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as passadas para a esquerda não estavam funcionando. eu não corri e você também não ficou sentado. tantas janelas abertas e uma única fechada. o vizinho da frente não estava lá e você sabia que eu gostava de observá-lo em dias de verão.
o pilar preto é intacto e nele tantas cores diferentes. você me disse que viu um coelho ali, e dali eu só consigo levar imagens para analisar num nono andar. seus braços não diminuem de tamanho, mas seu espaço no vazio... talvez.
eu ouço o que você não ouve, e nós sentimos tudo diferente. minhas mãos estão presas e seu pescoço está ileso. meus olhos não escorrem e seus poros não latejam. nós respondemos que vivemos, mas nossa pergunta não é para onde vamos.
(on dusty road) sete pessoas imaginavam que meus olhos estavam fechados quando você sabia que eu os mantinha abertos. a gente podia descer as escadas juntos, mas no último degrau você sempre me perguntava quando eu os voltaria a subir. você imaginava que eu tinha fôlego para quase tudo nessa vida, menos que me faltaria justamente quando nos encontramos há dois dias atrás. isso me faz lembrar daquele doce chamado carolina que vendiam nos finais de tarde nas padarias. essas carolinas era recheadas com muito doce de leite e alguns lugares os chamavam de "bombas". precisaríamos subir e descer infinitos degraus para queimarmos as calorias de uma carolina e de uma bomba sequer, mas eu não precisei subir ou descer nem meio degrau para não suportar mais a saudade que sentia de você. isso me tirou o fôlego enquanto te encheu de um odor em sentimento real.
(on snowsuit sound) tem vezes que gosto de imaginar que você ouve tudo o que eu ouço durante o dia. não, boboca, eu não estou me referindo a músicas não, estou tentando fomentar a idéia de que o ouvido da sua mente poderia ser capaz de captar todos os volumes das vozes que ouço, todas as falas que me são dirigidas e todos os comentários que sacodem o silêncio. sempre penso nisso quando me pedem para parar de dançar ou aparecem em minha sala dizendo que está na hora das perninhas. o mallman é o único que percebeu os barulhos que fazem meus braços se mexer e o fafá é o único que se mexe vez ou outra junto. mesmo assim o flávio ainda é o único que reclama da minha mania de criança. você precisava ouvir o que ouço. há barulho de crianças por toda parte e até mesmo quando um berço é imaginado, há uma música cantada e composta pra ela. e eu sei que você já percebeu que quando eu penso em te contar essas coisas eu me travo e apenas sinto que jamais conseguirei falar. penso tantas vezes nas versões de mãos dadas que conheço que nem me vejo esquecendo quantas veias saltadas consigo amar em suas mãos. as mãos das crianças seriam os adereços de manhãs em que não encontrariam as minhas e o balbuciar das palavras das crianças seriam os conselhos que você jamais me obrigou a te dar. você pensa que consegue dar um fim em suas histórias mas eu dou cabo de pretender que elas jamais terão fim. os adereços da sua vida são seus fios de cabelo branco e eu há meses venho tentando conta-los.
aquela coisa que você me viu fazendo, foi um conselho do luís. o luís henrique me aconselhou a ler em voz alta com uma caneta na boca, e quando você me vê pela janela fazendo isso, fica sem entender nada. acho que você ainda não se acostumou com a velocidade da minha respiração e tenho certeza que você imagina que eu consigo controla-la. de todas as coisas que você pensa que sabe de mim, aquela que eu gostaria de ter certeza que sabe, é a realidade do meu diálogo contínuo - um diálogo que só acontece quando consigo imaginar a sua face. se um dia você desaparece em forma pra mim, desculpe, mas não sei explicar porquê, mas já não consigo te ofertar sentenças e frases, idéias, parâmetros, valores e sentimentos. não, não arrancam nada de mim, mas apenas me afastam mais ainda de você, e olha que eu já imagino sempre que nós estamos bem distantes um do outro. não, por favor, não pense que isso é triste. os dias passam mas uma noite sempre volta e é justamente naquelas paredes brancas que constrastam as sombras, que eu mais tento te remontar. você sabe, eu nunca gostei de assistir videoclipes que me trazem historias prontas para as músicas que eu ouço. você sabe, nos meus videos de mente, meus personagens são sempre diferentes. e tudo bem que você vai brigar comigo dizendo que eu quero assistir ao filho do jeff novamente, mas pensa comigo, ele é apenas uma criança. tão real quanto você e eu juntos. conte um - dois e - três. feche os olhos. quando você abrir, eu estarei lá.
