May 16, 2005

a poesia

O bom de escrever poesia é que o tema não requer explicações. Afinal, uma poesia pode ser inspirada em uma palavra que se ouve, em uma palavra que se lê, em uma frase que se ouve, em uma frase que se lê, em um espasmo tipo "baixou um santo em Chico Xavier" ou em uma lembrança tardia, em um sentimento tardio - sim, às vezes a gente sente o que escreve, claro, mas não é necessário contar.
Você pode dar mil desculpas ou até pedi-las sem que 99% das pessoas não fique sabendo. Você pode dar um recado a alguém. Ou a ninguém. Você pode escrever num impulso, pelo simples prazer de fazer jogo com as palavras, brincar com as sílabas semelhantes ou que se combinam mesmo sem nunca terem se encontrado em outro lugar. O bom de escrever poesia é juntar palavras e deixar fluir. Assim como eu faço agora escrevendo isso tudo ouvindo uma música qualquer e bebendo uma taça de vinho branco.

Branco.
Pouca coisa na vida é desta cor:
as horas sujam a camisa
o batom suja a gola da camisa
a mesa suja, suja a manga da camisa
o homem branco toma sol
a meia encarde
o papel ganha palavras azuis
a noiva pode casar em cores
o carro toma chuva
o sorriso amarela envergonhado
ou com o café
ou com o cigarro
ou com o que não se sabe.
Branco.
Pouca coisa na vida está às claras.

(sim, escrevi direto e agora. desculpem-me o ímpeto.)



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