essa eu guardei só pra ti, internet.
lembra o cisto? pois é, ele foi embora ontem e é óbvio que vou confessar que minha despedida a ele foi um apertão que jorrou secreção pra fora. nojento? nem um pouco. quem é que nunca apertou uma espinha, um cravo na vida?
diferente da outra vez, desta fui enviada ao ambulatório sei lá qual da santa casa de porto alegre. a diferença entre uma sala cirúrgica e uma cabaninha de ambulatório é muita esteticamente falando, mas nenhuma delas te libera de ter de ficar toda pelada só usando aquele pedaço de pano estranho que puta, deveria ter uma versão para inverno.
me deixaram num cantinho do ambulatório, que tinha três cadeiras, esperadno para ser chamada. claro que vale o adendo de que nunca estive assim, desse lado de um hospital, como uma paciente. e bah, aquele pedaço de pano realmente não ajuda porque tu te sentes desprotegida. eu me senti desprotegida.
a promessa de carmela para carmela foi que dessa vez, seria simples. a carmela queria que fosse pequeno, not a big deal, you know? era um cisto. só isso. e o procedimento seria bem rapidinho e a anestesia local e PÁ-PUM, teria passado. só que daí, teve um problema.
o "cantinho", correto espaço onde me deixaram aguardando, tinha aquela quebra ou abertura gigantesca pra visão. na real, se fôr pra analisar a arquitetura, aquele "cantinho", era um corredor.
e daí passou o primeiro médico. ok, era só um médico, ele deveria estar fazendo um procedimento em alguém. e daí passou a enfermeira com uns troços na mão e ok, não sei o que era aquilo mas não deveria ser nada. que tal pensar em como organizar aquelas imagens de tal cliente? ah, não, tá complicado. então que tal pensar nos recortes pro html? ah, esse sim. e daí aquele barulho fenomenal de que bah, será que alguém tá vomitando? parece som de vômito. será que tá muito ruim? parece que está ruim. opa, de novo. nossa, deve estar ruim. acho que vou ficar olhando para aquela enfermeira no computador. é. ai, não. e daí lá vem alguém trazendo aquele negócio com rodas e uma pessoa em cima. a cabeça vira bem rapidinho pro outro lado e vamos torcer pra não enxergar nada. acho que estou ficando com medo. não. dá pra aguentar, né? vamos tentar quem sabe outra coisa. ih, o xixi está ficando mais apurado, dava pra ir ao banheiro mas acho que não quero me mexer, levantar daqui e daí ter de voltar. já pensou o que deve ter no caminho pro banheiro? quem sabe se concentrar no xixi? é, pode funcionar. por que ninguém permite um ipod aqui dentro? acho que seria bem melhor, os fones nos ouvidos, e daí não se escutaria esses passos, aquela máquina funcionando, o bipe, o outro bipe, o celular, bah, aquele médico já deve ter pedido pra ela não se mexer umas sete vezes. não sei se ele está sendo muito educado, mas ok, ele pode estar cansado, né? porra! mais um! dessa vez vamos tentar olhar para baixo, puta, mas já enxerguei. por que não viraram esse homem pro outro lado? aquela expressão do rosto dele... ele é gordo. tu viu que ele estava com os braços feito abraça o próprio corpo? será que vai passar mais algum carrinho? acho que não consigo ver mais um. dá pra desistir, não dá? o cisto não é tão feio, né? claro que ele não é, tenho convido com ele há tanto tempo sem dramas gigantescos, mas a bianca falou sobre fibrose. será que isso pode vazar pro corpo inteiro? que será que é fibrose? ai, saco, não tem google aqui. por que não se pesquisou antes? mas credo, né? o procedimento foi marcado há quatro dias, está ficando frio. será que vai ser naquela salinha? puta. o vômito de novo. aquilo não deve ser vômito. que coisa desagradável. essa pessoa deve estar sentindo muita dor, exausta. viu aqueles cobertores alí? isso é depressivo, carmela, aqueles cobertores. já pensou quem vai usar? no cheiro? o debaixo tem um furo, tá vendo? e se eu sair daqui? eu posso sentir medo, todo mundo pode, né? mas se eu aguentar? faz passar, faz passar, faz passar, faz passar. alguém devia me dar uma coisa pra se apagar. por que tem de se ver tudo isso? será que tem uma recompensa por se passar por isso? devia ter tomado stilnox antes de sair de casa. a bianca disse que queria que eu estivesse acordada. quanto tempo já deve ter passado? será que alguém está me vendo aqui? será que estou expressando cara de medo? acho que tem um tatu na narina direita. não deve ser. limpei o nariz antes de vir pra cá. tem mau hálito. óbvio que tem mau hálito. podia estar trabalhando. quanta coisa eu teria feito? bah, não devia ter lido o conteúdo do cliente. por que fiz isso? nunca fiz isso. odeio fazer isso. mas tá errado, descobri que a arquitetura está errada. por que não pára? faz passar, faz passar, faz passar. bah, se o v3 estivesse aqui já teria feito tanta merda. eu poderia falhar na coragem. eu poderia. as pessoas tem direito a isso. eu sei que tem. o pai e a mãe estão lá esperando. tu viu que triste aquela senhora lá? não! não mais um! fecha o olho rápido, fecha o olho rápido! não! e se ela ver que fechei os olhos? ela pode pensar que não quis ficar vendo ela passar no carrinho e isso deixaria ela triste. eu poderia sorrir e ela poderia achar que está tudo bem e que vai ficar bem. ela se sentiria segura, não? acho que ela não se sentiria sozinha e bah, estou me sentindo tão sozinha aqui.
