto
outro choro abafado
outro choro alto
outro choro escancarado.
Tarquicardia por muita Coca-Cola
cursinho levado a sério
uns três amores platônicos
uma viagem ao Paraguay
presa no elevador.
Risólis no recreio
festa de São João pra namorico.
Cento e setenta jogos da verdade
alguns do copo
aperta o dedo e leva até a letra.
Nenhum carro só meu.
Conquistas: umas cinco só minhas
ou umas duas
(acho que só uma).
Milhares de textos para os outros
umas cinquenta cartas não-enviadas
umas quatro amigas ao todo
um único amigo
(apaixonado, porém).
Um avô,
uma avó.
Muito blusão de tricô
meias de tricô
butiá, bergamota
brilho labial Avon
chocolate Nestlé
rapinha de leite condensado.
Uma bola,
um patins de plástico,
um patins de ferro
um patins de botinha.
Três empregos sérios,
dois de brincadeira.
Centenas de desenhos nas últimas folhas dos cadernos.
Média de dez agendas-diário.
Namorados mais novos
ou mais necessitados de mim.
Inúmeras angústias
milhões de apertos
mais de centenas de milhões de gargalhadas.
Sem idéia de quantas canetas gastas,
muita idéia sem saber onde pôr.
Silêncios escritos – uns duzentos
silêncios calados – uns mil e duzentos
silêncios esquecidos – não lembro quantos.
Dois computadores
duas TVs
um som com CD
um vídeo
uma cama.
Centenas de peças de roupa
bagulhos, velas, enfeites inúteis
lembranças úteis.
Todos os livros de Mario Quintana
nenhum de milhares de outros escritores.
Reflexo no cabelo,
mechas, luzes,
quatro vezes mais curto
há anos sem franja
unha comprida
azul, preta, vermelha, marrom, brilhante.
Olho brilhante
uma boca opaca.
Magra demais muitas vezes
gorda demais uma vez
louca no resto.
Sou eu assim
por enquanto.
Enquanto não lembro mais de tudo
desse jeito e sempre assim.
(segue infinitamente algum dia.)