crianças e filhotes
Quando eu tinha pouco menos de 13 anos e resolvi fazer magistério, eu não pensei no medo terrível que eu sentia de criança. Eu achava as crianças cruéis (e eu não estava errada, mas eu ainda não sabia o significado real da palavra cruel), metidas e corajosas demais para me envolver com elas. Eu era tímida e desajeitada com estes objetos frágeis que se movimentam involuntariamente. Sentia um medo terrível de que as crianças olhassem para mim e começassem a chorar e, até hoje, mesmo com tanto tempo de análise, eu não descobri de onde veio a tal paranóia. Mas eu não estava fazendo magistério para me dedicar à educação infantil. Eu já sabia que eu queria Publicidade e Propaganda e que o vestibular para o curso tinha peso maior em literatura, português, história, geografia e redação e, no magistério, se tem o mínimo de matemática, física e química – coisas que abomino até hoje. Mas isso é outra história, voltemos às crianças.
Pois eu não tinha medo de gatos, os animais de estimação vistos como traiçoeiros, mas tinha medo de criança. E das pequenas, médias e grandes. Tive um amiguinho cruel que colocou o meu gato angorá na privada do banheiro da empregada depois de lindamente defecar ali dentro. Claro que ele não esqueceu de puxar a descarga. Mas o bichano não foi sugado, graças a Deus. Mesmo assim, chorei por dias porque sempre lembrava do meu gato cinza e branco em um tom marrom, tremendo de frio e miando de desespero. Sim, as crianças médias e grandes são cruéis, mas as pequenas apenas são frágeis e requerem cuidados. Cresci pensando “não tenho jeito com criança”, “não sei segurar uma criança no colo”, “nunca vou distinguir um choro de fome de um choro de frio ou de dor”. Confesso que, às vezes, ainda penso que sou uma ignorante no assunto, mesmo tendo contato com o João Antônio, meu fofo, lindo e inteligente afilhado. Não é porque eu sou madrinha dele (num convite aceito depois da primeira madrinha escolhida ter demonstrado uma certa indiferença com o fato) que eu vou elogiar cegamente o bebê. Pela primeira vez que o vi, quase recém nascido, eu não consegui dizer ”como ele é lindo” e, claro que nem tentei pegá-lo no colo: eu tinha certeza de que eu ia desnucar a criança ou arrancar um bracinho fora. Com o tempo, João Antônio virou outra criança; a sua cabeça não mais pendia para qualquer lado e ele começava a ficar parecido com a mãe. Ufa! Não que o pai seja feio, é que a mãe é bonita demais para um filho não ter como herança aqueles gens. No decorrer, convivi um pouco com a família, pois ele passava do primeiro mês para o segundo bem na época em que eu morava temporariamente em Florianópolis (terra dele) para trabalhar na OneWG. Eu mal tocava na criança, ficava insegura, mesmo que a mãe dissesse que a “a Dinda consegue pegar, sim”. E, de repente, eu estava com ele no colo, segurando a cabecinha e vendo ele sorrir pra mim, o que me fez sentir uma sensação de “eu faço parte desta nova vida”. E eu voltei a Porto Alegre, o tempo foi passando para mim e para o João Antônio também. E, quando tinha tempo mas não tinha dinheiro, infelizmente, eu passava pelas vitrines de lojas infantis e tinha vontade de comprar tudo pra ele, mas tinha medo de escolher um tecido que dá alergia, um tamanho errado de uma blusinha ou um brinquedo perigoso para uma criança com apenas alguns meses. E, de vez em quando, me pegava com uma dor quase escondida de saudade e vontade de acordar e ver o pequeno todos os dias, acompanhar suas mudanças de perto e fazê-lo rir espontaneamente outras vezes. Eu podia vê-lo pelas fotografias enviadas por e-mail e não o reconhecia: este não é o João Antônio. Ele estava muito mais lindo, com os olhos mais claros, com um cabelo dourado e uma risada que exibia alguns dentinhos – isso que ele nem chegou ainda ao primeiro ano de vida. Tentei, muitas vezes, passar algum feriado em Florianópolis e nunca dava por uma coisa ou outra. Os presentes se acumulavam e resolvi enviar pelo correio um kit com 1) 01 camisetinha alguns números maior porque ouço falar e também vejo o quanto essas crianças crescem de um dia para o outro, 2) um bicho de pelúcia, afinal pelúcia não machuca criança alguma 3) um DVD do Peter Pan pra ele conhecer a Terra do Nunca, a Sininho e o Capitão Gancho depois de crescer mais um pouquinho. Não enviei tudo para poder presenteá-lo ao vivo na crença de que eu logo, logo viria o meu fofo. Pois esse dia chegou: e foi HOJE. Passei o dia com o João Antônio sem medo algum de segurar esse meninão de 9 meses e 11 quilos. Sem medo de que ele chorasse porque o meu instinto feminino dizia a mim que aquele bebê não choraria sem motivo. Sem medo de não fazê-lo sorrir, porque isso foi a primeira coisa que aconteceu quando eu olhei nos olhinhos dele. Sem medo algum de não entender o que ele estaria sentindo a hora que fosse. Sem medo porque a mãe, claro, estava sempre junto, até porque a mãe que ele tem é de uma dedicação incrível. Mas não posso esconder que tive muito medo quando, aos meus cuidados, enquanto a mãe amassava bananinha na cozinha, João Antônio, literalmente, rindo muito, fugiu de meus braços segurando um aparelho celular e rolou na cama feito o Jack-Jack e caiu no chão feito uma almofadinha, enquanto eu parecia me movimentar em slow motion tentando evitar aquilo. Minhas pernas e braços tremeram quando ele me olhou sério e esperou uns 5 segundos para começar a chorar. Mas eu tinha que pensar que não era o seu primeiro tombo, que ontem mesmo ele também caiu da cama quando estava aos cuidados da avó, acompanhada da tia. Eu tinha que pensar que criança cai e se machuca e se quebra e chora por horas. E o João chorou uns 5 minutos com pequenas pausas e teve só uma vermelhidãozinha na testa. Enfim, acho que perdi o medo de criança. Ao menos o medo de saber segurar um corpinho pequeno, fazê-lo se divertir, mesmo com uma ou outra escapulida rumo ao chão. Mas confesso que, depois do dia de hoje, ainda penso que meus gatos são os filhos ideais neste momento da minha vida. Ter uma criança em casa dá um trabalho e uma canseira (mesmo promovendo muita alegria) que só de pensar em um dia atrás do outro sozinha pra cuidar de um bebê me dá um pavor. Ainda quero muito ter filhos, mas como diz a mãe do João Antônio: “não se pode demorar muito porque, com a idade, a paciência diminui”, não sei se a maternidade vai fazer parte de mim. Não que eu já esteja muito velha pra isso, mas nunca fui muito paciente com ninguém e hoje, por azar, estou na TPM. Pra não pensar que nunca serei mãe, eu vou acreditar que o meu pavor aconteceu porque estou na TPM. Agora só falta paciência no cérebro. E uma restante estabilidade que não enxergo neste momento.
Enfim, este texto está longo demais e os meus gatos estão tocando suas patinhas em mim pra pedir carinho. E estes meus filhotes lindos e fofos merecem.
(Veja João Antônio abaixo. E mais abaixo, você encontra os meus filhotes que são felinos, ao menos, até agora.)