as duas chegaram até mim numa velocidade impressionante, e dá pra se cogitar que quando se assimilou a presença delas, eu não me senti mais sozinha. só que eu chorei. não lembro o que elas tentaram me falar, só lembro que disse "estou com medo" e deixei aquele embrulho sair em lágrimas.
em segundos me pegaram pela mão e me levaram pra uma cabaninha. aquilo não era uma sala, nem a pau! estava eu, a enfermeira, a analupe e a bianca. deitei de barriga pra baixo e nem me importei com a quantidade de bunda que se estava sendo exposta. lembrei do xixi. e sim, eu tinha de segurar o xixi.
a bianca descrevia cada passo. cada ação. a anestesia levou séculos porque foram trocentas picadas e daí quando me perguntaram se era pior que tatuagem eu, com bochecha completamente amassada, disse que sim. imagina, quantas camadas tu estás perfurando pra aplicar a anestesia? e bah, tatuagem não tem tudo isso, né? tu tá vendo aquela mesa ali que coisa horrível? pra ti deve ser normal, mas puta, pra mim é assustador. óbvio, eu não disse nada disso em voz alta.
a anestesia baixou horrendamente a pressão. senti uma quantidade enorme de suor sair por todo o meu corpo e bah, a hora que eu tive certeza que ela ia começar a cortar, pedi pra ela não descrever pra mim. dali em diante não queria saber o que ela estava fazendo. eu sabia que ela estava tentando ajudar e bah, as duas foram um amor, mas eu confiava, sabe? sabia que elas fariam tudo certo, mas bah, eu precisava segurar. de novo.
lembro que teve aquela hora em que a enfermeira pegou na minha mão e que a bianca sugeriu de pensarmos em que tatuagem faríamos ali, naquele pedaço do ombro, onde o cisto morava, onde ficaria uma cicatriz, uma cicatriz que sinceramente, eu não estava dando a mínima. e daí eu resolvi não responder que não queria uma tatuagem ali e que eu não brainstormava tatuagem assim e sabe aquela mão da enfermeira? eu apertei. eu queria dizer tá difícil porque estou ouvindo tudo o que ela está fazendo ali e sinto toda a pressão e é desagradável. tu estás vendo o buraco que ela abriu e o que tinha dentro e tem sangue e eu como meu pai que não pode ver coisas expostas assim que desmaia, sabe? e não me pergunte como então gosto de ver CSI ou qualquer série que envolva medicina porque é diferente. agora sei que é diferente. aqui é ruim. esse cheiro é ruim. parece cheiro de coisa ruim. estou com medo, sabe? e está bom assim, segurando a tua mão.
o efeito da anestesia passou rápido demais. quando o suor começou a diminuir, comecei a sentir a bianca puxando aquele fio preto. e puta, ela puxava forte. e daí reclamei. tem dor. e ela disse que já estava terminando. tem dor, termina rápido.
pedi pra me vestir sozinha. lá no vestiário mesmo. eu tinha feito um pouco de xixi naquele pedaço de pano e eu não queria companhia naquele momento de "volta a si". ah, dei um beijo na bochecha da analupe quando agradeci e disse tchau. a bochecha dela era macia.
achei tão meigo no dealbook do new york times, naquele parágrafo em que eles dizem "Tuesdays news is especially interesting in light of a recent post on the GigaOm blog, which offered this offbeat suggestion: Apple Computer should buy YouTube."
tu pegas as palavras "post" e "blog" e elas parecem tão usuais, sabe? de tipo, elas já fazem tão parte da vida que a gente não precisa mais explicar o que é um post ou blog. óbvio que a impressão intelectual é bem diferente, mas a não intelectual, acha meigo.
a ah, eu não acho que a apple deveria comprar youtube. sou do grupo que pensa "aint gonna happen - not in a million, zillion, ca-gillion years".
Comments
eeehhhh, o alien saiu! mas que descrição, heim?
:D qd. tu vais ver a isabelinha? tu podes ligar pra mãe e combinar uma tarde com elas!
Posted by: gordinha | August 22, 2006 7:25 PM
fofinha!
eu tava ali bem pertinho e poderia ter ido junto pra segurar tua mão...
isso dá filme...
Posted by: malena | August 22, 2006 11:39 PM
vc precisa ler uma longa queda. precisa. depois dessa escrita maravilhosa quem é que sabe blogar, hein?
Posted by: mirela | August 23, 2006 12:14 AM
Ah, menina...com este post me senti do seu lado na "cabaninha"...Como disse antes...tomara que tenha valido a pena....Adeus...cisto!
Posted by: Gio | August 23, 2006 12:16 PM