então você imaginava que as janelas estariam úmidas devido às chuvas que foram e ainda não ficaram. toda aquela janela te mostrava que as nuvens estavam alí, o dia inteiro, e por todas aquelas longas mas ao mesmo tempo rápidas horas. você sabia que eu daria um jeito para sair para dançar quando o bloco do almoço começasse a tocar e que minha caneca estaria quase no final daquele café constantemente doce demais. os cigarros despejavam suas fumaças através da outra janela e naquele espaço você sabia que eu gostava de ficar sozinha. quando o fax chegou você me viu observa-lo com mero cuidado e o guardando dentro da agenda que logo voltou para dentro da bolsa. a fita havia sido rebubinada e você riu porque se lembrou que eu havia gravado o cd errado que desejava ouvir em minhas viagens até o final da semana. a poltrona não desperdiçou os meus olhos fechados e ainda me trouxe os faróis envergonhados da freeway. os passos estavam fora da garoa e eu progredi o treinamento da mente para aquilo que preferia chamar de descanso ocasionado pelos movimentos de trabalho constante.
alguma noite não precisarei sentir o ardume das narinas com as fumaças vindas debaixo. o vizinho fuma maconha todas as noites e tem um péssimo gosto para incensos. e enquanto a narina arde recordo que ainda não imprimi a capa para minhas coletâneas de mp3 de outono. não haverá mais nenhuma, quem sabe para o inverno, mas a última capa foi metodicamente layoutada com folhas largas de própria estação. há uma pesada lista telefônica ao lado da cama. o abajur está desligado e a caneta para as anotações está para ser retirada da bolsa. ainda não coloquei o pijama, então você me entende, ainda não enxerguei a minha hora de dormir. com o intervalo de duas semanas e a minha possível evolução em níveis telefônicos de comunicação, acredito que saberei fazer qualquer imobiliária rir das minhas piadas sem graça. imagine que aquele engomado rapaz que tinha um anel bem mal desenhado nos dedos, naquele sábado de meio sol e dealership nos meus ouvidos, não compreendeu o quanto a atividade de visitação de imóveis poderia serdepressiva. ele não devia conhecer nem sequer um segundo de música com bateria ao fundo. me desculpe, mas ele nunca deve ter sincronizado o balanço dos olhos com uma baqueta atingindo um prato. e eu lembro que assim eu o fiz, justamente quando atingi meus olhos na janela do apartamento 508 da venâncio de número não lembrado no momento. diferente do apartamento 202 que tinha porta azul extremamente perfeita, o 508 as tinha marrom, e a janela dava para a janela do quarto do apartamento 513: mofado, empalhado, digno do ex-alcólatra aposentado que me imploraria para não ouvir sete vezes seguidas a mesma música, mesmo que o volume não importasse. e você sabe, eu só quero montar uma prateleira, e ligar meus cabos. ter meu cobertor vermelho sobre a cama e poder andar descalça num pequeno espaço - longe de todos, menos de mim.
(on atlantic coast highway) você sabe, eu adoro iogurte de mel. iogurte de mel às nove da noite, com lambida de tampa e colheres de plástico transparentes. você sabe, eu adoro entrar na sala com o iogurte de mel, deixar apenas uma das luzes acesa e meia janela aberta. desligar o dial e pedir o auxiliar. andar de um lado para o outro da sala, enchendo as colheres e tentando descobrir qual a falha na música que nunca conseguirei descobrir. você sabe, eu adoro o meu chaveiro em formato de coração. saio com ele e volto com ele porque às nove da noite eu sempre desisto da discoteca. o telefone não toca mais, os códigos do computador programado já estão todos pré-listados e as minhas pilhas de programações pela metade - e enfim, quase prontas. você sabe, logo o iogurte de mel acaba e eu fico com vontade de abrir mais um. aí é hora de aproveitar o sabonete de erva-doce que a dona Eva deixou no banheiro pra mim, lavar as mãos e amassar mais um pouco os cabelos que vivem amassados. juntar apetrechos perdidos, jogados, largados. não esquecer o livro de leitura predestinada para o caminho de volta e olhar para trás só mais um pouquinho. porque você sabe, quando eu fecho a porta para sair, eu sempre penso na hora que irei voltar.
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